SONHOS POSSÍVEIS

Trata-se da história de vida de uma mãe com deficiência intelectual, com dois desejos ou sonhos de vida, bem definidos que os realiza poucos dias antes de morrer.

Escutar histórias pessoais tristes, dramáticas e adoecidas fazem parte da rotina de meu trabalho, quase todas me sensibilizam e me mobilizam entre a empatia e a solidariedade. Minha atenção profissional recai, sempre com mais prioridade, nas funções materna, pois o futuro de um filho/a  saudável depende da boa saúde psicológica da mãe. 

Estrela (nome fictício), veio à mim, como prisioneira da cultura de miserabilidade com comprometimento das funções intelectuais. Assemelha-se a muitas outras pelo Brasil, provenientes de proles numerosas sem vínculos afetivos, sociais e comunitários.

E quem as pode ajudar? Somos nós mesmos, todos fazemos parte do mesmo contexto. O problema de uns compromete todos. Não dá para fechar os olhos e fazer de conta que está tudo bem.

Nomeio-a Estrela, por jamais ter desistido do sonho de ter a casa própria para sua família, apesar da deficiencia inteletual. Viveu perambulando pelas ruas como pedinte. Resgatou a dignidade e aprendeu a cuidar do único filho que lhe restou com o espso. Com intervenções sistêmicas, passei a companhar e orientar essa família.

Estrela apagou sua luz na terra, no início da madrugada de 19 de outubro de 2017, após sucessivos embates com a forma de vida que levava. Estive ao lado de seu filho, durante o velório, no dia em que ela morreu, dizendo que a mãe seria a estrela mais bonita lá no céu. E quando visse, no céu uma estrela piscando, era a mãe. Ele vivenciou o velório inocente, calado, por vezes a brincar com os colegas da escola, que vieram prestar as últimas homenagens à Estrela.

Estrela, chegou a mim por estranhos caminhos, o que me levou a escolher sua história para a presentar na IV Edição do Concurso Publicação Solidária/FUNIBER/2017 (link:www.estudiarenfuniber.com).

Fui convidada a trabalhar na Instituição Escola Especial (APAE), através de uma amiga, no fim de Março/2015. Apresentei a Institução através de uma palestra, modo de trabalho que iria desenvolver, na modalidade Sistêmica e comportamental. APAE: Escola de Educação Básica Zilda Arns, Ed. Infantil e Ed. Profissional na Modalidade de Educação Especial’, foi fundada em 25/10/1989, entidade filantrópica, atende 77 alunos, com idade de 03 a 73 anos.

Por que tratar a família? A resposta é simples: o que acontece com um membro da família afeta todos os demais. A família é mais do que a soma de seus membros; é um sistema vivo com leis próprias de funcionamento. As famílias apresentam problemas. Por quê? Porque as mudanças psicossociais são continuas, as culturas se misturam, as redes sociais se infiltram, o ser humano tem de se reinventar e as famílias se reestruturar.

O que difere a escola especial da escola regular? A Escola de Educação Especial diferencia-se da escola comum ao concretizar a oferta de escolarização e educação a um alunado com deficiência intelectual e múltiplas deficiências, requerendo interdisciplinaridade e intersetorialidade, nas ações com equipe técnica especialista, juntamente com pedagogos, professores e agentes educacionais.

Em meados de Junho daquele ano (2015), fui chamada à Delegacia, com a Assistente Social, para acompanhar o menor e sua mãe num depoimento, contra o pai, havia chegado embriagado e batera na mãe. As vizinhas denunciaram, foi preso. Após a coleta dos dados, o Delegado entra e diz: ‘Não se preocupe doutora, vou aplicar a Lei Maria da Penha, (...)’. ’ Este fato se deu numa quinta-feira.

Quando retornei na terça-feira da semana seguinte, encontro a direção da escola preocupada. Foram à casa de Estrela e o esposo já estava em casa, deveria estar ainda preso. Ao tomar ciência dos fatos, minha atitude foi: vamos chamar o casal aqui na escola e ouvi-los. Assim procedeu-se. Reunimos a equipe técnica (SUS), mais a coordenadora e diretora. Conduzi a reunião solicitando que nos contasse o que tinha se passado, a ponto dele ser preso e depois solto. Para nossa surpresa (equipe), presenciamos ele (esposo) chorar, falando como tinha sustentado sua família até aquele momento.

O que configurou-se foi a coragem de um sujeito leigo, limítrofe entre a realidade objetiva e subjetiva, oriundo de orígens parentais e culturais paupérrimas, defendendo seus pertences, seu filho com uma esposa deficiente intelectual.

Naquele momento, avancei com uma pergunta para a equipe: é possível ensinar à ela os afazeres domésticos? Todas acenam que sim, me volto para a Estrela e pergunto: você aceita aprender a fazer pão e comida aqui na escola? Ela com um tom de vóz zagada, cabeça baixa, fala: não. A equipe se entre-olha, surpresa pela atitude negativa dela.

Após a saída deles, refletimos a situação para reorganizar aquela família. A começar pelo básico, ensinar a mãe a fazer pão, queixa do esposo, de que ela não sabia. Há tantos anos a viverem ali, sob condições subhumanas. Começamos a traçar um plano para fazer um mutirão e construir uma casa para a familia. Inseri Estrela nos encontros de pais, em atendimentos individuais e em grupos com os colegas, passou a participar de todas as atividades da escola, ativamente.

