A Crise ( crise ?)
22 de agosto de 2007 às 16:22
Senhores,
Pode-se falar em crise ?
Definição de Crise :
"Ponto de transição entre uma época de prosperidade e outra de depressão. Fase difícil , grave , na evolução das coisas , dos sentimentos , dos fatos ; colapso."
Dicionário Aurélio.
"Conjuntura cheia de aflições , incertezas e perigo."
Dicionário Caldas Aulete.
Sobre Definições :
Uma definição, para que seja dita perfeita , deverá explicar a essência íntima da coisa , cuidando-se que não usemos em seu lugar algumas propriedades. Os requisitos , porém , da definição da coisa incriada são os seguintes:
I. Que exclua toda causa , isto é , que o objeto não exija nada mais que seu próprio ser para sua explicação.
II. Que , dada a sua definição , não reste lugar para a pergunta : Existe ou não ?
III. Que não contenha , no sentido real , substantivos que possam ser adjetivados , ou seja , que não possa ser explicada em termos abstratos.
IV. Exige-se, por último (embora isto não necessite muito ser anotado), que de sua definição se concluam todas as suas propriedades ... as propriedades das coisas não se entendem enquanto se ignoram suas essências, pois , se ignorarmos estas , necessariamente perverteremos a concatenação do intelecto , que deve reproduzir a concatenação da Natureza... Assim , pois , distinguimos a idéia verdadeira e as outras percepções , mostrando que as idéias fictícias , as falsas e as outras têm sua origem na imaginação , isto é, em certas sensações fortuitas e , por assim dizer , soltas , que não nascem da própria potência da mente , mas de causas exteriores , conforme o corpo , em sonhos ou acordado , recebe vários movimentos. Ou , se se preferir , tome-se aqui por imaginação o que se quiser contanto que seja algo diverso do intelecto e onde a alma seja paciente ; tanto faz que tomes o que quiseres, desde que saibamos que é alguma coisa vaga e da qual a alma sofre , sabendo ao mesmo tempo como, pelo intelecto , nos livramos dela...A verdadeira ciência procede da causa para os efeitos ; a não ser que nunca , ao que eu saiba , conceberam , como nós aqui , a alma agindo segundo certas leis e como que um autômato espiritual... Como as palavras são parte da imaginação , isto é , fingimos muitos conceitos na medida em que , vagamente , por alguma disposição do corpo , são compostos na memória , não se deve duvidar de que também as palavras , como a imaginação , podem ser a causa de muitos e grandes erros , se com elas não tivermos muita precaução. Muitas coisas afirmamos e negamos porque a natureza das palavras leva a afirmá-lo ou negá-lo , mas não a natureza das coisas ; por isso , ignorando-a , facilmente tomaríamos algo falso por verdadeiro.
(Spinoza)
Preocupam-me as notícias dos mercados de capitais e financeiros tratadas pela imprensa e por analistas , como crise . Quem não tem a responsabilidade profissional de economista e administrador , principalmente , pode propor os descaminhos que imaginar ou entender ser o melhor , mas qualquer profissional precisa de habilitação e qualificação para o desempenho eficiente e coerente de suas obrigações.
São acontecimentos originados nos mercados de créditos imobiliários nos EUA , que estão superdimensionados e precisam ser corrigidos. Normalmente quem faz essa correção é o próprio mercado , com o governo monitorando os acontecimentos e desdobramentos para outros setores da atividade econômica e , a intervenção do banco central dos EUA corrobora isso , também , a intervenção de outros bancos centrais : União Européia , Japão , China , Índia etc.
O mercado de capitais é um elemento da economia , um apêndice , não a espinha dorsal. Considerando que as bolsas de valores não administram bens e serviços diretamente , pode-se compreender que elas são termômetros que refletem a temperatura dos negócios internos e externos dos países. Títulos , ações e moedas são produtos que podem variar abruptamente no curto prazo , com extrema facilidade ; por isso , os detentores desses ativos e direitos , principalmente os profissionais experientes , são mais cautelosos que os produtores de bens e serviços.
Somente os investidores (ou especuladores) inexperientes irão falir juntos com as economias em desenvolvimento mal administradas. Os experientes sabem que as taxas de crescimento apresentadas pelas economias internacionais e de mercados inflados como o imobiliário dos EUA não são consistentes , são meras acomodações e conjecturas estatísticas.
Os investidores profissionais agem algumas vezes como jogadores , mas não o são. Eles arriscam , mas não agem sem avaliar os riscos. As economias reais foram impregnadas de economistas populares e analistas de jornais , com parcos conhecimentos de Ciências Econômicas , de fato. Em consequência , o entendimento dos processos econômicos (para os leigos) passaram a seguir regras obscuras , na maioria dos casos.
A teoria das expectativas indica que os agentes econômicos , principalmente nos mercados de capitais , utilizam informações otimizadas para tomarem suas decisões. Mas as diferenças ou assimetrias no resultado final da produção dessas informações começa na coleta de dados , alguns agentes econômicos não sabem quais dados coletar , pior , muitos outros não sabem fazer o tratamento matemático e econométrico , adequados.
Informação é redução da incerteza , logo , é comum que agentes econômicos que operam nos mercados de capitais produzam mais incerteza do que certeza , pela natureza instável desse mercados.
Além disso , mesmo com coleta e tratamento adequados dos dados , produzindo informações confiáveis , os dados para coleta nem sempre estão disponíveis nos mercados , até mesmo os governos têm dificuldades na produção de informações confiáveis para a tomada de decisões , de modo geral.
