A natureza do comportamento humano nas organizações. Parte II

Analisar a natureza do comportamento organizacional é diferente de analisar o comportamento organizacional.

O comportamento humano, dentro do contexto organizacional, embora possa ser percebido da mesma forma também a outros cenários, representa a extensão visível do pensamento que, por vezes, segue acompanhado das emoções. Essa última, ora mais evidente, ora menos. Enfim, o comportamento é o pensamento percebido e transferido ao meio. 

Quando a razão, representando a conjectura do pensamento, chega a uma definição de forma mais rápida, e determinado assunto é superado por meio da conclusão, essa, geralmente, não recorre à emoção como ferramenta de reforço a decisão, e a questão se dá por encerrada.

Por exemplo: responder quanto é dois mais dois, para você mesmo. No entanto, quando essa mesma resposta simples é direcionada a outra pessoa o cérebro pode recorrer a fontes emocionais para complementar a resposta e, certa rispidez pode ser o reflexo dessa associação.


Mas como definir o comportamento nesse imbróglio?


O comportamento consiste em ações ou ausência delas, que são representações de nossas considerações pensantes, socialmente perceptíveis. Por exemplo: você cumprimenta fervorosamente um amigo no trabalho e ele o retribui da mesma forma, com um aperto de mão e um abraço apertado. Por outro lado, outro colega, sem nenhum motivo aparente, nem responde ao seu bom dia. Logo, nesse último caso, a ausência de ação representa uma ausência de comportamento esperado, já que o simples não falar reflete o pensamento. Mas, no entanto, a ausência de comportamento também é um comportamento. Em ambos os casos o comportamento é percebido e é consideravelmente inegável que, de alguma forma, representa um modelo de pensamento de quem o emitiu.


O comportamento é a parte visível e social do pensamento, como dito antes. Pense na imagem do iceberg, o comportamento é o que você enxerga. Nele, no comportamento, nenhum indivíduo é isento de si mesmo.


Mas, como assim?


Em situações onde naturalmente dispomos de nossas capacidades de raciocínio, quase todas, somos capazes de analisar conjunturas que se apresentam a nossa volta e chegam até nós. Quando realizamos essa análise, também realizamos interpretações. Essa interpretação é intrapsíquica, portanto, de autoria exclusiva de cada indivíduo. Dela, da interpretação pessoal, brotam conclusões. Essas conclusões representam significados que alcançam a área externa do pensamento via comportamento.

Para ilustrar, imagine, por exemplo, dois colegas de trabalho em uma discussão acalorada. Se essa discussão tem para você um significado de normalidade é provável que você não faça nenhuma intervenção. Por outro lado, se tal situação significa um desconforto para você, é provável que você tome alguma atitude. Sua ação ou ausência dela, que em ambos os casos representa um comportamento, reflete seu modelo de interpretação sobre o fato. Sendo assim, o indivíduo não está isento dele próprio por mais que  queira terceirizar determinado comportamento diante de algum fato. A responsabilidade da interpretação está conjugada à autonomia comportamental e é um componente intransferível.


Vale ressaltar que a inaptidão comportamental pode ser fruto da limitação de repertório interpretativo. Ou seja, ao analisar determinada situação, a interpretação pode surgir de maneira deficitária e parcial em razão da ausência de componentes que possam se associar as explicações.


Por exemplo, voltando ao colega que não respondeu ao seu bom dia: desconsiderando que ele possa ter um problema pessoal e momentâneo, resta a probabilidade de que ele possua um conceito formado a seu respeito. Esse conceito pode representar um “pré-conceito” ao não dispor de todas as informações que o levaram a tal conclusão e por fim a tal comportamento. Um preconceito é tudo que antecede ao conceito finalizado, mais não o forma por completo, permanecendo assim em âmbito inconclusivo. Porém, gerando opinião. 


Mesmo que você, enquanto emissor, tenha dado a ele, receptor, razões para tal comportamento, a interpretação dessas razões é de responsabilidade do receptor e não sua. Portanto não há isenção do receptor do comportamento, nesse caso, da negativa do cumprimento. O que você emite como fator normal pode ser interpretado como anormal pelo receptor. Por exemplo, um bom dia oferecido de forma muito alta e espalhafatosa pode ser interpretado como falta de educação em um ambiente mais requintado e que demanda silêncio e discrição. Mas, essa interpretação pertence sempre ao receptor.


Se a liberdade humana interpretativa não se convertesse em comportamento compatível com a própria interpretação individual, todos nós reagiríamos a um determinado fato de maneira igualitária. Descaracterizando assim a capacidade humana frente aos acontecimentos e nos tornando uma extensão involuntária dos fatos ambientais.


O mérito da fineza ou postura profissional, no exemplo citado, não é o objeto desse artigo, mas os motivos que possam ocasionar a postura e a fineza em ambientes organizacionais. Dentro desses motivos estão as responsabilidades interpretativas de cada indivíduo e essas responsabilidades encontram fronteiras na falta de conhecimento e informação ou em padrões conceituais concretizados ao longo do tempo. O que acaba por resumir questões amplas em análises rasas e comportamentos superficiais que são, muitas das vezes, frutos de interpretações parciais dentro de contextos produtivos.


Em relação ao ambiente de trabalho e ao seu desempenho, se suas interpretações não estão amparadas por positividade, lembrando que apenas a você cabe essa interpretação positiva, provavelmente seu comportamento decorre em função desse significado, que você mesmo atribui ao ambiente. Que tal repensar sua interpretação e assim realinhar seu comportamento e sua performance?


Nem tudo obedece à lei da terceirização! Se o comportamento são ações e essas são extensões dos pensamentos, não parece coerente querer ajustar comportamento desconsiderando o pensamento. Pense bem!!

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