3:15 AM

10 de maio de 2008 ās 19:02

São três e quinze da madrugada. Fiquei sabendo das horas não por estar acordado, e sim por ter sido novamente despertado por um incômodo ruído semelhante a um ronco. Grande foi a minha surpresa ao descobrir que o incômodo ruído era realmente um ronco. E muito mais surpreso ainda, fiquei, quando tive certeza de que havia algo dos meus vocais naquela insana sinfonia, ao constatar a imensa solidão que me acompanhava naquela noite.
Não esperei a certeza se confirmar tão severamente em meus pensamentos. Levantei-me da cama imediatamente, e após chutar alguns objetos e peças de roupas espalhados pelo chão, consegui finalmente chegar à porta do quarto. Notei uma leve brisa vinda da varanda e me encaminhei para lá. O clima convidava a um passeio noturno pelo jardim. Minha cabeça estava confusa ainda pelo maldito ronco. Tive vontade de acender um cigarro, mas logo me lembrei que não era fumante. Incrível notar como a vontade passou tão rápido.
Olhei o céu sob minha cabeça, que mais parecia com aqueles tapetes descritos nos romances cinematográficos, cheio de pontinhos brilhantes que as pessoas chamam de estrelas. Daí o nome estrelado. É, mas faltava algo para ser um filme. Havia eu, o céu estrelado, a noite fresca e a insônia, mas faltava algo. Sim, faltava a mocinha dos filmes, a princesa dos castelos com seus longos cabelos à espera de um príncipe para libertá-la do mal que sempre aflige as donzelas. Poderia dormir sem essa dura constatação da falta de uma figura feminina nesse meu sonho acordado.
Algo me fez lembrar o ronco despertador e percebi um ligeiro bocejar. Dizem alguns que abrir boca é falta de oxigênio no cérebro. Acho que era vazio no estômago mesmo. Voltei ao quarto, não antes sem passar pela cozinha e beliscar um pedaço de bolo de aniversário guardado há pelo menos uns três dias na geladeira. Minha geladeira, companheira de madrugadas e madrugadas. Ah, se minha geladeira falasse! Ficaríamos batendo papo até altas horas durante as minhas insônias. Com a impossibilidade desse fato, voltei para minha fria cama de colchão duríssimo, porém caríssimo, o que me motivava a usá-lo até o fim dos seus dias. Ou dos meus.
Como de costume não demorei a pegar no sono. Nem a acordar de novo. Seria eu sofredor de alguma espécie de insônia crônica? Não podia ser. Me alimentava muito bem, tinha uma vida super ativa. Como isso poderia estar acontecendo? Não sou médico, como poderia saber me diagnosticar nesse caso? Melhor esperar até a consulta, que já havia marcado umas trocentas vezes e não fui porque no dia marcado eu acordava maravilhosamente bem. Deve ser porque dormia muito bem, um tipo de defesa. Talvez por isso não tivesse ainda visitado o doutor. Se eu, que me conhecia desde que nasci, dormia comigo toda noite, tomava banho junto, enfim, tinha uma relação “melhor impossível” comigo mesmo, não sabia a causa da minha insônia, como poderia um simples doutorzinho dar conta dos meus problemas? Achei melhor procurar um psiquiatra, para quem sabe um dia, conseguir terminar esta estória.