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A sociedade contemporânea e seu estado líquido

Estamos vivendo em uma sociedade liquida, segundo Bauman, e esta liquidez perpassa toda as relações interpessoais e materiais. Bauman nos alerta que so a educação pode superar este estado liquido.

Introdução
Na sociedade contemporânea muitos são os acontecimentos que levantam o questionamento acerca da duração das coisas. Aparentemente, tudo que era eterno passa a ceder a uma espécie de intensa efemeridade. O que era para sempre não é tão para sempre assim. As consequências da afirmação dessa efemeridade não pertencem simplesmente ao campo teórico-acadêmico, mas forjam implicações diretas na organização da vida das pessoas em sua cotidianidade.
Bauman é um sociólogo polonês, que viveu muitas dificuldades em toda a sua história, especialmente em função da perseguição nazista da Segunda Grande Guerra, e depois, por causas de suas convicções, é o fundamento escolhido para o estabelecimento de categorias de análise da realidade contemporânea.
Far-se-á, portanto, a exposição de importantes fragmentos da bibliografia de Bauman, com o objetivo de elucidar e analisar melhor os fenômenos das relações humanas na sociedade hodierna e os desafios que se afirmam e se anunciam frente às relações sociais.
Para tanto, o artigo apresenta, em primeiro lugar, a biografia de Zygmunt Bauman; em seguida, fragmentos de uma parte de sua vasta bibliografia, especialmente elementos que contribuem para o entendimento do conceito de líquido como chave hermenêutica da sociedade; e, por fim, considerações acerca da urgência de transformar a sociedade líquida em uma realidade mais consistente que supere a insegurança e ofereça perspectivas de vida às pessoas.
Biografia
Zygmunt Bauman nasceu em Poznan, na Polônia, no dia 19 de novembro de 1925. Em 1939, foi obrigado a, junto com seus pais, também judeus, fugir da Polônia por causa das tropas nazistas que invadiram o país e aprisionaram muitos judeus nos campos de concentração. Eles se refugiaram, então, na União Soviética. Em 1943, aos 18 anos, Bauman se alistou no exército polonês formado na própria União Soviética e, em 1945, entrou para o Serviço de Inteligência Militar, onde permaneceu por três anos.
Com o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, Zygmunt voltou para Varsóvia, onde conciliou a sua carreira militar com os estudos universitários e com a militância no Partido Comunista. Em 1946, ingressou na Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade de Varsóvia, onde inicialmente começou a estudar Sociologia, mas logo teve que passar para o curso de Filosofia, já que aquela disciplina foi cancelada por razões ideológicas. Continuando a sua vida acadêmica, Bauman encerrou o mestrado em Filosofia; entretanto, em seu doutorado, o qual se encerrou em 1956, voltou o seu olhar e atenção novamente para a Sociologia.
Em 1948, casou-se com Janina Bauman, que também era escritora. Uma judia de família próspera que sobreviveu aos horrores da invasão nazista. Juntos, viveram até 2009, ano em que ela morreu, e tiveram três filhas, Anna, Irena e Lydia.
Em março de 1968, uma série de protestos de professores, estudantes e artistas que lutavam contra a censura do regime, culminou com a obrigação de muitos poloneses de origem judia a deixarem o país. Bauman e sua mulher foram também expulsos da Polônia e se exilaram em Israel, onde ele lecionou na Universidade de Tel-aviv. Em 1971, foi convidado para lecionar Sociologia na Universidade de Leeds, Inglaterra, onde também dirigiu o departamento de Sociologia da Universidade até sua aposentadoria, em 1990.
Sua aposentadoria não o fez parar de contribuir com a história do pensamento e com suas análises sociológicas. Ele escreveu até a sua morte, em nove de janeiro de 2017, aos 91 anos. Bauman deixou, além de uma bibliografia bem extensa, um grande legado através de seus livros que nos revelam o seu pensamento e um importante contributo para a compreensão da sociedade contemporânea.
A teoria de Bauman sobre “tempos líquidos”
O tempo em que estamos vivendo é chamado por muitos pensadores como ‘pós-modernidade’, termo que foi cunhado e popularizado pelo pensador francês Jean François Lyotard. Tal terminologia, porém, não é fruto de uma discussão já pacificada. A questão que persiste é acerca do real estabelecimento de um novo paradigma, distinto do forjado pela modernidade. Embora essa discussão seja de extrema importância, ela não é matéria deste artigo, o que se pode apontar sobre isso é que Bauman não utiliza este termo para caracterizar a sociedade hodierna, mas prefere lançar mão da metáfora do líquido/sólido, conceituando o tempo presente como “tempos líquidos”.
