Boletite, a epidemia do consumo

08 de abril de 2008 ās 15:33
    A boletite é uma síndrome contagiosa moderna caracterizada pelo acúmulo crescente de boletos bancários pelo infectado. Este crescimento pode ser tanto em número de boletos quanto em seus valores monetários (ou, mais frequentemente, pelos dois), e a síndrome pode ocorrer até sem a presença dos boletos em si, já que o que importa de fato é o consumismo epidêmico a ela associado. Os sintomas e a intensidade da síndrome variam de acordo com a classe econômica do acometido e, regra geral, a boletite se manifesta mais intensamente nas classes econômicas mais altas. Na verdade, a maior parte da boletite que atinge a classe pobre não é uma síndrome contagiosa, mas simplesmente um endividamento para a subsistência: no limite, um beneficiado pela bolsa-família que tem um fiado na mercearia não está apresentando boletite. Quando o sujeito começa a comprar eletrodomésticos à prestação, iniciam-se os primeiros estágios da infecção por boletite – muito embora a aquisição de uma geladeira à prazo possa ser considerada, pelo menos em parte, como uma dívida de subsistência. É na classe média, entretanto, que a genuína boletite começa a se delinear com nitidez, e a compra de automóveis mais sofisticados é um sintoma clássico desta síndrome, com o aparecimento dos boletos do leasing, do seguro, do IPVA, e da oficina cada vez mais significativos. Entre os (como se chamavam outrora) “remediados” – em particular para os endividados –, os possíveis sintomas são, dentre outros: mau humor, insônia, enxaquecas, dores de cabeça, gastrite, e disfunções sexuais. Já entre os ricos, a boletite apresenta sintomas mais excêntricos. Para os verdadeiramente abastados, a boletite se traduz em um consumo irracional de bens e serviços de luxo peculiares, como canetas de R$1mil, vinhos de R$10mil, carros de R$1milhão, iates de R$10milhões, aviões de R$100milhões, e assim por diante.
    A boletite não é transmitida por nenhum microorganismo biológico, embora apresente características de uma epidemia viral (ou bacteriana). Uma das semelhanças mais marcantes é a existência de “grupos de risco”, tanto numa epidemia viral quanto na boletite, mas esta não é a única. A presença de sintomas bem marcados em ambas é outra coincidência com as epidemias biológicas, apesar de que tanto a manifestação quanto o contágio da boletite serem de caráter eminentemente cultural. O fato é que a boletite tem raízes biológicas, e ela só acontece porque nós, seres humanos, somos fundamentalmente susceptíveis à síndrome. Na verdade, é necessário que haja uma combinação de fatores biológicos e culturais para que a boletite se manifeste. Por exemplo: se um indivíduo for muito pobre, sua boletite tenderá a ser baixa, mas isso não significa que ele se manterá com níveis exíguos de boletite se as condições ambientais forem alteradas. Se este pobretão ganhar uma fortuna na loteria, ele certamente adquirirá boletite em alto grau de maneira praticamente imediata, o que evidencia que a imunidade dos pobres à boletite é circunstancial. O inverso, entretanto, não é tão simples assim. Pessoas que empobrecem costumam manter uma elevada boletite residual, levando a conseqüências terríveis, como a dificuldade em poupar, o endividamento e, finalmente, a insolvência. De qualquer forma, independente de classe econômica, a boletite normalmente é uma fonte de sofrimento psicológico. Ou, visto de outro ângulo: as pessoas acometidas pela síndrome estariam bem melhores sem ela.
    Ocorre que, quando o ambiente é propício – ou melhor: quando há quantidade suficiente de pessoas com mais recursos do que precisariam para subsistir –, a epidemia de boletite sempre se alastra. Isto acontece em decorrência de determinadas peculiaridades do funcionamento da mente humana, especialmente do nosso senso de justiça, enviesado para os ganhos relativos sobre os absolutos. Para um sujeito de classe média, morar numa casa de quatro quartos quando todos os conhecidos moram em imóveis mais modestos, de três ou dois quartos é, seguramente, mais “confortável” que morar na mesma casa de quatro quartos onde todos os outros moram em mansões. Apesar de este cidadão usufruir do mesmo benefício absoluto morando numa casa de quatro quartos nas duas situações, ele certamente perceberá sua própria situação como privilegiada no primeiro caso. Em outras palavras, o benefício relativo de ser a única pessoa daquele meio social que pode morar em uma casa maior deverá fazer com que a casa de quatro quartos valha mais quando todos os outros morarem em casas menores. A propósito, despesas relacionadas a imóveis, como condomínio, IPTU, telefone, internet banda larga, TV por assinatura, e os gastos com empregados domésticos – além, é claro, das despesas relacionadas à aquisição do imóvel em si – tendem a gerar crises de boletite intensa.
