Como você lida com a autoridade? Obedece ou desafia?

O que leva alguém a ser obediente? Uns dizem que as pessoas já nascem para obedecer, outros acham que elas são levadas a isso por uma figura dominadora. Para Stanley Milgram a resposta estava no tipo de ambiente. Conheça seu famoso estudo sobre Obediência e tire suas próprias conclusões.

No período pós-Segunda Guerra Mundial, o mundo deparou-se com uma incômoda situação causada pelos julgamentos dos nazistas pelos crimes de guerra: ao contrário do que previa a crença popular, os réus comportavam-se como pessoas comuns, em vez do estereotipado psicopata frio que imaginavam.

 

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Julgamento de Nuremberg: eles apenas cumpriam ordens?

A teoria corrente sobre obediência apoiava-se nas rígidas cadeias hierárquicas da SS e na lavagem cerebral a que os soldados eram submetidos desde as fileiras mais baixas do exército.

 

Pois Stanley Milgram acreditava que a resposta estava mais no tipo de ambiente do que na autoridade em si. Sob sua ótica, qualquer situação potencialmente persuasiva poderia levar pessoas comuns a abandonarem seus princípios morais e cometerem as piores barbaridades.

 

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Sob a tutela de Solomon Asch, em Harvard, Stanley Milgram participou dos famosos estudos que mostraram como as pessoas cedem às opiniões do grupo a que pertencem abandonando, inclusive, suas próprias convicções pessoais.

 

Asch testou e confirmou suas hipóteses num ambiente até certo ponto inocente, num experimento inócuo onde as pessoas tomavam decisões disfarçadas de um teste de acuracidade visual imaginário.

 

A proposta de Milgram também era aparentemente inocente, mas seu experimento não tinha nada de inócuo. Seus incautos voluntários seriam testados em situações de estresse extremo onde precisariam colocar à prova seus mais intrínsecos valores morais.


Imagine que a leitora responda a um anúncio de jornal buscando voluntários para um Experimento em Psicologia que investigaria o efeito das punições no aprendizado*. Por US$ 4,50 (valores de 1961) você está num laboratório de uma Universidade (Yale) onde um sério Pesquisador, num imponente jaleco cinza, explica-lhe e a outro participante os procedimentos:

 

Um sorteio definiria quem seria o Professor e o Aluno. O primeiro faria uma série de perguntas pré-definidas ao segundo e, a cada erro, um choque elétrico de pequena intensidade (15 volts) seria-lhe administrado através de uma máquina acionada pelo próprio Professor. A cada erro a carga a aumentaria em incrementos de 15 volts, até o limite de 450 - diga-se, uma carga extremamente perigosa e potencialmente fatal.


A leitora sente-se aliviada ao ser sorteada Professora livrando-se, assim, da incômoda possibilidade de ser eletrocultada. Numa sala, auxilia o Pesquisador a amarrar o Aluno a uma cadeira onde um eletrodo é atado ao seu braço. A título de curiosidade, o Pesquisador lhe dá uma pequena amostra de o que seria um choque de 45 volts. A incômoda carga no seu braço assemelha-se a uma agulhada. Desagradável, mas nada demais.

 

Levada a uma sala anexa, você senta-se em frente a uma máquina com os trinta botões enfileirados que, acionados um a um, aumentam gradativamente a carga do choque e uma alavanca vermelha que, quando apertada, libera a carga no pobre Aluno.

 

Milgram Experiment4Você inicia a série de perguntas, enquanto o Pesquisador teoricamente verifica qual o impacto das punições (choques elétricos) na capacidade de aprendizado do Aluno.

 

Após os primeiros acertos, o Aluno começa a errar e você aplica-lhe os devidos choques. Através da fina parede você ouve alguns gritos e começa a ficar apreensiva. 90 volts e o grito aumenta. Suas mãos começam a suar e você se remexe na cadeira. 105, 120, 135 volts. Bzzzzzzzz! Mais alguns erros. 150, 165, 180 volts.

 

Os gritos do aluno parecem mais intensos. Ele grita que quer parar, que não quer mais participar do experimento. Você olha para o Pesquisador e ele diz apenas: "Por favor, continue."

 

195, 210, 225 volts. Os gritos ficam mais altos. O Aluno chuta a parede pede para sair. A essa altura a leitora também pede para sair. Diz ao Pesquisador que não está se sentindo confortável com a situação e gostaria de parar. Secamente, o Pesquisador responde: "É necessário que você continue com o experimento." Você se torce mais um pouco na cadeira e vai em frente. Já em 345 volts a legenda da máquina diz "Choques de Extrema Intensidade". Mais alguns botões adiante ela estampa "Perigo: Choque Severo".

 

Em 405 volts o Aluno deixa de responder. Questionado, o Pesquisador diz que "A ausência de resposta deve ser interpretada como resposta errada. Por favor, continue."