Para este autor, o líquido sofre constantes mudanças e não conserva a sua forma por muito tempo; por isso utiliza esta metáfora para o estilo de vida da contemporaneidade. A sociedade atual se assemelha ao estado líquido da água pela sua vulnerabilidade e fluidez, sendo incapaz, em suas várias manifestações e representações, de manter a mesma identidade, a mesma solidez por muito tempo, vivendo um tempo de fragilidade nas relações sociais e nos laços humanos.
No seu livro, “A cultura no mundo líquido”, Bauman justifica este termo dizendo:
O que torna “líquida” a modernidade, e assim justifica a escolha do nome, é a sua “modernização” compulsiva e obsessiva, capaz de impulsionar e intensificar a si mesma, em consequência do que, como ocorre com os líquidos, nenhuma das formas consecutivas de vida social é capaz de manter seu aspecto por muito tempo. “Dissolver tudo o que é solido” tem sido a característica inata e definidora da forma de vida moderna desde o princípio; mas hoje, ao contrário de ontem, as formas dissolvidas não devem ser substituídas (e não o são) por outras formas mais sólidas e “permanentes” que as anteriores, e portanto até mais resistentes à liquefação.
Neste processo de liquefação, emergem e acentuam-se na sociedade moderna o individualismo, a fluidez das relações, o passageiro. A cultura, neste mundo líquido, consiste em oferecer produtos para um mercado de consumidores onde nada dura, num consumo rotativo, numa constante oferta de novos produtos com tecnologias novas, mas que logo é superado e torna-se anacrônico, obsoleto.
Esse modelo de organização social seria menos grave se tal dinâmica reduzisse a relação do ser humano com os bens de consumo reconhecidamente materiais. No entanto, o que se observa é o reflexo, a repetição, desse mesmo padrão de utilização e consumo efêmero nas relações humanas.
O Indivíduo, nesta sociedade líquida, perdeu o sentimento coletivo e faz uma busca da felicidade nos momentos passageiros, visando ao presente e acreditando que a felicidade é vivida exclusivamente para si; situação que gera um ambiente instável e angustiante. Percebe-se, com isso, o crescimento consideravelmente do uso de antidepressivos e uma intensa busca de entretenimento como forma de afastar a sensação de vazio e de solidão.
Liquidez: a moda e o consumo
Esta perda do sentimento coletivo levou a uma busca incessante de autoafirmação manifestada, especialmente, pela vivência do modismo. Referenciando, Georg Simmel, Bauman observa:
A moda, diz Simmel, é uma forma de vida particular que procura garantir o acordo entre uma tendência no sentido da igualdade social e outra no sentido do isolamento individual.
A citação de Simmel, bem apropriada por Bauman, apresenta a sutil interferência da moda nas relações sociais. Ao mesmo tempo que ela parece favorecer uma espécie de igualdade entre os indivíduos, ofertando a eles uma forma de reconhecimento social, acentua seu isolamento e mesmo descaracterização de si, por meio de um esforço de homogeneização.
Analisando o mecanismo da moda, Bauman evidencia que ela não pode ser um estado permanente, estabelecido de uma só vez, mas é vivida até uma segunda ordem, até aparecer um novo modelo vigente. A moda é por um impulso de ser diferente, de se ter uma individualidade, mas, de fato, produz um efeito contrário ao desejado, pois em sua vivência se perde a individualidade.
Ainda segundo Bauman, essa fidelidade à moda fez com que a sociedade líquida fizesse a transição entre a compreensão de ter um bem permanente para a do descarte -desencadeando uma lógica sociológica do consumo. A principal preocupação da sociedade moderna é o descarte dos bens comprados e adquiridos, numa economia cuja preocupação principal se tornou a remoção do lixo produzido. Nada é feito para durar, tudo é transitório e passageiro.
Esta ideia singular do consumo fez com que a sociedade no mundo líquido deixasse de ser uma sociedade de ‘jardineiros’ (protagonistas da era da modernidade ‘sólida’) para se tornar uma sociedade de ‘caçadores’. Bauman diz:
A Caça é uma atividade de tempo integral no palco da modernidade líquida. Ela consome uma quantidade incomum de atenção e energia, deixando pouco tempo para qualquer outra coisa. Distrai a atenção do caráter inerentemente infindável da tarefa e adia para as calendas gregas – para uma data inexistente – o momento da reflexão e da percepção face a face da impossibilidade de sua realização.