    Para que alguém tenha boletite, é necessário haver renda ou patrimônio (ou ambos) que sustente(m) o seu consumismo característico, senão não é boletite. Existem determinadas imperfeições no mercado que, como no caso dos sub-primes norte-americanos[1], permitem que aventureiros – lá conhecidos como NInJAS (“No Income, Jobs, Assets or Savings”[2] ) – tenham surtos consumistas. Isto poderia até ser chamado de Crise de Boletite Aguda (CBA), mas, ao contrário da boletite genuína, esta é efêmera, e tende a desaparecer (ou a diminuir muito) na medida em que o nome do sujeito vai parar nas listras negras dos cartões de crédito, SERASA e similares. Isso é uma outra fonte de sofrimento emocional relacionada à boletite, que pode se agravar quando o acometido pela CBA “não se rende ante os obstáculos formais da economia”. Mesmo estando tecnicamente insolventes, alguns indivíduos utilizam expedientes, digamos, mais “criativos” para manter a fogueira da boletite acesa – como o endividamento em nome de laranjas, por exemplo –, o que pode dar alguma sobrevida à boletite. De qualquer maneira, ao adentrar na perigosa seara da “criatividade nos negócios”, esta sobrevida também deverá ser de curta duração. Confirmando o ditado, pouquíssimos conseguem enganar todo o mundo durante todo o tempo (mesmo que alguns se esforcem sobremaneira para tal).
    A boletite está relacionada à natureza humana, e pode ser explicada por modelos da teoria dos jogos e da evolução. Um boletado (como chamaremos o acometido pela síndrome de agora em diante) é um indivíduo que está tentando fazer o melhor que pode em função do que o meio ambiente lhe oferece. Isso significa que, quando ele mora numa casa de quatro quartos enquanto todos os outros moram em casas mais modestas, seu status social e atratividade sexual deverão ser mais elevados do que se fosse o oposto. O indivíduo que, pelo contrário, mora numa casa de quatro quartos quando todos os seus parentes, amigos, colegas e vizinhos moram em mansões de mil metros quadrados de área construída fora a piscina deverá sofrer psicologicamente com isso. Seus níveis de cortisol (o hormônio do estresse) deverão ser mais altos, e haverá mais chances de que esta pessoa cometa suicídio ou sofra de distúrbios psiquiátricos – ela será mais infeliz, enfim. Por isso, ela vai tentar se situar numa faixa mais confortável de seu nicho social, tentando ficar acima da média. Mas como, evidentemente, menos da metade das pessoas de um determinado grupo poderá ficar acima da média, é mais fácil perder do que ganhar o jogo da boletite.
    A boletite gera um efeito de “corrida da Rainha de Copas” – numa alusão à Rainha de Copas do livro (e do filme) “Alice nos País das Maravilhas” –, que tinha que correr o máximo possível para poder ficar parada no mesmo lugar. Isso significa que o boletado tem que sempre buscar ter mais que os outros; pois, se não o fizer, aquele indivíduo certamente será um dos que terá menos. Uma vez que todas as pessoas do convívio do boletado também são, elas mesmas, boletadas, o acometido pela boletite acaba tendo sua síndrome agravada pela boletite dos outros. É uma corrida armamentista, muito semelhante à que ocorreu entre EUA e URSS na Guerra Fria, quando ambas as potências nucleares tinham que produzir mais bombas atômicas simplesmente porque o inimigo havia incrementado sua produção (mesmo que a quantidade disponível no próprio arsenal já fosse suficiente para aniquilar a outra parte). Ou, como mostra a velha piada dos caçadores que, sem munição, acabaram perseguidos por um urso selvagem. Quando um deles pára para tirar as botas, o outro pergunta “Você acha que tirando as botas você conseguirá correr mais que o urso?” – no que o primeiro caçador retruca: “Mas quem disse que eu quero correr mais que o urso... Eu quero correr mais que você!”.
    A propósito, já que estamos falando de URSS, é justamente a vulnerabilidade humana à boletite que impediu que os regimes comunistas do século XX prosperassem. Seja no capitalismo, seja no comunismo, a natureza humana é uma só, o que faz com que os indivíduos sempre procurem ter um status relativo superior ao das outras pessoas do seu meio social. Nos regimes comunistas, a presunção de que os indivíduos se conformarão em consumir os mesmos bens e serviços que seus cunhados, seus vizinhos, ou seus colegas de trabalho não é coerente com a natureza humana, sendo o que inviabilizou estes regimes no final das contas. Não por acaso, muitas das normas sociais, especialmente as de cunho religioso, também embutem mecanismos anti-boletite, com a condenação moral da ostentação e da cobiça. E, volta e meia, sempre aparece algum movimento de vanguarda que prega a vida simples e o desapego, mas isso tudo tem eficácia muito reduzida porque o ser humano não consegue resistir à boletite quando sua disponibilidade de recursos supera o necessário à subsistência. O único antídoto realmente eficaz para a boletite é a pobreza deliberada, o que faz com que a síndrome seja incurável, na prática. À exceção dos religiosos que fazem voto de pobreza, a chance de que alguém, em sã consciência, empobreça por livre e espontânea vontade é, na prática, nula.
    A propaganda e a publicidade costumam ser apontadas como as grandes vilãs da boletite – algo como o equivalente a um vírus numa epidemia viral. Isso é uma meia verdade (o que a faz, automaticamente, também uma meia mentira), já que a publicidade somente funciona bem porque a mente humana possui uma “gramática pré-instalada” que utiliza determinados módulos para funcionar, e alguns destes propiciam o contágio pela boletite. Um destes módulos mentais é o responsável pelo já comentado viés humano para os ganhos relativos sobre os absolutos, mas este não é o único. Muitos outros comportamentos peculiares da espécie humana também possuem influência sobre a boletite, principalmente os comportamentos relacionados ao mecanismo darwiniano de seleção sexual. Mas, de qualquer forma, a publicidade e a propaganda têm muita culpa no cartório da boletite, e