A infraestrutura urbana no contexto da mobilidade para a economia

As perdas econômicas associadas ao desperdício de tempo no deslocamento nas grandes cidades.

O uso do tempo com o deslocamento casa-trabalho tem sido um dos grandes desafios no quesito mobilidade urbana para as cidades brasileiras. Estima-se, segundo pesquisa da FIRJAN de 2015, que aproximadamente 17 milhões de trabalhadores gastam em média 114 minutos por dia no deslocamento casa-trabalho.

Obviamente, tais perdas associadas à infraestrutura urbana trazem consequências à economia, algumas de difícil apuração, como o stress e doenças ocupacionais associadas, porém, estima-se também uma perda superior a R$111 bi apenas em 2015, decorrentes da produção sacrificada, ou seja, o tempo perdido pelo trabalhador no seu deslocamento interfere diretamente na sua capacidade produtiva.

A manutenção deste cenário implicará em severas limitações econômicas e, principalmente, restrição estrutural ao crescimento sustentável do país, uma vez que a oferta de serviços de base não atenderá a crescente demanda, tanto no meio social, que implica em problemas para os agentes econômicos através da mão-de-obra empregada e perda de produtividade per capita, quanto também com o constante acumulo de prejuízos e consequente repasse destas perdas ao preço final de produtos que utilizam a malha viária como principal meio de transporte.

Torna-se com isso, fundamental a revisão de políticas publicas que priorizem estes aspectos estruturais em todos os âmbitos, desde a busca pela melhoria da qualidade de vida dos cidadãos, que também contribuirá em consequência para o desenvolvimento econômico, mas também para que se reduza a perda produtiva e os prejuízos de produção decorrentes da má condição de mobilidade.

 “O progresso das cidades e o seu crescimento populacional ocorrem em velocidade muito maior em comparação às necessidades dos seus habitantes e às obras públicas executadas; isso gera um descompasso no crescimento urbano”.

A afirmativa supracitada reflete um dos grandes gargalos ao crescimento econômico de maneira sustentável. O tempo de deslocamento nas regiões metropolitanas brasileiras tem imposto severas limitações à economia. Além das perdas associadas à produtividade do trabalhador, estimada, em levantamento de 2015 da FIRJAN, em R$111 bi decorrentes de problemas ocasionados à produtividade em decorrência da fadiga, a falta de infraestrutura viária causa também perdas no cenário logístico de bens e produtos de consumo.

A utilização da malha viária como principal modal de transporte de carga coloca o Brasil numa condição precária quando o assunto é deslocamento. O transporte de carga em centros urbanos e o pouco rigor no controle de utilização das vias por veículos pesados, além da ausência de planos diretores eficientes no uso do solo e crescimento estruturado das cidades contribuem para este aumento no tempo de deslocamento. Soma-se a isso uma conjuntura de regiões reprimidas economicamente que por não possuírem projetos e ações de desenvolvimento associadas ao seu potencial ou capacidade de desenvolver-se, que migram diariamente seus trabalhadores aos grandes centros urbanos, são estes, inclusive, os que mais sofrem com o tempo em deslocamento casa-trabalho.

De acordo com o IPEA, em 2012 mais da metade (54%) dos domicílios brasileiros dispunham de um automóvel ou motocicleta para o deslocamento dos seus residentes, além de uma mudança de perfil no padrão de mobilidade, verifica-se neste quesito que cada vez mais as pessoas estão buscando o transporte próprio como alternativa às suas respectivas condições de deslocamento, entretanto, esta saída, em grande escala não tem representado um ganho, mas sim, um aumento no gargalo estrutural de deslocamento, já que a malha viária e o desenvolvimento das cidades não acompanha no mesmo ritmo este crescimento. Por exemplo, em 2008, esta mesma pesquisa do IPEA demonstrava a presença de veículo em 45% dos lares, subindo cerca de 9% 4 anos depois, investimento proporcional na malha viária que não foi visto em nenhum dos grandes centros urbanos.

Como um dos agentes econômicos, o Estado pode intervir na busca de aperfeiçoar as condições estruturais da economia. Falhas de mercado como as vistas no quesito mobilidade interferem drasticamente na eficiência e na capacidade de sustentabilidade, uma vez que gera-se uma contínua cadeia de perda de valor aos demais agentes, acumulando-se na parte mais frágil do processo.

O impacto das maiores distâncias percorridas nas regiões metropolitanas, consequência do espraiamento urbano, mas também de um processo de piora das condições de mobilidade nas cidades, principalmente com referências às condições de trânsito urbano e degradação do transporte público apresenta importante ponto de desenvolvimento na economia brasileira e também um importante passo à melhoria na qualidade de vida.

O Estado tem um papel decisivo no equilibro desta conta. Bem verdade que as melhores condições de acesso a veículos e financiamento auxiliaram neste crescimento, mas, de fato, grande parte das pessoas buscaram no automóvel próprio uma saída para esta perda cada vez maior de tempo, além do conforto. Na contramão deste processo precisam existir políticas publicas que tornem cada vez mais efetivos à sociedade uma melhor utilização dos meios de deslocamento. Transportes de massa com condições confortáveis e seguras de viagem são possibilidades já praticadas em algumas regiões do país, inclusive, por meio de PPP’s, que desoneram do Estado uma boa fração do investimento inicial necessário.

São vastos os caminhos e oportunidades percebidas para o desenvolvimento econômico no viés de mobilidade, outro exemplo, caminha indiretamente ao problema, mas apoiam numa mudança de contexto cultural de base, como políticas de desenvolvimento de regiões reprimidas economicamente, territorializando através de um plano diretor de desenvolvimento das cidades, zonas com maiores oportunidades de investimento em contra partida a incentivos fiscais ou mesmo parcerias no modelo PPP.

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Tags: economia infraestrutura urbana mobilidade urbana