De acordo com esse pensamento, na vida de um caçador nunca haverá um fim, não existirá a certeza de uma tarefa cumprida, mas sempre a busca de algo diferente, do novo. Na experiência dos caçadores, a ideia de fim não é sedutora, mas aterrorizante. Sempre haverá novas aventuras, sempre algo novo a conquistar. Os jardineiros, diferentemente dos caçadores, têm a preocupação com o cultivo, do produzir e arrumar, sabendo qual tipo de plantas cultivar e cuidar e que tipos de plantas retirar, sempre pensando no jardim como um todo.
Como uma ilustração do que fora dito acima, pode-se verificar, na dinâmica de vida dos adolescentes e jovens contemporâneos, um incessante imperativo do prazer, vivido especialmente pela satisfação das sensações, pouquíssimo irrigadas pelas ponderações próprias de considerações da razão. Das baladas regadas por “balinhas”, um sem número de “ficantes”, à obsessão de consumo dos smartphones e produtos tecnológicos. Retomando a analogia, são caçadores vorazes, famintos, quase que insaciáveis.
Assim, podemos dizer que a sociedade líquida é uma sociedade de consumidores - o consumo se tornou o elemento central da identidade do ser humano. Hoje os sujeitos são analisados pelo que têm e não pelo que são, isto é, o Ser deu lugar ao Ter, o consumo passou a ter um peso primordial na construção da personalidade e do status quo dos indivíduos.
Se tudo se resume ao consumo e à satisfação por completo, o resultado é fazer tudo tornar-se passageiro para se consumir mais. Fator que explica a afirmação de uma obsolescência programada que sustenta a prática do descarte e da troca de tudo numa velocidade atordoante, uma das razões para o desejo insaciável de continuar a consumir.
Liquidez: o descartável e a liberdade
O grande problema dessa realidade, além do lixo acumulado, é que, ao transformar tudo em mercadoria reciclável, a Identidade dos indivíduos passa a se fixar no consumismo, como se fosse possível e admissível afirmar que somos aquilo que consumimos. Acabamos nos tornando marcas e grifes.
Neste processo de derretimento social, entre outros prejuízos, verifica-se a família como o núcleo que mais sofre. No livro Modernidade Líquida, Bauman aborda sobre este ponto, dizendo:
Para poder construir seriamente uma nova ordem (verdadeiramente sólida), era necessário primeiro livrar-se do entulho com que a velha ordem sobrecarregava os construtores. “Derreter os sólidos’ significava, antes e acima de tudo, eliminar as obrigações ‘irrelevantes” que impediam a via de cálculo racional dos efeitos; como dizia Max Weber, libertar a empresa de negócios dos grilhões dos deveres para com a família e o lar e da tensa trama de obrigações éticas. [...] Por isso mesmo, essa forma de ‘derreter os sólidos’ deixava toda a complexa rede de relações sociais no ar – nua, desprotegida, desarmada e exposta.
A família, nesta sociedade líquida, vem se tornando uma categoria quase extinta, tem sua relevância fragilizada na vida e nas decisões dos jovens, mesmo que ainda adolescentes, sem estabilidade. A casa da família se tornou uma pensão, não é mais uma referência para a vida afetiva. Cada qual agora busca o seu caminho usufruindo da estrutura física e nem sempre considerando as nuances próprias da vida familiar.
As escolhas feitas, que antes eram para a vida inteira, agora são para o “enquanto dure”. Tal percepção e prática afirmam-se cada vez mais na vida familiar, forjando arranjos afetivos outrora inaceitáveis. A liquidez, segundo Bauman, alcançou, também, o amor. Em seu livro, Amor Líquido, afirma que amar é o oposto do desejo. No amor a preocupação é o outro, traz em si o desejo de cuidar, de preservar, de estar à disposição, a serviço. O puro desejo, desprovido de alteridade, pelo contrário, quer consumir, quer absorver, quer devorar:
“Desejo e amor encontram-se em campos opostos. O amor é uma rede lançada sobre a eternidade, o desejo é um para livrar-se da faina de tecer redes. Fiéis a sua natureza, o amor se empenharia em perpetuar o desejo, enquanto este se esquivaria aos grilhões do amor.”