os publicitários são pagos justamente para explorar as vulnerabilidades do comportamento humano. Na realidade, a maior parte da propaganda existe com o propósito ostensivamente declarado de provocar boletite, e quanto mais grave a infecção, melhor deverá ser uma campanha publicitária. Um anúncio de um novo modelo de carro nada mais é que um vírus mental[3] que pode infectar a mente de qualquer um que tenha disponibilidade de recursos para assumir uma nova carga de boletos. Isso, por si só, não desencadeia a boletite, do mesmo modo que uma pessoa possa ser, muitas vezes, exposta a vírus e bactérias e não contrair nenhuma doença. Entretanto, para alguém com recursos disponíveis, é muito provável que se queira maximizar o status relativo, o que faz do investimento de recursos em bens sofisticados parecer uma excelente aplicação. Uma pessoa de classe média não compra um Jipão 4x4 porque é louco por trilhas, mas porque é um investimento que certamente dará o seu recado: “o meu é maior que o seu”.
    A publicidade e a propaganda, entretanto, são vilãs menores ante as artimanhas do marketing e das finanças. Nas últimas décadas, surgiram inúmeros novos tipos de “vírus” de boletite derivados do avanço em telecomunicações e microinformática (incluindo os softwares), como o tele-marketing, os sistemas de gestão de relacionamentos, o web-marketing, o merchandising, e assim por diante. Associado a isto, especialmente no Brasil, o consumidor médio teve a oferta de crédito substancialmente incrementada: os juros nunca foram tão baixos, e os prazos dos financiamentos jamais se mostraram tão extensos. Com isso, “nunca antes na história deste país” a boletite esteve tão disseminada, grave, e ascendente. No fim das contas, o bom desempenho econômico do Brasil nos últimos anos se deve, em grande parte, a um aumento generalizado da boletite doméstica. (Paradoxalmente, tudo o que um governo de esquerda não deveria querer).
    À primeira vista, parece que a única coisa que um governo poderia fazer para desestimular a boletite seria impedir que a economia de seu país crescesse. Na prática, como nenhum governo tem este objetivo (muito embora muitos obtenham esse resultado, mas aí é outra história), a boletite seria incurável – se não, desejável. Vejamos, primeiro, se a boletite é ou não desejável para uma sociedade (como a brasileira). Já vimos que a boletite gera sofrimento psicológico, angústia, e é uma fonte potencial de conflitos, além de ser moralmente condenável se em níveis elevados. Ela pode tornar as pessoas insolventes financeiramente e até ser uma desencadeadora de uma carreira criminosa, dependendo da pessoa e da situação. E, sob certas condições macroeconômicas, a boletite também pode provocar inflação. Por outro lado, a boletite é o que faz as pessoas trabalharem mais, consumirem mais, gerarem mais empregos, pagarem mais impostos; fazer a economia crescer, enfim. Conclui-se, então, que o problema não é ter ou não ter boletite, mas fazer com que a boletite fique em níveis moderados. Ou seja: não se trata de “curar” a boletite, mas simplesmente mantê-la em patamares mais modestos – sem, contudo, impactar a economia negativamente, gerando inflação de demanda. A solução para isso é trocar uma parte do consumo por poupança, o que funcionaria para refrear a boletite em si ao mesmo tempo em que traria benefícios macroeconômicos à economia. Se todo boletado trocasse seu próprio nível de consumo por um nível menor, poupando a diferença, a competição permaneceria inalterada, mas a boletite absoluta diminuiria de intensidade. Certamente, haveria uma diminuição na produtividade da força de trabalho porque o estímulo psicológico para a poupança é menor do que para o consumo, mas isso não deverá arruinar a economia. Por outro lado, maiores níveis de poupança gerariam uma solidez econômica que compensaria eventuais perdas de produtividade, e o resultado econômico geral não seria prejudicado. Se é fácil assim, então porque não fazemos isso agora?
    O problema é que todas as pessoas teriam que trocar consumo por poupança ao mesmo tempo, de forma coordenada e proporcional. Suponhamos que, num grupo social, todos combinem trocar 10% do consumo por 10% em poupança a partir do dia 1º de janeiro. Se o João, que pertence o grupo, deixar para fazer isso somente em 1º de julho, ele vai passar seis meses com um nível de consumo relativamente maior, ou seja: seu status social será maior que o dos outros Joões que cumpriram o acordo nesse período. Mesma coisa se o João somente reduzisse seu consumo em níveis menores que 10%: o incentivo à traição é evidente, já que este é um modelo de “dilema dos prisioneiros” (para os iniciados em teoria dos jogos[4]). Na verdade, a traição é tão sedutora que todas as pessoas vão contá-la como certa (no outro), e como a melhor vacina para a traição é a traição igual, esse tipo de acordo jamais poderia funcionar, a menos que haja uma terceira parte que obrigasse todo mundo a cumpri-lo. A boa notícia é que isso é possível por meio da tributação sobre o consumo, e não sobre a renda.
