A escola de relações humanas e o engenheiro

Artigo aborda a profissão de engenheiro nos primórdios da administração.

A profissão de engenheiro desde a criação dos cursos de engenharia no século XVIII vem passando por profundas mudanças em seu perfil. Até os anos cinquenta as escolas de engenharia formavam engenheiros multidisciplinares, teoricamente capacitados para atuarem em todas as áreas como civil, química, mecânica, elétrica, minas etc. Com o rápido desenvolvimento tecnológico desde o final do século XIX, ficou difícil esse profissional abarcar toda a gama de conhecimentos que foram sendo produzidos, tornando-se necessário a especialização por área de atividade.

A segunda revolução industrial iniciada na segunda metade do século XIX tornou esta profissão essencial para o desenvolvimento dos processos produtivos, quando a sociedade demandava um grande volume de produção sem praticamente nenhuma diferenciação. A demanda do mercado era tão intensa que não havia preocupação e nem tempo para inovações ou diferenciações nos produtos. Bastava produzir em larga escala para um mercado que crescia rapidamente com a incorporação de novos contingentes populacionais em função do processo de urbanização.

Neste contexto, as indústrias estavam voltadas para o chamado “chão de fábrica”, pois a ordem expressa era produzir em grande escala. Nesta realidade o engenheiro reinava absoluto. O poder nas organizações em todos os níveis estava com ele. E por outro lado, as empresas precisavam de profissionais especialistas para dirigi-las o que explica a relevância que os engenheiros tinham. Daí é possível entender porque o considerado pai da Administração Científica, que desenvolveu métodos de controle cada vez mais intensos de trabalho, Frederick Taylor, era um engenheiro de formação. Outro importante teórico da Administração, o francês Henri Fayol, fundador da teoria Clássica da Administração, autor da obra Administração Geral, era também engenheiro.

Essas mudanças, de caráter social, cultural e político, batiam na tecla de que os trabalhadores sob o fordismo-taylorismo estavam se transformando em burros amestrados, conforme as palavras de Gramsci, filósofo marxista italiano. As críticas a este modelo saíram da academia e foram incorporadas pelas artes. Charles Chaplin em seu brilhante filme “Tempos Modernos” vai fundo nas críticas às mazelas do sistema, mostrando de forma irônica, como o trabalhador se torna um autômato nas linhas de produção.

A Escola de Relações Humanas, que surge a partir dos estudos de Elton Mayo em Hawthorne, nos EUA, na década de 1920, é um reflexo dessa mudança. A partir desta pesquisa, de caráter experimental, em que os pesquisadores liderados por Mayo, analisam dois setores de uma fábrica de material elétrico, foi possível detectar a mudança nos padrões de comportamento organizacional. Um dos setores foi utilizado como teste, com a introdução de mudanças no ambiente de trabalho, como melhoria das condições de iluminação e mudança do lay-out e do fluxo de trabalho. Foram também introduzidas mudanças nos intervalos de folga. No segundo setor, considerado como de controle, os pesquisadores apenas observam o comportamento dos trabalhadores, não introduzindo nenhuma alteração nos sistemas de trabalho ou no ambiente. A resposta esperada era que o setor em que foram introduzidas as mudanças, a produtividade seria ampliada, mas o resultado surpreendeu a equipe de Mayo. Os dois setores melhoraram os níveis de produtividade. Esse resultado gerou o insight de que não eram as condições físicas do ambiente de trabalho ou a forma e organização produtiva que afetava isoladamente a produtividade, mas outra necessidade não detectada pelos supervisores: a necessidade de relacionamento, de integração pessoal, sem temor da supervisão, enfim melhor qualidade de vida no trabalho.

Estavam lançadas as bases de uma nova teoria sobre a organização produtiva. O modelo fordista-taylorista dava sinais de esgotamento e era necessário repensar as formas de relacionamento com os trabalhadores no ambiente produtivo. Esta escola representou uma crítica ainda tímida ao sistema vigente de organização produtiva. A utilização da abordagem sistêmica de Von Bertalanffy algum tempo depois, vai colocar novamente o fordismo-taylorismo no banco dos réus, ao defender uma visão holística do trabalho.