Vemos, nessa sociedade líquida, que o amor se tornou produto para ser usado de forma imediata, do prazer passageiro, que não exige nenhum empenho de forma prolongada, o que deixou de lado a verdadeira experiência do amor, preenchido no esforço de satisfazer as necessidades do outro com a cumplicidade, com a parceria, com a humildade e com a coragem para enfrentar os desafios próprios das relações humanas em seus diversos contextos.
Ainda sobre essa perspectiva da “Liquidez do amor”, hoje se cunhou o termo “fazer amor” para as experiências esporádicas do ato sexual, em que as pessoas se gabam de amar somente no hoje da relação. Criou-se o pensamento do “ficar”, que é o relacionamento, tão comum entre os adolescentes, como outrora afirmado, sem compromisso, curtir o hoje, “amanhã? veremos como fica”. Pode até ser que o “ficar” se torne algo mais compromissado, mas o ato primeiro de Amar ficou para o segundo plano, é uma preocupação secundária, e livre de caracterizar-se como condição para uma relação de intimidade. A preocupação com o outro fica relegada como subjacente, o “Eu”, a preocupação com o sentimento próprio, é o que é vivido nessas relações liquidificadas.
Outro ponto importante nessa sociedade líquida é em relação à concepção de liberdade, a qual se caracteriza como uma busca constante entre os seres humanos. Toda pessoa quer se sentir livre. Bauman nos diz que “libertar-se significa literalmente libertar-se de algum grilhão que obstrui ou impede os movimentos”, isto é, nada pode atrapalhar ou impedir a escolha de cada um, as escolhas e decisões cabem a cada indivíduo.
Nessa sociedade líquida, prova-se e afirma-se, deveras, a sensação de liberdade, a qual, entretanto, segundo Bauman, acaba por não ser verdadeiramente liberdade. O comportamento da sociedade de massificação do consumo acaba, inconscientemente, impondo experiências e consumo exagerados, fazendo com que o indivíduo seja escravo desta suposta liberdade:
Uma dessas questões é a possibilidade de que o que se sente como liberdade não seja de fato liberdade; que as pessoas podem estar satisfeitas com o que lhes cabe mesmo que o que lhes cabe esteja longe de ser “objetivamente” satisfatório; que, vivendo na escravidão, se sintam livres, e portanto, não experimentem a necessidade de se libertar, e assim percam a chance de se tornar genuinamente livres.
Tem-se a sensação de liberdade, de vivência da individualidade, mas, se as ações e desejos são impostos pela sociedade, existem escravos numa sociedade supostamente livre. O consumo, mais uma vez, torna-se o centro da conduta individual e coletiva.
Liquidez: a sociedade e o ser humano
No seu livro Vida Líquida, Bauman afirma que nesta sociedade a vida só pode ser vivida de forma líquida. Ambas estão intimamente ligadas. As relações são passageiras, os compromissos são revogáveis, o tempo é passado, anda-se em areia movediça. Os verbos mais usados são o esquecer, o apagar, o desistir, o substituir, e, ainda, o deletar, o bloquear, o excluir - há uma “destruição criativa”:
A vida líquida é uma vida precária, vivida em condições de incertezas constantes. As preocupações mais intensas e obstinadas que assombram este tipo de vida são os temores de ser pego tirando uma soneca, não conseguir acompanhar a rapidez dos eventos, ficar para trás, deixar passar as datas de vencimento, ficar sobrecarregado de bens agora indesejáveis, perder o momento que pede mudança e mudar de rumo antes de tomar um caminho sem volta. A vida líquida é uma sucessão de reinícios, e precisamente, por isso, é que os finais rápidos e indolores, sem os quais reiniciar seria inimaginável, tendem a ser os momentos mais desafiadores e as dores de cabeça mais inquietantes.
Explorando um pouco mais a acepção de “destruição criativa”, pode-se afirmar que destrói-se uma ordem estabelecida e marcada por determinados valores e cria-se um novo ordenamento, com valores próprios para a regência das relações humanas. Esse é um processo natural do desencadeamento histórico, porém o que se observa de novidade é a velocidade com a qual essa “ressignificação” dos valores é forjada.
Na modernidade líquida, a vida não para e nem pode parar, pois assinala-se como uma busca incessante por modernização; porque, se assim não o fizerem perecer, os indivíduos são excluídos da roda. Bauman diz que a vida nesta sociedade líquida “é uma versão perniciosa da dança das cadeiras jogada pra valer”, o prêmio a receber nesta dança é a garantia momentânea de permanecer, de evitar, portanto, ser jogado no lixo, ser descartado.
