O contexto da realidade reinventada

A reinvenção da realidade é contextualizada todas as vezes que algo é revelado e se tem a impressão de que não há novidade naquela revelação. Iniciar um texto com uma frase que parece nada anunciar ou nada explicar, quando se buscam respostas e caminhos para tantas situações já postas, tem o objetivo de manter como leitores as pessoas menos ansiosas, leitores apenas interessados na leitura agora iniciada.

As frases ditas de formas tão diferentes são registradas na consciência social, mesmo quando são frases aparentemente imaginárias. Quando foi dita a frase “meus herois morreram de overdose, meus inimigos estão no poder!”,
muitas pessoas repetiram-na sem esquecer outra frase que dizia “de perto ninguém é normal!”. Esta última frase alertava para observar, para ouvir e repetir “que país é esse?!”. Ainda assim, a ideia de Fukuyama anunciar o Fim
da História continuou irritando historiadores, que rechaçaram tal ideia. Onde
já se viu, anunciar o Fim da História?, diziam alguns pesquisadores. As frases
já anunciadas não estavam desconectadas, pois a realidade é sistêmica, é
ecossistêmica. Portanto, as frases reinventam a realidade e provocam a
construção de outras frases. A compreensão do contexto da realidade reinventada
somente pode ser captada com nível elevado de riqueza cultural, e cada pessoa
tem o seu próprio nível de riqueza cultural.

A riqueza cultural é um balaio (cesto, sacola, mala, caixa ...) existente na cabeça de cada pessoa, e que vai
sendo ocupada e renovada continuamente durante toda a vida; no interior desse
balaio estão os costumes, a cultura, os hábitos, a educação doméstica e a
educação formal, as experiências de vida e de morte, as leituras formais e
informais, as interações sociais, econômicas, ambientais e institucionais, as
malandragens, a ética, os diferentes amores, conhecimentos, exercício
profissional, a capacidade de gerar renda, os hábitos de consumo, a
criatividade, as crenças, a filosofia de vida, os acertos e os desacertos, as
doenças, as vitórias e as perdas, a espiritualidade. E dentro desse balaio
também há muitas felicidades, desilusões, experiências de viagens, técnicas,
habilidades, competências e o querer ser
mais, que é a vocação ontológica do Ser Humano. É com essa riqueza cultural
que se interpreta o contexto da realidade apresentada momentaneamente,
diariamente e circunstancialmente, porque essa realidade reinventada não deve
permanecer como fenômeno; é preciso contextualizá-la e somente assim capturar a
sua essência, o âmago da realidade que nem sempre é concreta ou imaginária, mas
é tudo ao mesmo tempo. A riqueza cultural é construída enquanto se vive.

Assim, as frases ditas nos mais diversos contextos como nas poesias, nas falas dos pais, nos filmes, nas peças
de teatro, nas músicas, na literatura, nas conversas com pessoas idosas, nas
salas de aulas, nas falas das crianças, nas reuniões profissionais, nos
bate-papos entre amigos, nas afirmações e nas negações de políticos em público
e no particular.

E para não perder o mote do contexto da realidade reinventada, a frase impactante dita pelo capitão do filme O Submarino Amarelo, quando houve uma
discussão entre os tripulantes e o capitão ordenou que o seu subordinado
imediato acabasse radicalmente com aquela discussão; o imediato contestou o
Capitão, dizendo:  ̶  Capitão! Nós somos uma democracia. E o capitão diz:  ̶   Nós estamos aqui para zelar pela
democracia, não para praticá-la; vá lá e acabe com essa briga radicalmente,
agora!

A sociedade não precisa de mártires e nem de heróis, mas de dignidade humana. Assim, quando o personagem Winston no
filme de título 1984, diz concordar
com o sistema político do seu país porque não aguentava mais tanta tortura e
sofrimento na cadeia imposta pelo Governo do seu país, os seus algozes
falam:   ̶  Não nos interessa mais o que
você pensa! Sabemos que você está mentindo. Você não aceita o Regime que
representamos. Isso não é mais problema para o Regime. Você está livre. Pode ir
embora! Para o Regime, você é NINGUÉM! E o personagem Winston sai da
cadeia, depois de ter ficado muitos anos preso. E ao se deparar com o mundo lá
fora, não mais conhece ninguém, com também não é mais reconhecido por ninguém.
E ele tenta falar com as pessoas, a fim de relembrar-lhes quem ele é, mas não
obtém êxito. E a partir daí, Winston reconhece que o melhor é deixar de existir
quando a sociedade não reconhece o seu nome, os seus papeis, a sua existência.
Confirma-se assim, a figura do NINGUÉM. Por isso, é preciso ter muito cuidado
quando pessoas que subvertem a ética, tornam-se profissionais da corrupção,
roubam o patrimônio público, participam de conluios, assumem-se como delatoras
e são desonestas; essas pessoas precisam ser julgadas, condenadas, em alguns
casos presas e, em outros casos devem permanecer soltas como foi feito com
Winston no Filme 1984. Para que a sociedade as tornem invisíveis e, somente
assim, elas não serão transformadas em mártires, heróis. A sociedade com
elevada riqueza cultural, depois da Justiça institucionalizada, é excelência no
julgamento de pessoas que subvertem a ética. E esse julgamento ocorre nas urnas
durante as eleições nacionais, estaduais e municipais, mas também ocorre na
construção de um processo de educação responsável em todos os níveis de
formação pessoal e profissional. Porque somente uma sociedade com riqueza
cultural fundamentada na educação consegue elevar o seu nível de excelência
para votar em governantes que, por sua vez serão capazes de constituírem
tribunais éticos e justos.

O contexto da realidade reinventada não apresenta realidade totalmente nova; traz uma realidade empobrecida ou
enriquecida, sem véu. Muito do que há na realidade reinventada já é conhecido;
nem tudo é novo. A dificuldade maior é perceber quando se está “sem lenço, sem documento, nada nos bolsos e
nas mãos!”; é mais uma frase do inconsciente coletivo, uma ajuda para
reinventar a realidade da vida individual, empreender mais, inovar, criar e ser
feliz. A cadeia deve servir para punir, ressocializar, recuperar, mas não criar
mártires e heróis em um contexto em transição social, política, econômica e
ambiental, como acontece com os países em desenvolvimento na segunda década do
século XXI.

 

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