    Essa não é uma proposta nova, apesar de não ter sido efetivamente adotada na íntegra por nenhum governo do mundo (e provavelmente nunca será: esta é a má notícia). O melhor modelo nesse sentido é o proposto pelo economista norte-americano Robert Frank [5] (que, a propósito, abordou a questão da boletite com extrema genialidade): a adoção de uma tabela progressiva sobre o consumo, deixando uma parcela não tributada. A idéia é muito simples: como a renda de um indivíduo só pode ter dois destinos – o consumo ou a poupança –, o consumo deste mesmo indivíduo deverá ser a diferença entre a sua renda e os seus recursos destinados à poupança. Por esta lógica, se um determinado contribuinte ganhar R$100mil num determinado ano e aumentar sua poupança de R$30mil para R$50mil no mesmo período, conclui-se que ele consumiu R$80mil. Assim, se este contribuinte for tributado pelo consumo de R$80mil, e não pela renda de R$100mil[6] , haveria um desincentivo ao consumo e um estímulo à poupança, pois quanto menos ele consumir, menores os impostos a pagar. Por exemplo: se esse contribuinte poupasse R$30mil, ao invés de R$20mil, seu consumo seria de R$70mil, e não R$80mil, portanto ele pagaria seus impostos sobre uma base tributária menor.
    Dificilmente, porém, um governo – qualquer governo – tributaria os contribuintes de seu país pelo consumo ao invés da renda. Para começo de conversa, este é um risco desnecessário: em princípio, o governo propriamente dito não ganharia nada com isso, o ganho é em incremento da “felicidade” do contribuinte, algo intangível, subjetivo, e dificilmente mensurável. Em contrapartida, tudo pode dar errado, e as conseqüências podem ser catastróficas: o governo pode perder tanta arrecadação que poderá até falir. Na realidade, como a tributação sobre o consumo nunca foi testada, ninguém sabe o que poderá acontecer na prática. Se as pessoas começarem a competir também por exibições de níveis de poupança – por exemplo: mostrando que são clientes do banco GoldenStar, que só aceita clientes com aplicações superiores a um milhão de dólares –, o consumo poderá ser dramaticamente reduzido, e o efeito tributário será duplamente deletério. Nesse caso, além da redução nos impostos sobre a circulação de mercadorias, o governo também perderia porque a base tributária do imposto sobre o consumo se encolheria. Isso sem contar a vulnerabilidade a fraudes desse modelo, que necessitaria de décadas de experiência para chegar perto da eficiência no combate à fraude tributária dos dias de hoje, com o velho modelo de imposto sobre a renda.
    Com os incentivos ao consumo grassando sem que haja um desincentivo equivalente (como a mudança tributária acima proposta), a boletite é uma síndrome que tende a se agravar, especialmente em países emergentes, como o Brasil. Se a oferta de crédito para o consumidor brasileiro já vem crescendo exponencialmente, imagine após nossa “promoção” a investment grade[7], que deve ocorrer em breve... Isso sem contar que, à custa de um recrudescimento na desigualdade de renda, a quantidade de milionários do país está batendo recordes. Da mesma forma, nos outros países em desenvolvimento, como Índia, China e Rússia, a boletite também vem aumentando dramaticamente nos últimos anos, o que é especialmente preocupante dado a população bilionária destes e os possíveis efeitos da boletite sobre o meio-ambiente. Se as previsões dos especialistas estiverem certas, seria necessário um esforço global, coordenado, e urgente para combater a boletite e reduzir a epidemia do consumo antes que o planeta ficasse inviável. Sabemos, todavia, que isso é impossível de ser feito no curto prazo simplesmente porque não há coordenação global efetiva nem possibilidade de que ela ocorra na prática – e o exemplo do fiasco do Protocolo de Kyoto está aí para não deixar dúvidas quanto a isso. No fim das contas, nossa espécie poderá ser extinta por causa boletite, a catástrofe malthusiana da vez. (Oxalá Al Gore esteja, assim como Malthus, errado).
    Para piorar o quadro, outros aspectos ambientais estão associados à boletite, tão apocalípticos quanto a “verdade inconveniente” sobre o aquecimento global. Principalmente nas castas mais ricas da sociedade, a boletite tem uma relação perversa com a extinção de espécies. Boletados de elite são os consumidores típicos das peles de animais exóticos, de madeiras raras, e – exemplo extremo – do prepúcio de baleia azul, no caso do Onassis e as famosas banquetas de seu iate revestidas com esse estranho artefato. Mesmo entre as camadas mais pobres, a pouca boletite apresentada é, muitas vezes, concentrada em bens que impactam o meio ambiente de forma dramática. Especialmente em áreas remotas (mas não só), o tráfico de animais silvestres para criação, carne, e até para o uso como amuletos ou poções é bastante difundido. Culturas tradicionais, dos índios americanos aos aborígenes australianos – que são muito semelhantes aos representantes das classes mais baixas das sociedades ocidentais modernas – apresentam esse mesmo viés consumista ecologicamente incorreto. Na realidade, a antropologia e a arqueologia transbordam de exemplos de boletite em sociedades não monetizadas, como a que acometeu o povo da ilha de Páscoa. Os Rapa Nuis pré-colombianos manifestavam sua boletite pelo consumo de moais, gigantescas estátuas que tinham que ser transportadas de um lado ao outro da ilha. Como essa cultura não detinha a tecnologia da roda, era necessário cortar árvores para que os troncos servissem de roletes para o transporte dos monumentos. Somente quando a última árvore caiu foi que os Rapa Nuis acordaram do transe boletal, mas aí já era tarde demais: a sociedade cometera “ecocídio” por boletite aguda. O que parece ser o fim das sociedades acometidas por essa síndrome contagiosa (e letal, no fim das contas).