Na primeira visita, em 07/05/2015, com fins de levantando psicossocial para formalizar Laudo Psicológico, obtenção do BPC (Benefício de Prestação continuada), sem emprego formal, não tinham renda fixa, relatei o que observei:

          Vivem num casebre rodeado de mato, com acúmulo de lixo e água suja a correr na frente, sem escada para entrar; o espaço interno é cheio de coisa velha acumulada, muitas roupas sujas esparramadas por cima de um velho sofá, sujo; a casa com teto cheio de buracos, as paredes com enormes frestas, quase caindo, num lote grande (de propriedade do esposo) bem perto do centro da cidade, com a vizinhança, dos lados, com casas boas. O sonhos do casal é ter uma casa nova.

Estrela, na época, tinha 48 anos (14/06/ 1967). Sua postura era curvada, envelhecida precocemente. Relata que fazia os serviços de casa com ajuda do esposo, não conhecia dinheiro. Conheceu o esposo, numa horta comunitária, logo depois que seu pai morreu.

Em 2015, com nova equipe técnica, passou-se a dar mais atenção à família. Segundo uma vizinha, entrevistada, comentou que só agora (2015), esta família tem recebido a atenção que merece através da Instituição APAE Zilda Arns, por intermédio da Psicóloga.

O casal perdeu os dois filhos mais velhos para outros familiares. No entendimento dela, acha que foi porque não tinha prática de cuidar, dizia que era ele que dava banho nas crianças, ela não conseguia dar banho, nem fazer mamadeira; na verdade ela quase matou uma das crianças ao dar banho com água quente.

Perguntou-se à Estrela: O que sente quando vai ver os filhos? Resposta: não sei dizer, acho que nada. Via-se ali uma pessoa, emocionalmente reprimida, embotada, pelos sofrimentos vividos, mas com dois sonhos bem definidos: ganhar o benefício e ter uma casa boa para morar.

Passou-se a efetuar orientações domésticas, em que se mobilizou a família, para limpar casa (era acumuladora de lixo dentro de casa), tirar o matagal do lote e, fazer alimentação mais consistente. Quando o esposo passava o dia fora trabalhando, em casa ficava-se sem comida. Era na escola que mãe e filho se alimentavam.

As mudanças começaram a se concretizar em 2017, coincidência ou não, ano em que ela completou 50 anos, com a chegada do BPC. A escola acompanhava Estrela nas compras de supermercado. Percebia-se o quanto ela havia melhorado seu comportamento. Aprendeu a fazer pão, arrumar a casa, a cozinhar. O menor contava na escola feliz, que a mãe havia feito pão e que ficou bom, até seu rendimento escolar melhorou. Ela comentava que sua intimidade com esposo havia melhorado, através das conversas com a Psicóloga. Isto porque, além das atividades individuais e de grupo, ela ainda participava nos encontro de pais como mãe de seu filho, também aluno da escola.

Entre Maio a Julho/2017, tratou-se de providenciar a casa, inicialmente, foram comprados alguns materiais para ele mesmo fazer um banheiro. Com a ajuda de funcionário da escola, foi feito um mutirão para tirar de dentro de casa tudo o que era lixo.

A vida sempre nos surpreende com o inesperado. Estrela sempre foi doente, com uma tosse crônica, agravando-se no inverso. Em 2017 piorou, descobriu-se que tinha problemas de Tireoide, necessitava de cirurgia, foi marcada para o mês de Agosto/2017.

Sobreviveu à cirurgia, recuperou-se, praticamente sozinha residindo na casa velha. A saúde precária deu sinais de situação crítica, estava exposta a fumaça de um velho fogão. O problema era a moradia.

A Assistente Social teve a ideia de comprar uma casa usada. Juntamente com a direção da escola e o apoio de um cunhado dele. Conseguiram comprar uma casa de madeira pronta, em boas condições de uso, com dois quartos, sala e cozinha, teto bem forrado. A casa foi trazida com apoio de terceiros e os arremates finais, ele fez. Tudo muito simples, mas limpo, arejado e bem fechado.

Ela só queria isso para sua família e conseguiu, pouco tempo antes de morrer, pois viveu feliz na casa nova por 15 dias. Estrela partiu em 19 Outubro/2017, deixando esposo e filho em boas condições de moradia, cumpriu sua missão de mãe protetora.

No dia de sua morte, velório e enterro, o inesperado se fez presente: todos os filhos e o pai ao redor de seu caixão. Do menor, não se viu uma lágrima, apenas medo, não conseguiu olhar para o rosto da mãe. Na hora do almoço, fiquei com eles, pedi ao menor para me ajudar a arrumar os vasos de flores que ela ganhou, muitos, caixão revestido de cetim. O filho ajeitou as flores, arrumou o véu nas laterais e me perguntou, se os pés da mãe estavam enrolados embaixo daquele pano azul, muito bonito. Foi esse o modo que ele encontrou para se despedir da mãe, sem choro.

Algo me inquietava, ali a olhar aquele caixão, me questionei: Em que é que tudo isso me mobilizou? Em minha mente surge imagens infantis, sofrimentos semelhantes. Parece-me que a realidade presente, nos coloca de frente, com situações semelhantes, para que possamos libertar a carga emotiva, do passado e continuar evoluindo, enquanto ser humano.

Meu Mestrado em RH e Gestão do Conhecimento tem me ajudado a rever novos modos de gestão e como podemos intervir.

Como refere Martí (1976), em Avaliação de Desempenho e Gestão por competência (Tomo V, p. 78) :

      “Educar é depositar em cada homem toda obra humana que lhe antecedeu, é fazer para cada homem um resumo do mundo vivente, até o dia em que vive, é pô-lo no nível de seu tempo, para que flutue sobre ele, e não deixá-lo abaixo de seu tempo, o que o impediria de permanecer à tona; é preparar o homem para a vida.”

Ser psicóloga é, as vezes, ter sido única na vida de alguém que não tinha com quem contar para dividir sua solidão, sua angústia, seus desejos.

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