A Revolução financeira silenciosa

Tal como o falecido ‘pai’ da gestão, Peter Drucker, referiu que os fundos de pensões correspondiam a uma revolução no capital financeiro (no seu livro ‘The Unseen Revolution: How Pension Fund Socialism came to America’, de 1976, e depois,  quando já era óbvio para todos, em ‘Pension Fund Revolution’, de 1995), também os Fundos Soberanos (Sovereign Wealth Funds, na designação anglo-saxónica) correspondem, hoje, a uma nova revolução no capital financeiro, já no século XXI.

 

A revolução financeira ocorrida nos anos 1970, ‘revelada’ por Drucker, era, de facto, paradoxal: os ‘explorados’ do Capital, os trabalhadores por conta de outrem, através dos seus fundos de pensões, passavam a grandes investidores financeiros – dos maiores do mundo. Basta recordar o peso hoje de um Government Pension Investment Fund do Japão (1274 mil milhões de dólares, o maior do mundo), de um Stiching Pensioenfonds ABP da Holanda (316 mil milhões) ou de um California Public Employees Retirement System (conhecido por CPERS, movimentando 237 mil milhões).

 

Agora, de novo paradoxalmente, são os países outrora explorados do Terceiro Mundo que despontam para o capital financeiro. Uma revolução, que tem sido silenciosa, começa, agora, a chegar aos media, por força da crise do «subprime» e do que há-de vir na pirâmide de derivados e outros instrumentos financeiros inventados nos últimos dez anos.

 

Se Rudolfo Hilferding, o teórico do capital financeiro em 1910, regressasse do túmulo, não acreditaria no que os seus olhos veriam: os antigos destinos do investimento das então designadas potências imperialistas são, agora, a força financeira emergente.

 

 

Uma nova fase de globalização

 

Esta novidade deverá entender-se num novo contexto: poderá estar a abrir-se uma nova fase de globalização, a partir do início do século XXI.

 

Ela poderá encontrar algum ‘alimento’ num facto que ocorreu desde 1995: os fluxos globais de capitais quadruplicaram em valor e aumentaram 2,5 vezes em termos de peso no PIB mundial. De 1,5 biliões de dólares (triliões, na nomenclatura anglo-saxónica, ou seja 1.500 mil milhões de dólares) em 1995 para 6,4 biliões em 2005, segundo as estatísticas do FMI, agora divulgadas. O peso no PIB passou, em dez anos, de 6% para 14,5%. Apesar de quebras pontuais em 1998 e 2002, a curva desta tendência é claramente ascendente. O que conduziu os políticos a autonomizarem claramente o investimento estrangeiro em relação ao comércio internacional. No passado, tendia-se a classificar o investimento estrangeiro como um item do comércio internacional.

 

É, neste quadro, que surgiram dois fenómenos que estão a alterar a geografia do próprio capital financeiro mundial: uma nova classe de multinacionais, oriunda dos países emergentes, posicionar-se-á globalmente (como já é visível na estratégia ‘go global’ dos grupos privados indianos ou mexicanos, ou estatais chineses); e um grupo de novas instituições de investimento internacional que ocupará um lugar crescente nos fluxos financeiros (com destaque para os fundos soberanos dos exportadores de petróleo, da China e da Rússia, designados em inglês por SWF, e para os bancos centrais dos emergentes).

 

O peso dos fundos soberanos e dos bancos asiáticos tem estado sujeito a controvérsia. Podemos procurar avaliá-lo a partir de duas fontes: o relatório do ano passado do McKinsey Global Institute (MGI) (Outubro 2007) e uma avaliação preliminar, mais recente, realizada por Edwin M. Truman para o Peterson Institute  for International Economics (Abril 2008).

 

Segundo o MGI, em finais de 2006, os activos em dólares de fundos soberanos em petrodólares e dos bancos centrais asiáticos somavam 5,4 biliões (5.400 mil milhões), 3% de todos os activos financeiros mundiais (que totalizariam 176 biliões) e 8% dos activos financeiros sob gestão (que totalizariam 68,5 biliões). Em que os bancos centrais asiáticos somariam 3,1 biliões e os fundos soberanos em petrodólares 2,3 biliões. Este montante poderá multiplicar por 1,5 vezes até 2012, segundo o MGI, no seu relatório ‘The New Power Brokers’ (Outubro de 2007).

 

O MGI considera-os como dois dos quatro novos actores financeiros mundiais e sublinha que não se trata de um fenómeno passageiro, mas que representam uma mudança estrutural.

