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O Perfil Controvertido de D. Pedro I

Com Que Idade D. Pedro Proclamou a Independência do Brasil? Qual Era a Educação Cultural do Imperador? Como Era a Sua Aparência Física? Quais Eram as Suas Qualificações Sociais?

O primeiro imperador do Brasil e 29º rei de Portugal, D. Pedro de Alcântara Francisco Antônio João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon foi um meteoro que cruzou os céus da História numa noite turbulenta. Viveu apenas 35 anos, mas seu enigma permanece nos livros e nas obras populares que inspirou.
Raros personagens passaram para a posteridade de forma tão controversa, pois ao longo de dois séculos sua imagem vem sendo moldada de acordo com as conveniências políticas de cada momento. Em 1972, D. Pedro foi mostrado no filme “Independência ou Morte” – interpretado por Tarcísio Meira – como um herói sem vacilações ou defeitos.
Era a moldura que lhe cabia naquele momento em que o governo militar torturava presos políticos, propagava o milagre econômico e tentava dourar a história oficial com as disciplinas de “Educação Moral e Cívica” e “Organização Social e Política Brasileira”. Em 2002, reapareceu na série “O Quinto dos Infernos” transfigurado em um jovem boêmio, farrista e mulherengo na pele do ator Marcos Pasquim.
Pedro nasceu em 12 de outubro de 1798 no palácio de Queluz, a 15 quilômetros de Lisboa, no mesmo quarto em que morreu apenas 35 anos mais tarde. Ele fez a independência do Brasil com 23 anos, idade em que hoje a maioria dos jovens brasileiros (e portugueses) ainda frequenta bancos escolares. Dez anos mais tarde, estava em Portugal colhendo os louros da vitória contra o irmão – D. Miguel – que havia usurpado o trono e mergulhado o país em um longo período de terror.
Nesse meio tempo, D. Pedro abdicou de duas coroas – a portuguesa em 1826 e a brasileira, em 1831 – e recusou outras duas: _ a da Espanha, que lhe foi oferecida três vezes pelos liberais que lutavam contra o rei Fernando VII, e a da Grécia, país que o convidou para, na condição de monarca, liderar a guerra contra os turcos otomanos em 1822. Por onde passou ele despertou ódios e paixões com igual intensidade.
Na Independência, era amado pelos brasileiros e odiado pelos portugueses que o apontavam como traidor. Ao abdicar do trono brasileiro em 1831 a situação se invertera, sendo odiado pelos liberais brasileiros que o acusavam de tramar um “golpe absolutista” e, amado pelos liberais portugueses, que o festejavam como baluarte das liberdades na luta contra o absolutismo de D. Miguel.
Pedro considerava Napoleão Bonaparte – o homem que havia forçado seu pai a fugir de Portugal em 1807 – o “maior herói da História” e, além de admirador, ele foi ligado ao imperador francês por lações de parentesco em razão de seus dois casamentos. Sua primeira esposa – a princesa austríaca Leopoldina – era irmã de Maria Luísa, com quem Napoleão havia se casado em segundas núpcias. E, quando Leopoldina morreu, D. Pedro casou-se com Amélia que era filha de Eugênio de Beauharnais (filho de Josefina, primeira mulher de Napoleão).
Como o seu ídolo, D. Pedro exerceu o poder com mão de ferro e não hesitou em demitir, prender, e reprimir todos os que ousaram contrariar suas vontades. Em 1823, dissolveu a Assembleia Constituinte – que ele mesmo convocara – porque ela não se curvou às suas exigências. Porém, no ano seguinte outorgou ao Brasil uma das constituições mais liberais da época e até hoje a mais duradoura da história brasileira.
Ao morrer – em setembro de 1834, duas semanas antes de completar 36 anos – deixaria como sucessores dois soberanos de cada lado do Atlântico: _ em Portugal, a filha mais velha, Maria da Glória, coroada como D. Maria II e, no Brasil o filho Pedro de Alcântara, em 1841 que assumiria o trono como Pedro II.