Essa dança das cadeiras, na tentativa de evitar o descarte, desperta o questionamento acerca de outro ponto fundamental da nossa caminhada: a identidade. Quem de fato são os indivíduos? Em uma entrevista com Benedetto Vecchi, que se tornou livro, Bauman expõe a sua visão sobre este tema. Quem somos? Neste mundo liquidificado é difícil responder, porque, segundo ele, o comprometer-se com uma única identidade por toda a vida, ou por um bom tempo da vida, é arriscado demais.
E esta mutação de identidade não nos é imposta pelo advento da internet ou das salas de bate-papo em que se criam aleatoriamente várias identidades?
É justamente ao contrário: é porque somos incessantemente forçados a torcer e moldar as nossas identidades, sem ser permitido que nos fixemos a uma delas, mesmo querendo, que instrumentos eletrônicos para fazer exatamente isso nos são acessíveis e tendem a ser entusiasticamente adotados por milhões.
Ainda segundo Bauman, as identidades não são falsas, porque, para isso, seria preciso supor a existência de uma única identidade verdadeira. Os indivíduos que vivem correndo em busca dos modismos, todos passageiros, formam, assim, identidades de acordo com a tônica do momento. Pode-se dizer que as identidades estão em constante formação, buscadas em diversas fontes, que, por sua vez, estão sempre se movendo.
Hoje percebemos que o antigo modelo de identidade, rígida e inegociável, não se ajusta mais no mundo, que, pela alta velocidade dos padrões e modismo, está em constante mutação. Assim, a busca por identidades é, de fato, uma busca por segurança. O multiculturalismo existente na nossa sociedade faz com que o acesso ao novo, através de viagens, contatos virtuais, relações fragilizadas, não tenha o caráter de duradouro.
Os indivíduos são, segundo Bauman, consumidores que vivem numa sociedade de consumo. Estão dentro e no mercado, são ao mesmo tempo clientes e mercadorias, usam e consomem as relações humanas, também em suas identidades imitando o ciclo do consumo que se inicia com a aquisição dos bens e termina no depósito de supérfluo.
Todo este processo de liquidez produzido pela sociedade contemporânea traz outro ponto fundamental de reflexão que é traduzido em mais um livro de Bauman: Vidas Desperdiçadas. Pode-se dizer que o tema central desta reflexão é lixo humano, isto é, o excluído, aquele que não é levado em consideração, o que não consome.
Como citado acima, o descarte do lixo produzido pelo consumo excessivo e pela constante mudança tecnológica e a criação do modismo, estabelece sérias consequências na sociedade contemporânea. Vidas são descartadas, embora inclusas nos apelos de consumo, não são contadas e nem respeitadas por esse modelo de sociedade moderna. Na introdução do Livro Vidas Desperdiçadas, Bauman diz:
A produção do “refugo humano” ou, mais propriamente, de seres humanos refugados (os “excessivos” e “redundantes”, ou seja, os que não puderam ou não quiseram ser reconhecidos ou obtiveram permissão para ficar), é um produto inevitável da modernização, e um acompanhante inseparável da modernidade. É um inescapável efeito colateral da construção da ordem (cada ordem define algumas parcelas da população como deslocadas, “inaptas” ou “indesejáveis”) e do progresso econômico (que não pode ocorrer sem degradar e desvalorizar os modos anteriormente efetivos de “ganhar a vida” e que, portanto, não consegue senão privar seus praticantes dos meios de subsistência).
Vale a pena destacar os adjetivos que são utilizados, na construção desse período do texto, como mecanismos de classificação dos excluídos: excessivos, redundantes, irreconhecíveis, inaptos, indesejáveis, desvalorizados, privados. Como vivem de fato as pessoas que são reconhecidas e classificadas por meio desses termos?
As causas da exclusão, da produção do refugo humano são diversas, mas o resultado é sempre o mesmo: a exclusão gerada pela sociedade. E quais são as privações geradas pela sociedade e sentidas pelos excluídos? São privados da autoconfiança, da autoestima, da pertença ao círculo social, prova da marginalização social. Para esses sobram ser coletores de lixo, trabalhar em encargos desprezados, longe da vida e do sonho de consumo, vivendo excluídos da ordem e do progresso econômico. Vivem como que expulsos do mundo globalizado; recordando: excluídos por não poderem consumir, mas incluídos pelo ímpeto de consumir. Eis mais uma das contradições da sociedade contemporânea, exclui os que outrora incluiu.
