A Influência do Gênero na escolha Profissional

A INFLUÊNCIA DO GÊNERO NA ESCOLHA PROFISSIONAL

Fátima Mª Ferreira Barbosa Socióloga, formada pela Universidade Federal Rural de Pernambuco - UFRPE

O avanço tecnológico/cientifico e as transformações nas relações de gênero possibilitaram a entrada das mulheres ao mercado de trabalho e ao ensino superior. Apesar disso as carreiras científicas/tecnológicas não são prioridades na escolha do curso universitário das mesmas. Continuam a escolher as profissões consideradas femininas. 

Para efeitos da presente pesquisa, partimos do pressuposto que uma das determinações desse processo são as próprias relações de gênero, com seus desdobramentos na divisão sexual do trabalho reproduzida tanto no âmbito doméstico-familiar, quanto na escola, onde se realiza grande parte do processo de socialização. É importante enfatizar que embora sejam tratados como sinônimos os termos gênero e sexo são diferentes. 

De acordo com Machado o termo gênero foi proposto como uma alternativa ao termo sexo, pois homens e mulheres, masculino e feminino são categorias sociais historicamente produzidas que não devem ser reduzidas a uma categoria biológica. 

Segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura - UNESCO (2002) o quantitativo de mulheres que entram nas universidades é superior ao dos homens, mas a realidade é invertida quando são analisados os dados de pós-graduação e inserção no mercado de trabalho. Segundo Mariana Galisa (2005) dados do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq revelam que há uma tendência dos cursos nas áreas de Ciências Humanas, Ciências Sociais e Ciências Sociais Aplicadas, Lingüística, Letras e Artes, atraírem mais mulheres do que homens. Já nas áreas de exatas a diferença no número de bolsistas chega a ser quase o dobro (um pouco mais de oito mil mulheres contra quinze mil homens). 

Diante desses dados, a indagação ou problema nesta pesquisa de caráter exploratório foi saber quais são os fatores que influenciam homens e mulheres na sua escolha profissional. Seu objetivo consistiu em verificar as justificativas das escolhas profissionais dadas por homens e mulheres.
Para isso foi feito um levantamento com universitários/as. O instrumento básico utilizado foi um questionário com perguntas abertas e fechadas e suas respostas foram posteriormente sistematizadas e analisadas. Os/as entrevistados/as foram sondados a respeito do que motivou a escolha do curso, se o mesmo foi a primeira escolha, se estavam satisfeitos com os mesmo, bem como se sentiram ou não dificuldades no momento de decidir pela carreira profissional. 

A socialização de meninos e meninas acontece tanto na família quanto na escola. A família educa conforme o modelo constituído pela sociedade, segundo a classe social, sobre o que é masculino e feminino. Conforme afirma Francisca Alves & Viani Soares (2001) ao menino é permitido coisas que são vetadas às meninas, como subir em árvore, assobiar, brigar, correr na rua, etc. 

Para estas autoras a escola reproduz o modelo social ao repassar às professoras a função de segunda mãe, enquanto os homens não são bem aceitos para desempenharem tal função. 

A escola ainda reproduz as diferenças de gênero e legitima padrões de comportamentos diferentes para meninos e meninas, e conforme afirma Marilia Carvalho (2001) espera-se que as meninas sejam mais caprichosas e os meninos descuidados, caso contrário, serão avaliados como alunos/as problemáticos. 

Faz-se necessário trabalhar a educação numa perspectiva de gênero, pois é com base nas suas relações que podemos refletir a construção da identidade masculina e feminina, influenciada pela educação sexista e seu desdobramento na formação profissional das mulheres e dos homens. É fundamental aprofundar com pesquisas sobre estas questões, como maneira de contribuir com a transformação e superação dessa educação sexista e discriminatória. 

Há uma infinidade de literatura que trata sobre o conceito de gênero, bem como suas manifestações nas sociedades contemporâneas. Gênero deve ser compreendido como relação social que organiza a sociedade, cria e recria uma divisão sexual do trabalho, as relações entre homens e mulheres e entre si mesmos. Gênero se refere também a identidade subjetiva (DUQUE-ARRAZOLA Laura, 2004). Inicialmente um conceito rejeitado pelo mundo acadêmico, hoje já é uma categoria mais aceita pela academia como uma categoria relacional de análise (Joan Scott, 1991). Para as teorias de gênero, este é um conceito diferente de sexo. 

De acordo com Cristina Buarque (2006), a interpretação dos conceitos de gênero surge em decorrência dos interesses que envolvem espaços acadêmicos, ONGs feministas e não-feministas, no âmbito da cooperação internacional e, até do aparelho de Estado. A respeito, Eulália Azevedo (2006 p. 38): considera que

“O que é feminino e masculino numa determinada sociedade não é definido pelas características biológicas com as quais se nasce, mas pela forma como estas são representadas, ou valorizadas; tudo aquilo que se diz ou se pensa sobre elas constitui as chamadas representações de gênero.”