Pedro era um homem moreno, alto, de estatura acima da média, ombros largos, cabelos encaracolados, bigodes e costeletas fartas. No rosto se destacavam os olhos negros e brilhantes. De seu pai, ele herdou a paixão pela música, e só. Ao contrário de D. João – famoso pela falta de asseio pessoal e pela índole sedentária – D. Pedro tomava banho e fazia exercícios físicos regularmente.
Em público, vestia-se com elegância, embora sua indumentária doméstica fosse simples. Em 1824, Maria Graham encontrou-o a sua espera no portão “de chinelos sem meias, calças e casaco de algodão listrado e um chapéu de palha forrado, amarrado com uma fita verde”.
Hiperativo, D. Pedro acordava às 6 horas e ia dormir só depois das 11 horas da noite. Devoto de Nossa Senhora, galopava de manhã de São Cristóvão à Igreja da Glória só para ouvir missa e, de volta ao palácio, almoçava às 9 horas e jantava às 14 horas. Tinha o apetite voraz, mas hábitos gastronômicos simplórios, pois conforme Maria Graham seu prato preferido era “um pedaço gorduroso de carne de porco (ou boi) com arroz, batatas e abóbora cozida – tudo misturado no mesmo prato”.
Numa ocasião, chegou de surpresa às lojas do centro do Rio de Janeiro, depois de receber a denúncia de que os comerciantes fraudavam as medidas para enganar os clientes na venda de tecidos e outras mercadorias. Munido da medida padrão do império, foi de loja em loja mensurando as réguas e tomando nota dos infratores, que seriam punidos mais tarde. Às sextas-feiras dava audiências públicas, ouvindo queixas e sugestões de qualquer pessoa comum. Resolvia tudo ali mesmo ou dava três dias de prazo para que os ministros encontrassem a solução.
Cioso de sua autoridade, sempre iniciava suas cartas na primeira pessoa: “meu conde”, “meu filho”, “meu Senhor” ou “meu pai” e, ao contrário do seu pai cujo horror a tomar decisões levava-o a adiá-las, possuía o gosto e a volúpia do mando – afirmou seu biógrafo, Otávio Tarquínio de Souza. Mesmo nascido numa família real, mantinha negócios paralelos, alguns até mesquinhos que não combinavam com as altas responsabilidades da função de imperador.
Na juventude, D. João VI o repreendeu ao descobrir que comprava cavalos comuns no Rio de Janeiro, marcava-os com o selo da Fazenda Real de Santa Cruz e os revendia por um preço muito maior para as pessoas que queriam ostentar proximidade com a corte. Era impaciente com as regras do cerimonial da corte e, nesse aspecto, assemelhava-se à mãe, a geniosa espanhola Carlota Joaquina, conhecida pelas suas aventuras sexuais. Como a mãe, adorava cavalgar e disputar corridas de carruagens.
Certa vez, um de seus animais perdeu a ferradura enquanto cavalgava nos arredores do Rio. D. Pedro bateu à porta de um ferreiro e lhe deu ordens para ferrar a montaria. Percebendo que que o homem não dominava bem o ofício, tomou-lhe as ferramentas e, em poucos minutos, fez o serviço sozinho. Em verdade, o príncipe sabia melhor que os moços das cavalariças tratar, dar banhos, sangrar e ferrar cavalos e muito se vangloriava disso.
Gostava de jogar, mas era um mau perdedor. O viajante francês Jacques Arago contou ter sido convidado pelo imperador para uma partida de bilhar. Conhecedora do caráter impulsivo do marido, a imperatriz Leopoldina aproximou-se e cochichou ao ouvido do francês: _ “Deixe-o ganhar algumas partidas, meu marido é bastante colérico”. Arago não lhe deu atenção e, em vez disso, ganhou todas as partidas.
Pedro reagiu desesperadamente produzindo uma cena digna de pessoas perversas em uma das piores tavernas dos arredores, abandonando o jogo irritadíssimo. O espírito indomável seria abatido apenas pelos ataques de epilepsia, doença caracterizada por violenta descarga elétrica no cérebro e, até os dezoito anos, D. Pedro teve pelo menos seis.
Nascido de uma das cortes mais conservadoras da Europa, D. Pedro era o 2º filho homem de D. João e Carlota Joaquina e, nessa condição, ele estaria destinado a levar uma vida tranquila. A dura tarefa de governar caberia ao irmão – D. Antônio – três anos mais velho que ele. Mas, na família real de Bragança havia uma maldição de que todos os primogênitos morreriam ainda na infância.