 

Mas você teme pela integridade física do Aluno, que não está mais respondendo. "Pode ter acontecido alguma coisa com ele.". O Pesquisador assegura-lhe, então, que "os choques não causam nenhum dano tecidual permanente".

 

A leitora segue adiante entorpecida, quase que mecanicamente.

Você aciona os três últimos botões praticamente sem pensar e libera um potencialmente letal choque de 450 volts no Aluno - uma pessoa completamente estranha que está do outro lado da parede. E pensa que poderia ser você no lugar dele. Um simples sorteio lhe colocou à frente da máquina, em vez de amarrada na cadeira elétrica. O que poderia ter acontecido se fosse o contrário?

 

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Milgram Experiment5A descrição pareceu-lhe macabra? Tenho certeza que sim. E realmente seria se tudo não passasse de uma armação. Sim, nada daquilo era real. Ou quase nada...

 

O Aluno era, na verdade, um ator contratado. Os choques - à exceção daquele que a leitora levava à título de amostra grátis - não eram aplicados de verdade ao Aluno. Seus gritos eram uma gravação. E o sorteio que lhe colocou na posição de Professora fora combinado. A única coisa real era o fato de a leitora ter ido até o final no que poderia ter causado a morte de alguém que você nunca viu na vida.

Os verdadeiros objetivos do Experimento de Milgram eram:

 

1. ver em que momento o voluntário manifestaria pela primeira vez seu desejo de encerrar sua participação na pesquisa; e

2. ao ser submetido à autoridade do Pesquisador, verificar qual o seu limite final.

 

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Milgram Experiment2Antes de realizar a pesquisa, Milgram submeteu seu esboço a diversos colegas seus, perguntando-lhes como eles imaginavam que os voluntários se comportariam.

 

O mais pessimista estimou que três em cada cem iriam até o final - isto é, administraria os choques até o perigoso limite de 450 volts - e a média do grupo avaliou que 1,2% dos participantes aplicaria o derradeiro choque final.

 

Mas em vez do resultado previsto por seus pares, Milgram deparou-se com a assustadora obediência de 26 dos 40 participantes do experimento. Nada menos que sessenta e cinco porcento! E nenhum voluntário desistiu antes dos 300 volts.

 

O que talvez seja mais impressionante deve-se, provavelmente, ao fato de não haver nenhuma causa aparente para a cega obediência a uma suposta autoridade estabelecida minutos antes de o experimento começar.

 

Não havia qualquer razão anterior que sugerisse algum tipo de obrigação do voluntário para com o Pesquisador. Nenhuma relação hierárquica ou familiar, nem outra forma de poder ou autoridade que submetesse o indivíduo a uma situação estressante como essa.

 

Ele simplesmente obedecia a um homem num jaleco cinza com padronizadas frases, assépticas e previamente ensaiadas como "Por favor, continue", "É necessário que você continue para terminarmos o experimento" ou "Os choques não causam nenhum dano tecidual permanente".

 

Talvez a leitora se questione um pouco sobre os resultados passados, quem sabe especulando sobre a evolução da consciência politicamente correta nos últimos anos, em favor dos direitos humanos e coisas parecidas.

 

Mas recentemente o Estudo de Milgram foi novamente replicado e apresentado num programa especial da BBC de Londres. As imagens dos participantes em seus conflitos internos são absolutamente impressionantes. A angústia dos seus conflitos internos pode ser acompanhada no vídeo abaixo:



As duas partes restantes estão aqui e aqui. Assista até o final, a tempo de ver o apresentador comentar desolado ao final: "Eu pensava que violência era algo que os outros cometiam". E, quarenta anos depois, os resultados mostraram o mesmo índice de submissão à autoridade da época dos Julgamentos de Nuremberg.

 

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Milgram realizou, ainda, outras 19 variações do seu experimento, avaliando mais de 1.000 voluntários no total. Num dos mais curiosos, o Pesquisador trocava de lugar com o Aluno durante do Experimento e este passava a pedir-lhe que continuasse com a rotina. Ante a irrevogável recusa de 100% dos voluntários, ficava claro que a influência autoritária era exercida exclusivamente pelo sujeito vestindo o jaleco cinza.

 

Outra descoberta interessante foi perceber que, neste quesito, as mulheres se comportam de forma muito parecida com os homens no quesito da obediência. Infelizmente não houve variações com mulheres no papel de Aluno (para ver se os homens machucariam uma mulher) nem de Pesquisador (para ver se os homens obedeceriam a uma mulher da mesma forma).

 

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HolocaustoMesmo quando os dilemas morais estão presentes de forma explícita, a autoridade parece prevalecer sobre as preferências individuais. Mas e os dilemas morais da própria pessoa que exerce a autoridade, não teriam papel nessa história?

 

Às vezes sim, como mostra o dramático episódio narrado por Gerd Gigerenzer em O Poder da Intuição: O inconsciente dita as melhores soluções.