A crescente participação das mulheres no mercado de trabalho, nas esferas públicas, no movimento feminista e na vida política nacional tem sido responsável por conquistas importantes numa perspectiva de gênero e mudanças significativas nas políticas governamentais, como por exemplo, o programa de saúde da mulher; a lei Maria da Penha 11.340 de setembro 2006, a conquista da afirmação, na Constituição de 1988 da igualdade entre homens e mulheres, o sistema de cotas para um número mínimo de mulheres como candidatas à representação política dentro dos partidos políticos, sindicatos, entre outros. 

Antes vista apenas no âmbito das relações pessoais e do doméstico, a mulher passa a ser tratada politicamente, na esfera pública. Porém, essa luta pela igualdade e eqüidade de gênero é uma ação constante.
No que se refere ao problema de pesquisa, ou seja, quais os fatores que influenciam a escolha profissional, observamos uma tendência na qual predominam as mulheres a rejeição pelas profissões na área de Exatas; as disciplinas matemática, química e física foram rejeitadas por 33% das mulheres entrevistas, contra 11% de rejeição dos homens entrevistados.
Enquanto os homens preferem optar por cursos, com os quais têm maior afinidade, as mulheres rejeitarem os cursos nas áreas de exatas, preferindo as profissões estabelecidas pela sociedade como tipicamente femininas. 

No que se refere à satisfação com o curso apenas duas mulheres e dois homens afirmaram que não estão satisfeitas/os com o mesmo. Ressaltamos que 83,3% das pessoas entrevistadas afirmaram que o curso em que estão não foi a sua primeira escolha. Ou seja, não estão cursando o que realmente almejavam antes de prestarem o vestibular. Das nove mulheres entrevistas, apenas uma afirmou que o curso foi a sua primeira escolha e que está satisfeita com o mesmo. Em relação aos homens apenas dois fizerem essa mesma afirmação. 

Entre as pessoas entrevistadas quatro mulheres e três homens revelaram ter sentindo dificuldades para escolher o curso. Um dos motivos revelado a respeito dessa dificuldade está atrelada a presença das ciências exatas (física, química e matemática) para realizar as provas eletivas do vestibular. Um outro aspecto significativo, resgatado pelo questionário aplicado, foi à escassez de informações sobre o curso que desejavam estudar.
Podemos considerar que o resultado da pesquisa revela um dos modos masculinos de ser: a tendência a uma maior auto-determinação; bem como a tendência construída do feminino, a insegurança das mulheres face a suas competências. Tendências de homens e de mulheres aprendidas em seu processo diferenciado de socialização (DUQUE-ARRAZOLA, Laura 2004). 

Dado o caráter exploratório da pesquisa, não é possível afirmar que haja apenas um fator determinante para escolha profissional. Essa escolha pode estar relacionada com outras variáveis, tais como: o meio e o momento em que se vive; as condições econômicas e sociais, além das relações de gênero condicionantes da socialização de homens e de mulheres e da sua formação identitária. Portanto, os dados sugerem a necessidade da realização de mais pesquisas para investigar a relação entre tais variáveis.

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALVES, Francisca Elenir & SOARES, Viani da Silva. Meninos e Meninas – Universos Diferenciados na família e na Escola. In: FAGUNDES, Tereza Cristina P. C. (org.). Ensaios sobre Gênero e Educação. Salvador: UFBA - Pró-Reitoria de Extensão, 2001 (Série UFBA em Campo: Estudos).

AZEVEDO, Eulália Lima. Gênero: Trocando em Miúdos. In: “Caderno de textos e trabalho”/Iole Macedo e Terezinha Gonçalves (organizadoras). – Salvador: REDOR, 2006.

BUARQUE, Cristina. Introdução ao Feminismo. In: “Caderno de textos e trabalho”/Iole Macedo e Terezinha Gonçalves (organizadoras). – Salvador: REDOR, 2006 209 p.

CARVALHO, Marília Pinto de. Mau aluno, boa aluna? Como as professoras avaliam meninos e meninas. Estudos Feministas, v.9 n. 2, p. 554-574, dez. 2001.

DUQUE-ARRAZOLA, Laura. O Lugar das mulheres nas políticas de assistência social: um estudo sobre a experiência do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil em Pernambuco. Tese de doutorado em Serviço Social/CCSA/UFPE, Recife, 2004.

GALISA, Mariana. 2005 [On-line]. Mulheres na pesquisa: uma realidade. Disponível em: <http://memoria.cnpq.br/noticias/2005/080305.htm> Acesso em: 10 nov 2006.

MACHADO, L.M.V. 1999. A incorporação de gênero nas políticas públicas. São Paulo: Annablume editora. 108p.

MACHADO, Leda Maria Vieira. A incorporação de gênero nas políticas públicas. São Paulo: Annablume, 1999. p. 15

SCOTT, Joan. Gênero, uma categoria útil para análise histórica. Recife: SOS- Corpo, 1991

UNESCO. 2002 [On-line]. A educação superior no Brasil. Disponível em: <http://www.iesalc.unesco.org.ve/programas/legislacion/nacionales/brasil/leg _br.pdf> Acesso em: 02 jul 2006.






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Sobre o autor

Fátima

Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Federal Rural de Pernambuco e estudante de Licenciatura em Ciências Sociais pela mesma univesidade.



Comentários


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