[1]Crise no mercado financeiro iniciada em 2007, originada por empréstimos a tomadores eufemisticamente chamados de “menos que a elite” (sub-primes).

[2]“Sem Renda, Emprego, Ativos ou Poupança”

[3]Um “meme”, de acordo com o neologismo proposto pelo biólogo inglês Richard Dawkins em “O Gene Egoísta”.

[4]O “dilema dos prisioneiros” é um modelo da teoria dos jogos em que a melhor decisão possível em função da decisão do outro é a traição. Para mais detalhes, acesse o site do autor: www.raulmarinho.com.br.

[5]No livro “Luxury Fever”, sem tradução em português.

[6]Nesse caso, as alíquotas para a tributação do consumo deveriam ser proporcionalmente maiores do que são para a tributação da renda. No exemplo dado, se a alíquota de IR fosse de 20%, o imposto sobre o consumo deveria ser algo em torno de 25%. Essa é uma simplificação, entretanto. No modelo proposto por Frank, deve haver uma tabela progressiva no imposto sobre o consumo que sereia equivalente a uma alíquota única de 25%.

[7]Literalmente, “nível de investimento”, ou seja: a captação de recursos financeiros no exterior é considerada como de baixíssimo risco. A classificação do Brasil como “investment grade” deverá ocorrer entre 2008 e 2009, segundo os analistas econômicos.

Para entrar em contato com o autor: raul@raulmarinho.com.br

Artigo publicado na administradores.com em 08/04/2008


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