 

Durante a Segunda Guerra Mundial, o 101o Batalhão da Polícia da Reserva Alemã chegou à pequena cidade de Josefow, na Polônia, no dia 13 de julho de 1942. Seu comandante, o major Wilhelm Trapp era um oficial de carreira que, aos 53 anos de idade, recebeu a mais repugnante tarefa da sua vida: sua tropa deveria levar todos os homens judeus da cidade para os campos de trabalhos forçados e assassinar os demais habitantes a tiros. Idosos, mulheres e crianças.

 

Ao dirigir-se aos seus comandados, porém, transmitindo-lhes as ordens recebidas, um Trapp às lágrimas fez uma rara oferta: aqueles que não se sentissem aptos a realizar tal tarefa, por qualquer motivo que fosse, poderiam manter-se fora da incursão e livres de qualquer punição.

 

Doze dos quinhentos soldados deram um passo a frente e se retiraram do grupo, além do próprio Trapp. Durante o massacre, mais uma centena de soldados também não conseguiu prosseguir. Os restantes, porém, aniquilaram 1.500 dos 1.800 habitantes de Josefow.


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Em The Luciffer Efect: understanding how good people turn evil, Philip Zimbardo conta como dois dos mais conhecidos mitos bíblicos estão calcados na obediência - ou melhor, na desobediência. Lúcifer era o anjo preferido de Deus até cair em desgraça ao desobedecer uma ordem Sua. E Adão e Eva são expulsos do Paraíso ao desobedecer a ordem de não comer o fruto proibido.

 

Assim, desde a mais tenra idade somos condicionados a obedecer ordens. A própria ordem, aliás, tem em si uma dose dupla de obediência, porque além daquilo explícito na ordem, há o implícito comando de que você deve obedecer a ordem dada.

 

Mas como mostraram os exemplos do texto, nem todo tipo de autoridade é justa, benigna, moral ou legal. Nenhum de nós recebe, no entanto, qualquer tipo de treinamento para reconhecer as diferenças entre autoridades boas ou más.

 

Independente do lado em que você esteja, há algumas questões importantes que se deve observar, como aponta o próprio Milgram em Obedience to Authority: An Experimental View:

 

O poder da autoridade emana não das características da pessoa em si, mas da forma como os outros a percebem dentro de um contexto social. Numa barbearia você deixa uma pessoa encostar uma navalha na sua garganta; numa sapataria você aceita uma ordem para andar de meias pela loja, na ponta dos pés.


Mas quando as ordens vão contra aquilo que seus princípios morais pregam, você deve reavaliar a ligitimidade desta autoridade. Para desobedecer uma autoridade maligna, entretanto, deve-se ter a capacidade de transformar crenças e valores em ação.

 

Quando uma pessoa segue uma ordem, normalmente atribui as consequências dessa ordem a quem a origina, eximindo-se de maiores responsabilidades. O experimento de Milgram deixa isso muito claro, quando o Pesquisador diz que ele é o responsável por qualquer coisa que aconteça com o Aluno.

 

MILGRAM E A ADMINISTRAÇÃO

 

Um dos comportamentos mais perceptíveis nos voluntários do estudo era o seu desejo de fazer bonito durante o Experimento. Seja qual fosse a classe social do participante, ele queria causar uma boa impressão ao suposto Pesquisador. Queria fazer da melhor maneira possível o trabalho para o qual havia se comprometido.

 

Muitas vezes, em nosso trabalho, damos mais atenção à impressão que vamos causar no chefe do que com o que fazemos em si. Quando desviamos o foco desta forma, não damos muito atenção naquilo que fazemos e, muito menos, julgamos se o que fazemos é correto.

 

Vejam os casos do contador que frauda, o caixa que sonega nota fiscal, o cozinheiro que reaproveita comida e outros maus exemplos de profissionais. Muitos deles mentem, enganam e roubam obrigados por seus chefes.

 

Às vezes seu emprego depende disso, outras fazem apenas para ficar bem com o chefe. Mas são tão culpados quanto. E têm um chefe que não percebem que alguém que roube por ele, um dia haverá de roubar dele.

 

O QUE VEM POR AÍ

 

Os experimentos de Stanley Milgram exploram nossas reações quando somos provocados a inflingir sofrimento a alguém. Mas e numa situação inversa, onde temos a oportunidade de fazer o bem? No próximo texto veremos como John Darley e Bibb Latané analisaram o comportamento altruísta do ser humano.

 

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* Vale lembrar que, poucos anos antes, B. F. Skinner já havia sugerido que apenas os reforços positivos poderiam melhorar a capacidade de aprendizado das pessoas e as punições, por outro lado, não melhorariam em nada tal faculdade.

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Leia a Introdução sobre esta série a respeito de famosos Experimentos em Psicologia, além de uma relação dos outros textos já disponíveis.

 

Texto original Stanley Milgram e o choque de autoridade. Veja que Milgram também é o criador da famosa teoria dos Seis Graus de Separação. Conheça também quais são as figuras de autoridade mais respeitadas.

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Tags: Autoridade Choque Obediência Stanley Milgram

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