Senhores,
Poderia começar dizendo que os administradores de empresas têm lugar garantido ao lado direito do trono do Criador, certamente granjearia a simpatia de muitos colegas. Se dissesse, antes, que também teriam lugar garantido nas empresas por força de lei, pois estudaram administração de empresas, seria aclamado como sábio. Se dissesse que o administrador não precisa estudar muito, que não precisa fazer uso das ciências e técnicas que estão ao seu alcance nas universidades, que pode administrar organizações da maneira como entendem o mundo, lendo auto-ajuda, apenas pelos seus sentimentos e juízos de valores, provavelmente eu seria indicado para vereador, no mínimo. Se dissesse, depois, que o Brasil tornar-se-ia potência econômica e social somente quando um administrador de empresas fosse eleito Presidente da República, pronto! certamente me aclamariam iluminado.
Qualquer um pode dizer essas baboseiras, mas o que se espera de um estudante de administração de empresas (e de todas as outras graduações) é que ele saiba discernir o real do irreal. Eis o problema, para se saber o que é irreal ou dispensável, torna-se necessário que se aprenda primeiro o que é real , concreto e necessário . Ocorre que a maioria dos estudantes (e mesmo profissionais) primeiro aprende o que é irreal e dispensável , quando deveriam aprender o oposto, primeiro.
Apenas lembrando aos colegas , independente de partidarismo político : administrar uma empresa não é a mesma coisa que governar e administrar um país. Cuidado com essa conversa fácil (veiculada de tempos em tempos) , de termos um administrador na presidência do país . Sejamos honestos, o curso de administração de empresas não prepara governantes, mesmo o curso de administração pública não é suficiente, sua grade curricular teria que ser profundamente alterada.
A ignorância ou a falta de clareza sobre o conceito de governo causa enorme confusão no mundo acadêmico. Um Estado não pode ser administrado e legislado por única categoria ou único pensamento , as atividades de um Estado requerem conhecimentos das mais variadas profissões , mesmo nos cargos com requisitos para as qualificações de um administrador. Os problemas sociais e econômicos do Brasil não ocorrem pela formação profissional deste ou daquele político, tampouco serão solucionados por uma individualidade profissional (administradores de empresas).
Os processos pelos quais os políticos e governantes pensam e decidem, são diferentes das metodologias seguidas pelos administradores de empresas. Isso salta aos olhos. A reflexão faz parte do raciocínio de um bom intelecto.
É preciso ler o que escreveu Peter Drucker , autor conhecido , admirado , mas pouco compreendido :
"O primeiro encargo da administração é administrar uma empresa. Esta afirmação aparentemente óbvia leva a conclusões que estão longe de ser óbvias ou geralmente aceitas. Implica em severas limitações sobre o alcance da administração ; implica também numa enorme responsabilidade de ação criativa. Significa em primeiro lugar que as habilidades, a competência e as experiências da administração não podem , como tal , ser transferidas e aplicadas à organização e ao funcionamento de outras instituições. Em especial, o êxito de um indivíduo numa administração não é por si só um sinal - e muito menos uma garantia - de êxito num cargo público. Uma carreira administrativa não é em si uma preparação para uma carreira política - assim como não assegura capacidade de liderança nas forças armadas , na igreja ou numa universidade . As habilidades, competências e experiências comuns , e portanto transferíveis, são analíticas e executivas - extremamente importantes mas secundárias à construção dos objetivos fundamentais das diversas instituições não-empresariais. Se Franklin D. Rooosevelt foi um grande presidente ou uma calamidade nacional é algo que vem sendo discutido calorosamente nos EUA desde o New Deal. Mas , o fato evidente que ele era um péssimo administrador público nunca é debatido, mesmo seus inimigos mais ferrenhos consideram-no irrelevante. O que está em jogo são suas decisões políticas fundamentais. E ninguém em sã consciência pode afirmar que estas decisões (políticas) devem ser determinadas pela oferta de bens e serviços desejados pelo consumidor a um preço que esteja disposto a pagar , nem mesmo pela manutenção ou aperfeiçoamento dos recursos produtores de riquezas. O que para o administrador é o enfoque principal, para o político é apenas um fator dentre inúmeros outros."
Prática da Administração de Empresas.
Peter F. Drucker
Introdução : A natureza da administração de empresas.
Biblioteca Pioneira de Administração e Negócios - 1981
A primeira edição deste livro, no original, data de 1955.
É importante conhecer as diferenças entre administração pública ou privada e liderança política e governo de Estado; entre empresário, administrador e, chefe de Estado , é só ler o Código Comercial e a Constituição Federal para saber as diferenças entre ambos. O atual Presidente da República compreenderia melhor os problemas e soluções para o Brasil, se possuísse ensino superior ? Quem o sabe ?
Afinal, a História é rica de exemplos de indivíduos que tinham alta formação educacional e foram péssimos governantes e administradores públicos. Lembremo-nos (pelo estudo) do primeiro ministério da República. Integravam-no entre outros, Rui Barbosa na pasta da Fazenda e Benjamin Constant na pasta da Educação.
Rui Barbosa implementou a desastrosa política do encilhamento, que resultou em descontrolada inflação, coisa que nunca se tinha visto no tempo do Império.
Benjamin Constant promoveu uma esdrúxula reforma educacional de acordo com suas convicções filosóficas, que só não causou maior dano porque o corpo de funcionários não a implementou de fato. Uma das disposições estipulava que, a partir de então, a frequência passava a ser facultativa e, no dia seguinte ninguém foi à aula.
Rui Barbosa e Benjamin Constant são um desagradável exemplo de que inteligência , cultura, honestidade e boas intenções não são garantias de um bom governo.
Na política, antes de tudo, é necessário que se saiba agir politicamente pois os processos de avaliação e decisão dos fatos políticos são outros, ou seja , são necessários outros elementos de percepção das realidades políticas, a boa formação educacional e cultural é uma determinante, porém, ela forma uma composição, não é um elemento majoritário ou unitário no processo de avaliar e decidir.
Contudo, nós não podemos culpar a Política e a Democracia pelos atos falhos e corruptos dos homens que não conseguem pôr em prática o que se espera deles, como se a culpa das pessoas que não possuem hábitos de higiene pudesse ser creditada à ciência médica.
Democracia política é assim mesmo, leva muito tempo para maturar , estamos engatinhando e comendo papinha, ainda. Isso é um processo e necessitamos de todas as profissões e capacidades na construção de um país desenvolvido, de fato , não de individualidades profissionais e de idéias corporativistas do século XV.
Para alguns indivíduos, o conhecimento diversificado e profundo é pura opção; para outros, um fardo. Para nós administradores, uma obrigação !
Saudações
Carlos Cezar