Essa exclusão do “lixo humano” promovida pela sociedade contemporânea trouxe, segundo o Livro Tempos Líquidos, uma grande insegurança, uma vez que a cidade que foi construída para fornecer segurança, com o desmonte dos mecanismos de proteção, gerados pelo modelo social líquido, especialmente aos menos favorecidos, propiciou um ambiente de insegurança social. E mais, segundo Bauman, o capital do medo acabou sendo apropriado pela política:
O lema “lei e ordem”, cada vez mais reduzido à promessa de segurança pessoal (mais exatamente corporal), se tornou uma grande, talvez a maior, bandeira nos manifestos políticos e nas campanhas eleitorais, enquanto a exibição de ameaças à segurança pessoal se tornou um grande, talvez o maior, trunfo na guerra da audiência dos meios de comunicação de massa, reabastecendo constantemente o capital do medo e ampliando ainda mais o sucesso tanto do seu marketing quando de seu uso político.
O autor afirma que a vida ‘líquida’ moderna traz os seus medos devido a duas razões:
- num planeta atravessado por ‘autoestrada da informação’, nada que acontece em alguma parte dele fica do lado de fora intelectual. Isto é, a miséria humana, a corrupção, as injustiças chegam a todos, por imagens eletrônicas, mesmo que aconteçam em lugares longínquos;
- num planeta aberto à livre circulação de capital e mercadorias, tudo o que acontece num lugar, de alguma forma ou outra, tem peso na vida de todas as pessoas. O bem-estar de um lugar nunca é inocente à miséria do outro. A sociedade tornou-se, assim, aberta, exposta aos golpes do destino e à manipulação de poucos.
Uma vez que não existe controle e nem total previsão dos riscos desta sociedade moderna líquida, os indivíduos acabam se concentrando nos medos pessoais, como uma forma de substituir os medos que não são susceptíveis ao controle como aqueles que estão mais próximos de si.
Estabelece-se, dessa maneira, um ímpeto de controle sobre tudo. Deseja-se controlar o colesterol, a pressão alta, bem como disfarçar o terror, maquia-se o medo com câmeras de segurança, condomínios fechados, desejo de proteção. Através dessas necessidades, os indivíduos acabam se tornando reféns do medo, sem a percepção de uma fuga do que é fundamental para a vida.
Além desses aspectos proporcionados pelo medo, tal experiência carrega consigo uma dinâmica de vida mais solitária. Se antes as pessoas se conheciam, se cumprimentavam, conversavam, agora vivem mais para si, não se cumprimentam nem se conversam. Os vínculos humanos são afrouxados, tornam-se precários, o que torna difícil a prática da solidariedade.
O novo individualismo, o enfraquecimento dos vínculos humanos e o definhamento da solidariedade estão gravados num dos lados da moeda cuja outra face mostra os contornos nebulosos da “globalização negativa”. Em sua forma atual, puramente negativa, a globalização é um processo parasitário e predatório que se alimenta da energia sugada dos corpos dos Estados-nações e de seus sujeitos.
Segundo Bauman, o Estado deixou de fazer o seu papel, que é o de proteger a sociedade, a qual está exposta a forças que não controla e nem espera. Não se está mais no controle, pois a cultura do consumo, apropriada e reproduzida pelo mercado, rege as relações interpessoais e as decisões políticas. A insegurança e a incerteza com as quais se vive atualmente nascem do sentimento de impotência. Hoje é possível verificar pessoas que, com o seu poder econômico, podem criar para si uma “suposta segurança”, algo que não se constata equitativo, afirma-se como mais uma exclusividade e, por conseguinte, fator de exclusão e vulnerabilidade social.
Bauman reforça, no seu livro Vida para Consumo, a realidade da sociedade líquida moderna em que os indivíduos são transformados em mercadorias. Na verdade, podemos dizer que este mercado de consumo da sociedade contemporânea se tornou um espaço social, no qual as pessoas são, simultaneamente, os fregueses e as próprias mercadorias.
