Reestruturação industrial em SC: Relações com fornecedores

As matérias-primas e os insumos utilizados pelas empresas (basicamente fibras de algodão e sintéticas e diferentes tipos de fios, na fabricação têxtil; malhas, tecidos, aviamentos, couro, feltro e palha, por exemplo, na fabricação de artigos de vestuário; produtos químicos, nas atividades de prestação de serviços de beneficiamento) eram, na maior parte, fornecidos por fabricantes instalados em diferentes localidades do Brasil

Cláudio Márcio,

 

O estado de São Paulo foi sempre mencionado como mercado privilegiado, porem quase nunca em situação de exclusividade. Santa Catarina foi raramente assinalada como principal mercado, não obstante o fato de abrigar praticamente todas as atividades do complexo têxtil-vestuarista.

  Assim, não se conseguiu detectar uma efetiva integração em nível de complexo nas regiões produtoras do estado. Somente 15 empresas, menos de ¼ do total entrevistado, declararam adquirir matérias-primas mais importantes também na sua própria área de localização. Essa escassa incidência apresenta lógica no que concerne ao segmento de fiação, já que outras regiões do país constituem espaços tradicionais de produção de fibras têxteis. Contudo, mesmo entre firmas que fabricam somente artigos de vestuário, predominou a indicação de outros estados como origem principal dos insumos e matérias-primas. As firmas que prestavam serviços químicos em grandes quantidades, tendiam a adquirir boa parte de seus insumos em SC, notadamente no Vale do Itajaí.

  Não foram observados muitos problemas regulares com respeito à qualidade, preços e prazos de entrega no abastecimento das PMEs com insumos de origem nacional. Algumas empresas avaliaram que o desempenho dos fornecedores melhorou consideravelmente nos últimos anos, o que talvez guarde relação com a abertura comercial do país, que provocou acirramento da concorrência. De outra parte, o Plano Real foi mencionado por várias firmas como responsável, pelo menos em parte, por certa redução nos preços dos insumos nacionais.

  Várias firmas realizavam testes nos insumos que compravam. Mas a maioria, sobretudo de menor porte, fazia somente testes internos, informais. Para os fabricantes de artigos de vestuário, tratava-se principalmente de verificar o nível de encolhimento dos tecidos, o grau de fixação das cores e as possibilidades de enrugamento (que pode ocorrer durante a costura). Algumas firmas, geralmente com atuação exclusiva ou parcial na produção têxtil informaram possuir laboratórios próprios. Os testes que tais empresas realizavam eram normalmente complementados com outros, externos, em geral no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial- Senai. Tais firmas eram quase todas localizadas no Norte do estado e principalmente no Vale do Itajaí, o que é coerente com o fato de as instalações do Senai de Blumenau abrigarem laboratórios de fios e fibras (associados ao Centro de Pesquisas e Desenvolvimento de Extudos Têxteis – Cepetex e à Fundação Blumenauense de Estudos Têxteis – FBET) que realizavam textes de resistência, alongamento e imperfeições, por exemplo, e as do Senai de Brusque possuírem laboratórios para análises químicas e físicas. Cabe salientar que 19 empresas (29% do total) declararam não realizar testes de espécie alguma.

  Sobre as relações com fornecedores, deve-se mencionar que:

1)  A esmagadora maioria das firms estudadas, quase 90%, comprava insumos de fornecedores certificados;

2)  Só ¼ das empresas optava por fornecedores que ofereciam condições vantajosas de preço; em outras palavras, gerlamente predominavam relações estáveis;

3)  A maior parte (2/3, aproximadamente) efetuava trocas mais ou menos sistemáticas de informações com os fornecedores, sobre questões de qualidade, por exemplo;

4)  Não mais do que uma pequena fração das firmas (menos de 20%) interagia com fornecedores visando a desenvolver/apriomorar produtos, como em relação a corantes e composição de fios; um exemplo diz respeito a um médio fabricante de artigos felpudos de Brusque que implementou parceria com  importante empresa química da mesma localidade; outro exemplo refere-se a um médio produtor de malhas de Jaraguá dos Sul que estabeleceu parceria com fornecedora para a fabricação de fios sintéticos; ressalte-se ainda que, na maior parte dos casos, a interação com fornecedores não ultrapassava a mera troca de informações sobre qualidade, com reclamações e consequente substituição de materiais toda vez que problemas eram constatados.

