A liderança vista por dentro

Muito é exigido do líder e pouco é fornecido em termos de preparo. A posição de liderança, muitas vezes, pode representar mais um fardo para o profissional do que símbolo de sucesso na carreira.

Tenho desenvolvido e ministrado muitos treinamentos para formação de líderes de todas as naturezas: líderes coach, líderes inspiradores, líderes servidores, de projetos, trainees, enfim, coleciono inúmeras experiências com este público tão seleto.

Após todos esses anos de estrada dizendo a eles como devem ser, o que devem fazer, de que maneira se comportar e o que as empresas esperam deles ultimamente tem me surgido o questionamento: e o líder, como se vê? Quais as angústias que sente uma pessoa que é cobrada constantemente por uma autoridade que deve exercer, custe o que custar? Que é remunerada para exercer uma autoridade sem saber calibrar o poder?

Me deparo constantemente com a situação de total despreparo que esses profissionais, muitos deles em posições de relativa senioridade, apresentam quando o assunto é gente: cada um parece ter desenvolvido um método próprio de gerenciar pessoas, normalmente baseado em experiências pessoais colecionadas ao longo da vida com chefes memoráveis, uns pela sabedoria e outros, nem tanto. Os modelos que formam a personalidade de liderança de cada gestor são heterogêneos, esparsos e residuais, uma vez que são criados e estruturados sobre as bases da percepção individual de cada indivíduo, encarnado no papel de gestor.

Quase fico com pena desses guerreiros: atender as expectativas que um modelo de sucesso socialmente construído impõe, atender suas próprias aspirações, atender às necessidades e exigências da empresa que remunera sua força de trabalho. Manter uma equipe motivada e orientada para o sucesso, direcionada para resultados, integrada e engajada é, no mínimo, uma missão difícil. Olhando pela perspectiva do líder, é um grande desafio criar e manter as condições para que a equipe atinja os melhores resultados e ainda esteja motivada, alinhada, engajada e produtiva. Não basta criar metas desafiadoras, é preciso que esses objetivos sejam relevantes para a empresa e para o indivíduo, que realmente instiguem, mas, por outro lado, não representem esforços além do limite das pessoas. Não basta que a equipe produza os resultados esperados, ela precisa estar em constante desenvolvimento. Tudo isso faz parte do papel de um profissional que, independentemente de sua formação acadêmica, recebeu pouca ou nenhuma preparação para assumir o posto. Invariavelmente, o líder primeiro recebe a bomba acionada e só depois vai aprender como desmontá-la. Algumas vezes o resultado acaba sendo explosivo e fere não só a ele próprio, mas a todos os envolvidos.

Atualmente esse assunto vem sendo explorado de maneira abrangente por diversas teorias, todas elas recheadas de boa vontade para criar uma estratégia que forme líderes perfeitos: super homens e mulheres que serão os responsáveis pelo sucesso de outras pessoas e da empresa. Porém, tenho percebido uma grande lacuna na autoimagem desses profissionais, que, muitas vezes, receberam a tarefa e trataram de partir para a guerra, quase sempre apenas munidos de um simples canivete em um campo de batalha repleto de canhões.

Muitos dos clientes que recebo para processos de coaching chegam com grandes dúvidas em relação a seus papéis como líderes, trazendo muitas inseguranças e orientados por modelos confusos sobre como devem gerenciar as pessoas, processos, recursos, resultados e estratégias. A grande maioria carece de consciência a respeito até de seu propósito de vida, de suas paixões e, sem exceção, não tem segurança de que o modelo de gestão escolhido é realmente o mais eficaz, fruto do ensaio e erro de toda uma carreira. Muitos deles, pessoas brilhantes tecnicamente em suas áreas de formação, esperam conseguir conciliar sua carreira de especialista com o exercício da liderança e se frustram quando topam com a dura realidade de ter que fazer uma escolha entre sua vocação e sua carreira dentro de uma empresa quando aceitam fazer parte do time de gestores. Muitas vezes eu ouvi a expressão “não é possível o líder ter um pé em cada barco”. Ou escolhe se aprofundar tecnicamente em sua área de formação, ou abandona sua paixão e coloca os dois pés no barco da liderança. Decisão difícil.

Olhar a liderança pelo lado de dentro significa aprender a encarar o exercício da gestão como um processo e, portanto, em permanente desenvolvimento, assim como as pessoas que ocupam esses cargos. Neste momento de aceleração das transformações organizacionais, proporcionar aos líderes momentos de questionamento e oportunidades de revisão de seus modelos pode permitir que as pessoas tenham a chance de se reconhecer, ou não, dentro de um papel que é alvo de tantas discussões. Não basta disponibilizar ferramentas sofisticadas de gestão de processos e pessoas, mas organizar fóruns onde se crie a consciência do real papel dessa população é de vital importância para uma nova geração de líderes conscientes de suas responsabilidades, consigo, com as equipes, com a organização e com a sociedade onde estão inseridos.

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Tags: liderança, educação, formação, equipes

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