Bauman aponta, ainda, a persistência de três fenômenos como chaves de análise fundamentais desse modelo de modernidade líquida: consumismo versus consumo, sociedade de consumo e a cultura consumista. Estabelecendo uma diferenciação entre consumo e consumismo, o autor nos diz:
De maneira distinta do consumo, que é basicamente uma característica e uma ocupação dos seres humanos como indivíduos, o consumismo é um atributo da sociedade. Para que a uma sociedade adquira este atributo, a capacidade profundamente individual de querer, desejar e almejar deve ser, tal como a capacidade de trabalho na sociedade de produtores, destacada (‘alienada’) dos indivíduos e reciclada/reificada numa força externa que coloca a “sociedade de consumidores” em movimento e a mantém em curso como uma forma especifica de convívio humano, enquanto ao mesmo tempo estabelece parâmetros específicos para as estratégias individuais da vida que são eficazes e manipula as probabilidades de escolha e conduta individuais.
Ele fala que houve uma mudança considerável de uma “sociedade de produtores”, na qual existiam valores como a durabilidade, a segurança, a rotina dos comportamentos individuais, para uma “sociedade de consumidores”, cujos valores são os desejos crescentes e a descontinuidade, onde o consumo não se esgota, fazendo com que a economia se mantenha alimentada constantemente.
Para que isso ocorra, para que o consumo seja constantemente alimentado, faz-se necessário um excesso de informações. Quanto mais informação a sociedade adquire e absorve, menor será a capacidade de assimilação, o seu envolvimento crítico, sua capacidade de racionalizar minimamente os processos da vida. Em suma: a sociedade consumista aposta, e muito, na irracionalidade presente nos consumidores, alimentando nos indivíduos emoções consumistas e negando o cultivo da racionalidade.
Liquidez: a transformação pela educação
De fato, os consumidores, estimulados e persuadidos a adquirirem sempre mais e mais, sempre serão os maiores responsáveis pela manutenção e continuação da economia da sociedade. Nessa sociedade moderna líquida, o importante não é que o consumo satisfaça as necessidades humanas, mas que os consumidores sejam elevados à condição de mercadorias vendáveis. É o próprio autor que nos diz
Os membros da sociedade de consumidores são eles próprios mercadorias de consumo, e é a qualidade de ser uma mercadoria de consumo que os torna membros autênticos dessa sociedade. Tornar-se e continuar sendo uma mercadoria vendável é o mais poderoso motivo de preocupação do consumidor, mesmo que em geral latente e quase nunca consciente.
Deste fato deriva um pertinente questionamento: Como transformar o processo de dependência forjado na sociedade líquida, que é centrada puramente no consumo, por sua vez, desenfreado e impulsionado pelo marketing que entra muitas vezes na vida das pessoas de forma quase sempre inconsciente?
De início esse questionamento provocado por Bauman parece ser muito pessimista, mas não é. Como sociólogo, ele faz uma análise da sociedade que se caracteriza como realista. O autor cunha pontos de esperança, e o principal deles é quando evidencia o sentido da educação.
No livro Sobre Educação e Juventude, que é uma conversa com Ricardo Mazzeo, Bauman responde de forma otimista sobre a educação como o único caminho de abrir os horizontes para uma transformação da sociedade. Faz, ainda, uma distinção da educação em três níveis: a transferência de informação a ser memorizada; o domínio de uma estrutura cognitiva onde as informações adquiridas possam ser absorvidas e incorporadas; e a capacidade de desmontar e reorganizar a estrutura cognitiva anterior sem um elemento substituto.
Cabem nesse momento algumas considerações sobre a importância da educação evidenciadas por Bauman e um acento crítico frente à realidade da educação, especialmente no Brasil, por meio da apropriação da distinção proposta pelo autor.
Mesmo que nenhuma dessas tendências sejam puras no ato de exercer a educação, do ponto de vista dos conteúdos, torna-se oportuno, ao se olhar para a maneira como a sociedade brasileira, também sob influência da liquidez da vida, tem conduzido os processos de aprendizagem de seus destinatários.
Se fosse possível falar de uma graduação de capacidade desenvolvida ao longo do processo educacional, a partir da distinção proposta por Bauman, os alunos brasileiros, de todos os ciclos educacionais, a saber, da educação infantil ao ensino superior, estariam situados em qual nicho? Do que repetem por memorização? Dos que absorvem e incorporam o conhecimento? Ou dos que, por fazerem os processos anteriores, são capazes de se posicionar criticamente diante dos ditames socioculturais e de estabelecer resistência e dar respostas criativas para sua transformação?