 

Por seu lado, Truman (‘A Blueprint for SWF Best Practices’, Peterson Institute), analisando 54 fundos soberanos (SWF) provenientes de 37 países, refere um total de 5,3 biliões de dólares em activos, dos quais cerca de 3 biliões de SWF não ligados a fundos de pensões (e não só provenientes de petrodólares, como no caso do relatório do MGI) e 2,3 biliões relacionados com fundos de pensões (como os mais célebres do Japão, Holanda e Califórnia já citados), o que pode ser mais discutível como pertencendo ao universo dos SWF.

 

Ainda segundo Truman, as aplicações no estrangeiro deste conceito amplo de SWF somariam 3,5 biliões, com destaque para 10 países de origem, em que os seis fundos dos Emirados Árabes Unidos liderariam com 762 mil milhões. Em alguns casos, como a Noruega, China, Rússia e Arábia Saudita, a totalidade desses fundos está aplicada em activos estrangeiros.

 

De acordo com a classificação de Truman, os fundos soberanos provêm de liquidez adquirida com exportação de recursos naturais (a maioria; com destaque para o petróleo), de reservas cambiais da exportação (por exemplo, o China Investment Corp), de excedentes fiscais (por exemplo, o Shanghai Financial Holdings ou o Future Fund da Austrália, e casos de fundos de pensões em França, Irlanda e Nova Zelândia) ou de contribuições dos empregados (os mais conhecidos são os do Japão, Holanda, Califórnia e Quebeque).

 

Apesar de alguns do SWF datarem dos anos 1950 (Saudi Arabian Monetary Agency, Kuwait Investment Authority) e outros dos anos 1970 (Tamasek Holdings de Singapura, Abu Dhabi Investment Authority and Council, e três norte-americanos, entre eles o mais conhecido do Akaska), tem havido uma vaga de criação nos últimos três anos, com destaque para dois russos já este ano (2008), dois chineses e um dos EAU (Emirados Árabes Unidos) em 2007, e dois do Dubai, um da Austrália, outro da Líbia e outro do Chile em 2006.

 
Uma mudança estrutural

Do ponto de vista geoeconómico, o MGI considera os fundos soberanos e os bancos centrais asiáticos como dois dos quatro novos actores financeiros mundiais e sublinha que não se trata de um fenómeno passageiro, mas que representa “uma mudança estrutural”. Truman, por seu lado, refere que estamos a assistir a uma “redistribuição dramática da riqueza mundial dos países industrializados tradicionais para outros países que historicamente nunca foram grandes jogadores na finança internacional”.

 

Esta viragem teria a ver com um movimento global de liquidez nos mercados emergentes.

 

Poderá parecer paradoxal, mas, como revelou este mês o FMI, 39% dos fluxos financeiros mundiais que alimentam os próprios mercados maduros provêm de mercados emergentes. Esta alteração de peso deu-se entre 2004 e 2005 – é, por isso, muito recente. Representam muito mais do que os fluxos alimentados pelos Estados Unidos ou pelos países ricos da Ásia.

 

Acrescente-se, ainda, que o investimento directo dos países emergentes no estrangeiro passou de menos de 1% do seu PIB em 1990 para 10% em 2005, segundo dados do FMI. O que poderá estar ligado ao facto de que a balança corrente agregada dos países emergentes passou de um défice de 1% do PIB (global desses países) em 1997 para um excedente de 3% do PIB em 2007, segundo a Goldman Sachs (Global Economics Weekly, 26 de Março 2008).

 

 






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Sobre o autor

Jorge Nascimento Rodrigues

Jorge Nascimento Rodrigues, português, nascido em 1952, editor na área de management e tecnologia. Fundador e editor na Web de www.janelanaweb.com e www.gurusonline.tv. Colaborador do semanário português Expresso desde 1983. Coordenador da Revista Portuguesa e Brasileira de Gestão (Indeg, Lisboa, e Fundação Getúlio Vargas,Rio de Janeiro). CEO do Grupo Adventus (www.groupadventus.com). Pode ser contactado pelos emails: jnr@groupadventus.com e jnr@mail.telepac.pt





Ilustração: Jorge visto pelo traço de Paulo Buchinho, um dos ilustradores portugueses de renome internacional. Pode ser contactado através do seu portal www.paulobuchinho.com.



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A economia mundial irá se recuperar em 2009?

Completamente.
Moderadamente.
A economia não irá se recuperar em 2009.





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