No caso de D. Antônio, a tenebrosa profecia se cumpriu mais uma vez em 1º de junho de 1801, quando o príncipe herdeiro tinha apenas seis anos. Coube assim a D. Pedro a tarefa de conduzir os destinos de Portugal e do Brasil.
São imprecisas as informações sobre a sua educação, pois bilhetes encontrados e preservados nos arquivos revelam precário domínio da língua portuguesa. Há erros de ortografia, concordância e falta de pontuação. Às vezes os textos são chulos, mais dignos de um cavalariço do que de um príncipe e os poemas que perpetrou são medíocres. Isso contribuiu para que D. Pedro passasse para a História como um soberano iletrado e sem educação.
Na carola corte portuguesa, a instrução básica de D. Pedro foi confiada a cinco padre. O jesuíta José Monteiro da Rocha ministrou-lhe as primeiras letras, entre os 6 e 9 anos. Com o franciscano Antônio de Arrábida aprendeu latim e, com o cônego Renato Boiret, aprendeu francês.
Estudou inglês com Paulo Tilbury – capelão da Guarda Imperial. Nas artes, teve aulas de pintura e desenho com Domingos Antônio de Siqueira e, na música, sua educação mais esmerada, os maestros Marcos Antônio Portugal, José Maurício Nunes Garcia e Sigismund Neukomm.
A troca de cartas com o pai nas vésperas da Independência revela a rápida evolução política do príncipe. No começo mostra-se titubeante em relação à causa brasileira e até contrário a ela. Menos de um ano depois do Grito do Ipiranga, ainda jurava fidelidade ao pai e a Portugal, como se a Independência do Brasil fosse resultado de uma conspiração na qual ele não queria tomar parte.
No início de outubro de 1821, o ânimo de príncipe começou a mudar em função de dois acontecimentos. O primeiro foi a ordem precipitada das cortes de Lisboa para que voltasse imediatamente a Portugal, o que gerou uma onda de protestos no Brasil e, o segundo acontecimento, foi a morte de seu primogênito, o príncipe João Carlos. A partir daí o que se observa nas cartas é um D. Pedro determinado a seguir no caminho que o levaria às margens do Ipiranga.
Sua vida privada foi intensa e tumultuada, pois embora não bebesse, o príncipe gostava de farras, noitadas, amigos de má reputação e mulheres. Seu grande parceiro nas aventuras públicas e privadas foi o português Francisco Gomes da Silva – o “Chalaça” – um personagem memorável da história brasileira. Oito anos mais velho que D. Pedro, beberrão e bom tocador de viola, Chalaça era um ex-seminarista, filho adotivo de um joalheiro que fugiu com a família real para o Brasil em 1808.
Chalaça era dono de várias casas noturnas no centro da cidade, frequentada por prostitutas, vagabundos e marinheiros. E, nessa condição, acabou se tornando o alcoviteiro do príncipe nas suas escapadas sexuais. Nos dois casamentos oficiais, D. Pedro teve 8 filhos, sete com Leopoldina e uma com Amélia. Fora do casamento, o número é lendário e Otávio Tarquínio de Souza assegura que, entre naturais e bastardos, ele teve uma dúzia e meia de filhos.
A lista conhecida dos bastardos inclui 4 com Domitila de Castro Canto e Melo – a marquesa de Santos – um filho com Maria Benedita, baronesa de Sorocaba, irmã de Domitila; um com a francesa Clèmence Saisset, uma mulher casada que, por suas ligações com o imperador, levou uma surra do marido; um com a bailarina Noemi Valency, seu primeiro amor; um com Ana Steinhaussen Leão, mulher do bibliotecário da imperatriz Leopoldina; um com Adozinha Carneiro Leão, sobrinha de Fernando Carneiro Leão, um dos supostos amantes de Carlota Joaquina; um com Gertrudes Meireles de Vasconcelos; um com a mineira Luísa Meireles; e mais um – o derradeiro, nascido em 1832, já depois da abdicação do trono brasileiro – com a freira Ana Augusta Peregrino Faleiro Toste ([1]).


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([1]) Otávio Tarquínio de Souza. “A Vida de D. Pedro”. vol I, p. 35

 

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