Assim, é a partir do esgotamento do modelo fordista-taylorista que a hegemonia do engenheiro nas empresas começa a perder força, pois as empresas começam a perceber que precisam de profissionais com uma visão generalista, capazes de terem sensibilidade para com outros aspectos da vida social e não somente a tecnologia, produção e processos. É dessa forma, que outros profissionais começam a ganhar espaço nas organizações industriais norte-americanas. Isso não quer dizer que o engenheiro perde a sua força, mas os currículos e a própria profissão precisaram ser reconstruídos. As escolas de engenharia passam então a incluir em suas grades conteúdos como planejamento, gestão de pessoas, Sociologia, Psicologia, Filosofia etc. Os engenheiros, por sua vez, para não perderem espaço nas organizações para outras profissões, passaram a recorrer aos cursos de extensão ou especialização na área de gestão, procurando assim aprimorar seus conhecimentos para se adaptarem à demanda por generalistas.

O curso de engenharia da FEI, iniciado em 1945, na Liberdade, São Paulo, já no seu início, incorpora disciplinas humanísticas em seu currículo, pois o seu fundador, Pe. Saboya, conhecedor da realidade americana, incorporou esta inovação.

Com a globalização econômica outra mudança importante irá ocorrer. O Neoliberalismo, uma releitura do Liberalismo clássico em que o livre mercado não é mais restrito aos limites territoriais dos estados nacionais. O livre mercado passa a ser global, mundial. As empresas passam a competir mundialmente, sem o protecionismo que visava salvaguardar o mercado interno para as empresas locais. Com as empresas libertadas dos mecanismos protecionistas, elas tem vôo livre em toda a extensão do planeta e por isso precisam ter qualidade, diferenciação, preço, logística etc. para enfrentar o novo mercado.

E onde o engenheiro entra nesta nova configuração econômica mundial? Como as empresas no mercado globalizado estão na maioria dos países, muitos profissionais, em todo o mundo, estão constantemente se deslocando de um país a outro e por isso estão em contato constante com costumes, culturas, tradições, religiões muito diferentes da nossa. Esse contato com culturas diferentes pressupõe profissionais que tenham sensibilidade para com a diversidade, agindo sem preconceitos e estereótipos. Empresas norte-americanas e européias procuram treinar seus profissionais para serem capazes de pensar globalmente e agirem localmente, ou seja, olhar o diferente, não a partir de sua própria cultura, mas a partir do conhecimento da realidade que o cerca.

 

As escolas de engenharia
École Royale des Ponts et Chaussées - fundada em 1747 em Paris, França;
Bergakademie Freiberg - fundada em 1765 em Freiberga, Saxónia;
Academia de Minería y Geografía Subterránea de Almadén - fundada em 1777, em Almadén, Espanha;
Stavovská inženýrská škola - fundada em 1787, em Praga, Boémia;
Academia Real de Fortificação, Artilharia e Desenho - fundada em 1790 em Lisboa, Portugal;
Real Seminario de Minería - fundado em 1792, no México;
Real Academia de Artilharia, Fortificação e Desenho - fundada em 1792, no Rio de Janeiro, Brasil;
École Polytechnique - fundada em 1794 em Paris, França;
Kaiserlich-Königlich Polytechnisches Institut - fundado em 1815, em Viena, Áustria;
Polytechnische Schule Karlsruhe - fundada em 1825 em Karlsruhe, Baden.
Escola Politécnica da USP – 1893 – São Paulo
Escola de Engenharia Mackenzie – fundada em 1896 em São Paulo.
Faculdade de Engenharia Industrial – (FEI) 1945 – São Paulo

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Tags: Engenheiro Escola de relações humanas

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