Essa digressão sobre o campo educacional, provocada pelo próprio autor, em nada se anuncia distante da realidade social estabelecida como líquida, pois a manutenção de uma cultura, seja qual for, é realizada pela absorção dos valores de interesse para sua manutenção. Dessa forma, se há uma crítica à sociedade de consumo, torna-se necessário fomentar entre os educandos uma força criativa de superação desses mesmos valores e o estabelecimento de novos, mais humanos, promotores da mínima equidade.
Reforçando essas últimas considerações, realizadas a partir das provocações de Bauman, ressalta-se, como corroboração da reflexão à metáfora apresentada por ele, para falar dos professores e a arte de ensinar. Bauman os compara a mísseis balísticos que, ao descobrirem o alvo, têm a capacidade de mudar a rota. A educação deve ter essa capacidade de fazer com que os educandos adquiram a capacidade de aprender novos comandos e consigam, pelas suas próprias escolhas, mudar radicalmente de ideia sem que afete o fim:
O único propósito invariável da educação era, é e continuará a ser a preparação desses jovens para a vida segundo as realidades que tenderão a enfrentar. Para estarem preparados, eles precisam de instrução: “conhecimento prático, concreto e imediatamente aplicável”, para usar a expressão de Tullio De Mauro. E para ser prático, o ensino de qualidade precisa provocar e propagar a abertura, não a exclusão mental.


Considerações Finais

O presente artigo, construído predominantemente a partir das formulações de Bauman acerca das características da Sociedade Líquida, da liquidez das relações e dos fenômenos sociais decorrentes dessa perspectiva cultural, além de apresentar uma maneira de se entender o pensamento do autor, oferece também questionamentos oriundos da sua categorização de análise da realidade social.
Por meio dele, pôde-se observar como aos poucos uma mentalidade vai sendo forjada e estabelecida. Âmbito por âmbito, esfera por esfera, a começar pelas relações sociais mais genuínas, como o convívio familiar, o fenômeno da liquidez vai tornando-se uma espécie de paradigma da organização social.
Cabe ainda, a partir das considerações de Bauman, aprofundar a força e a influência da moda e do consumo. Certamente, mais do que esses artifícios em si, verificam-se dinâmicas de vazio nas relações entre os indivíduos na sociedade, o que pode ser indicativo do fundamento sobre o qual se admite e convive-se com facilidade com a lógica do descartável de tudo, até mesmo dos próprios indivíduos.
Também sob essa perspectiva da ausência de conteúdo, sentido da existência, pode-se abordar sobre a construção da liberdade hodierna, como se observou, liberdade forjada sobre aprisionamentos. O espaço deste artigo é limitado para o enfrentamento desses questionamentos e mesmo das considerações tão pertinentes de Bauman, no entanto, contribui para o entendimento de um cenário contemporâneo, em que cada ser humano está inserido e é convidado a se posicionar política e culturalmente.
É difícil dizer se o posicionamento político-cultural está dividido entre os extremos da adesão e da ruptura ao modelo social vigente. Mas a impressão que permanece é que tal modelo caracteriza-se como um parasita que extrai todas as forças do organismo que o alimenta e, ao ser saciado, descarta esse mesmo organismo sem por ele ter consideração alguma.
As novas gerações crescem sob esse cruel paradigma das relações sociais líquidas. Reconhece-se a fragilidade de mecanismos forjadores da consciência crítica, verdadeiramente emancipadora, fundamentada não simplesmente na mesma razão, outrora pilar da modernidade, mas que seja capaz de considerar o ser humano em todos os seus aspectos e, assim, constituir uma sociedade onde o centro das decisões e escolhas seja a pessoa humana.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAUMAN, Zygmunt. A cultura no mundo líquido moderno. Rio de Janeiro, Zahar, 2013.
____________________. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro, Zahar, 2004.
____________________. Identidade: entrevista com Benedetto Vecchi. Rio de Janeiro, Zahar, 2005.
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____________________. Sobre educação e juventude . Rio de Janeiro, Zahar, 2013.
____________________. Tempos líquidos. Rio de Janeiro, Zahar, 2007.
____________________. Vida líquida. Rio de Janeiro, Zahar, 2009.
____________________. Vida para consumo, a transformação das pessoas em mercadorias. Rio de Janeiro, Zahar, 2008.
____________________. Vidas desperdiçadas. Rio de Janeiro, Zahar, 2005.

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