Tampouco as agências de riscos escapam disso , elas erram e muito. Por exemplo , ninguém , rigorosamente ninguém , sabe , quais são os agentes econômicos (pessoas jurídicas) que são em última instância os detentores dos títulos denominados de subprime , aqueles destinados aos clientes com alto risco de inadimplência , no mercado imobiliário dos EUA , nem o banco central o sabe.
Daí , a necessidade de se reduzir os juros interbancários (redesconto) , para contribuir com a liquidez dos mercados e melhorar no médio e longo prazos a situação de bancos comerciais detentores desses títulos. O redesconto é um dos instrumentos de política monetária.
Todavia , não é possível estimar com segurança quais serão os impactos diretos nos níveis de produção de bens e serviços , nos EUA e no restante da economia internacional. Tudo é uma questão de equilíbrio entre as taxas de lucros para quem produz bens e serviços , ou vive da especulação.
Investimentos produtivos muito além do equilíbrio também geram desperdícios , projetos ineficientes e problemas no sistema financeiro nacional (créditos podres) e, é claro , o risco de deflação de preços em função da super-produção de bens e serviços . Esse foi o caso da Coréia do Sul nos anos 1990 do século passado , produziu casas que ninguém compraria ou alugaria , máquinas que niguém operaria. É preciso conhecer história econômica.
No Brasil , a taxa de câmbio é flexível , isto significa que está livre para refletir (com as intervenções técnicas e constitucionais do BACEN) a conjuntura nacional e internacional da economia. Ela exibe todas as realidades e conjecturas dos mercados. Por essa razão é , no momento , o mais confiável indicador da realidade econômica do Brasil. Vamos acompanhá-la.
Mas , observo novamente que o mundo está melhor preparado para enfrentar cenários adversos na economia , com a atuação rápida , eficiente e integrada dos bancos centrais e com a capacidade fiscal (gastos públicos) dos governos para contrabalancearem possíveis diminuições nas atividades econômicas , incentivando gastos.
Após a Segunda Guerra Mundial (1945) as crises econômicas vêm apresentando níveis de gravidade para as sociedades e para a própria atividade econômica cada vez mais controláveis , com a criação de organismos e métodos econômicos mais ágeis e eficientes para a manutenção do equilíbrio econômico. E , esses processos não decorrem de atos individuais e sim do apoio e da movimentação coletiva de nações e instituições.
Vale lembrar que o crédito ofertado no Brasil mal atinge 30% do PIB , em países com economia semelhante esse número pode chegar a 70% mais ou menos , nos EUA chega a 105% do PIB. Por isso a preocupação do BACEN norte-americano na diminuição dos juros do redesconto , para evitar uma retração significativa do crédito por parte dos bancos comerciais e por conseqüência , retração na oferta de moeda ao sistema econômico , ou , diminuição da liquidez.
A mundialização não pressupõe que a economia real esteja submetida às decisões financeiras , por questões técnicas ou estruturais. A submissão da economia real ao sistema financeiro decorre de poder econômico dos países centrais, que já possuem uma economia madura , isto é , sem muita oportunidade para crescimento vigoroso da produção de bens e serviços.
É por essa razão que os países desenvolvidos passaram a submeter as economias dos demais países ao sistema financeiro , que servem de válvula de escape para as limitações econômicas das suas nações.
Por exemplo : nos momentos de crise os agentes econômicos dos países centrais (desenvolvidos) vendem os títulos e ações comprados junto aos países em desenvolvimento ou subdesenvolvidos (queda nas bolsas) , para minorar prejuízos contabilizados nos países centrais e, ao fazerem isso contribuem para o aumento da oferta de moeda e crédito (liquidez) em seus países de origem , pois compram títulos e ações dos governos e economias (que consideram seguros e confiáveis) e esses governos (tesouros) em conjunto com seus bancos centrais , capitalizam-se , até que um novo equilíbrio econômico-financeiro seja obtido e esse excesso de recursos financeiros tenha que deixar os centros mais desenvolvidos em direção aos outros mercados de capitais , nos países em desenvolvimento , novamente , caso contrário , poderá acontecer desequilíbrio macroeconômico resultante do excesso de moeda nas economias desenvolvidas , nesse sentido os países em desenvolvimento funcionam novamente como válvula de escape.
A solução para o Brasil está em aproveitar os recursos financeiros baratos nos momentos de excesso de liquidez na economia internacional e criar uma economia dinâmica.
Assim , cumpre ao Brasil , quando possível , deixar de ser fornecedor de matérias-primas em primeira instância ao mundo , que assiste à emergência de novas potências como China , Índia e uma Rússia revigorada , enquanto ele mesmo não consegue equacionar e resolver problemas que remontam ao século XIX de sua História , quais sejam : titularidade da terra , educação universal e de boa qualidade , infra-estrutura desenvolvida , mercado nacional integrado e estabilidade política , institucional. Sem esses elementos constitutivos de um Estado moderno , não trilharemos o caminho do desenvolvimento econômico e social , de fato , ficaremos sempre no ora vejam só !.
Carlos Cezar

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Sobre o autor
Carlos Cezar Russo
Carlos Cezar Russo - Economista e Administrador.
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carloscezarcezar@yahoo.com.br
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Áreas de interesse : Análise econômica conjuntural e estrutural de cenários.

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