  Entretanto, o contexto macroeconômico dos anos 90 remete principalmente ao exame da utilização de insumos importados, pois assim como representa aumento de pressões concorrenciais nos mercados internos, a abertura comercial possibilita lançar mão de fontes de matérias-primas e insumos (além de bens de capital) localizadas no exterior. A diversidade da oferta e a qualidade de tais insumos certamente configuram aspectos importantes na busca de competitividade por parte das firmas nacionais.

  Perceberam-se situações diferenciadas n tocante à utilização de insumos estrangeiros. Entre as firmas que indicaram utilizá-los, algumas o haviam feito no passado e interromperam por motivos que incluíam preço elevado ou convergência entre preços internos e externos. Houve alusão, ainda, à tendência de adequação no fornecimento por parte de fabricantes nacionais, o que estaria a sugerir uma preferência por fontes internas. Com efeito, geralmente utilizava-se material importado muito mais quando havia problemas no abastecimento interno, como tem ocorrido em certas ocasiões como o algodão. Havia firmas que, pelas especifidades de seus produtos, necessitavam insumos correspondiam a 80% do total e envolviam feltro dos Estados Unidos , da China e Bolívia, palha do Equador e da China e tecidos também deste último país. Para as empresas que os empregavam, os materiais em questão correspondiam, na maioria, a fios, originários de países próximos ou distantes (de algodão, oriundos, por exemplo, da Argentina, do Uruguai, Paquistão e Egito, e sintéticos, trazidos do Chile, dos Estados Unidos, da Índia e Indonésia, entre outros mercados), e a tecidos (provenientes da China e de outros países sobretudo asiáticos).

  Entre as empresas que se valiam de materiais importados, e entre as que, se não o faziam, já os haviam utilizado em anos recentes , contabilizaram-se 30 Pequenas e Médias Empresas – PMEs. Este número significa pouco menos da metade das empresas integrantes do painel estudado, mas, no momento das entrevistas, somente 37% das empresas recorriam a tais insumos, metade delas em quantidades não superiores a um décimo do total. Note-se que não se constatou qualquer determinante setorial no aproveitamento desses materiais: a incidência revelou-se tanto na produção têxtil como na de artigos de vestuário.

  Sobre a sugerida preferência por fontes internas de abastecimento de insumos e matérias-primas, vale assinalar que as vantagens de preço na importação relacionam-se em boa medida à possibilidde de adquirir grandes quantidades. Entertanto, a capacidade de processamento das PMEs geralmente não viabiliza compras volumosas. Assim, as vantagens potenciais que a liberalização comercial do Brasil representa em termos de importação esbarram em questões estruturais mais ou menos próprias do segmento empresarial em foco: principalmente na produção de artigos de vestuário, é absolutamente majoritária a quantidade de firmas de reduzida dimensão.

  O problema da escassa viabilidade da compra individual de insumos e matérias-primas importados poderia ser contornado através de cooperação. Agindo cooperativamente, grupos de firmas teriam condições de adquirir, por exemplo, um container de fios ou tecidos, com partilha que refletisse a participação no pagamento. Contudo, isso pressupõe interação, cooperação efetiva, esfera em que grandes dificuldades foram observadas nos diversos contextos produtivos e socioinstitucionais estudados.

  De um modo geral, o processo de reestruturação protagonizado pelas PMEs têxteis e vestuaristas revelou-se tímido e pouco abrangente. Somente algumas empresas de porte médio apresentaram trajetórias densas em termos de modernização das estrutras produtivas e organizacionais. Entretanto, pelo menos um aspecto do processo de ajuste revelou-se generalizado e repleto de implicações: a ampliação do uso de capacidades produtivas externas, isto é, do recurso à subcontratação e à terceirização.

  Outras informações podem ser obtidas no livro “Reestruturação Industrial em Santa Catarina” de autoria de Hoyêdo Nunes Lins.

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Tags: fornecedores industrial reestruturacao relacoes santa catarina sc