Desafios do líder: superando o medo de errar

Todos os dias somos confrontados com necessidade de tomar decisões que nos desafiam a inovar, e para isto, é preciso se arriscar. O medo de falhar torna-se um bloqueio para aqueles que não acreditam em seu potencial. O que fazer para superar seus próprios limites. As lições que aprendi de uma escalada em uma montanha.

(*)Por Danielle Lacerda

Há alguns anos, eu estava de férias em Mondim de Basto, uma vila localizada no norte de Portugal. Lembro bem quando eu olhei pela janela da casa de meus sogros e vi a imponente montanha que estendia pela paisagem. O Monte Farinha ou Senhora da Graça, como é conhecido, é uma montanha com aproximadamente mil metros de altitude. A montanha é o cartão postal da vila, que conquistou peregrinos que visitam o santuário construído no topo da montanha, dedicado à Senhora da Graça e aventureiros de esportes radicais que aproveitam dos recursos que a natureza oferece.

Altas altitudes nunca foram meus locais favoritos. Tanto que andar de carro pelas montanhas é sempre algo que me faz testar meu controle pessoal. É a beleza da paisagem que me motiva a superar meus medos e sigo em frente. Já havia visitado o Monte da Graça seguindo a estrada, quase circular em torno da montanha, de carro. Algo para mim, desgastante, contudo recompensador. O visual da cidade e dos arredores do alto é espetacular. Observando aquela altura, para mim, era difícil conceber a ideia de pessoas comuns subindo a pé aquela montanha. Prática usual para habitantes da região, eu tinha como referência meu marido, montanhista e caminhante experiente, que já havia feito o percurso pedestre para o Monte Farinha algumas vezes. Nestas férias, havíamos decidido fazer este percurso. Mas será que eu iria conseguir?

Encarando os desafios

No dia em que parei para admirar o Monte Farinha da janela de casa, era o último dia das férias. Combinamos de sair bem cedo, quando o sol começava a nascer. A montanha parecia me encarar mim com se me desafiasse. Fiquei com receio de ter que parar no meio do caminho por não ter resistência suficiente, que logo iria me cansar. Mas logo o pensamento foi embora substituído pela necessidade de organizar os preparativos. Mochila pronta, água, frutas, protetor solar.

Quando me dei conta, já estava para na base da montanha. Enquanto isso, o grupo procurava a sinalização que indicava a trilha na floresta para a começar a escalada. Continuamos o percurso a pé. A beleza natural mesclava-se à agradável conversa. Se o cansaço aparecia, uma pequena e rápida parada para se refrescar era suficiente. E assim se foram, 200 metros, 400, 600. Mais uma parada, desta vez em um mirante. Mais 300 metros e já era possível avistar os muros que cercam o santuário. Chegamos ao topo da montanha. O vento frio ajudou a refrescar o calor que fazia no interior da floresta durante a subida. Do alto, olhei para frente, para os lados e não acreditei na distância que eu havia percorrido. Tudo parecia tão distante, até mesmo a lembrança que acreditava ser impossível para mim.

Experiências que resultam em aprendizados

Foi uma experiência rica em aprendizados. O principal deles foi perceber como criamos tantos bloqueios que nos impedem de tomar atitudes. O medo do desconhecido, o receio de não conseguir, de errar, falhar são impressões que congelam e paralisam. Foram muitos anos de vida até perceber que muito do que ficou para trás foram impedidos pelo medo de errar. Como já apontou a mestre em comunicação e especialista em PNL, Rita Caldeira, muitas vezes é preciso fazer um reset mental do caminho que decidimos trilhar.

E para o tal reset mental acontecer é preciso Refletir. O ato de refletir, se debruçar sobre os nossos próprios comportamentos e atitudes, deveria fazer parte de nossa rotina. Questionar-se sobre os motivos de nossas decisões deveria se tornar uma constância e não apenas no último dia ano, fazendo mil promessas para o na seguinte. Tomar decisões diante do inesperado, daquilo que nos tira do lugar comum, são práticas cotidianas de um líder. Saber lidar com o medo de errar é uma forma de trilhar caminhos inovadores, arriscar de maneira consciente. A inovação é parte do jogo.

Diferente da invenção, a inovação está ligada a um modo de pensar, refletir, interligar. Para inovar, é preciso estar atento ao outro, seja o cliente, o colaborador, o acionista. É se colocar no lugar do outro para entender as suas necessidades reais, não aquelas idealizadas. Afinal, só conhecemos parte do todo, como afirma a Rita Caldeira, que é construída a partir de nossa percepção.

Portanto, é preciso ultrapassar o medo de falhar. O líder entende que entender o outro é parte do processo de inovação e as decisões que decorrem destes processos podem ser arriscadas.

Superação e tomada de decisão

Para superar o medo de errar e de assumir riscos, lembre-se que subir uma montanha não é algo impossível quando se conhece os riscos, quando se está acompanhado por uma equipe que se ajuda, quando o percurso e o ambiente são tão agradáveis que o resultado é apenas mais uma consequência natural do esforço em conjunto. A superação do medo de errar e a tomada de decisão é ser algo unicamente que só você pode fazer. Mas este percurso não precisa ser desgastante, nem monótono e solitário. Uma equipe motivada, ciente de suas próprias responsabilidades, torna a caminhada mais segura e leve.

Em tempo, depois desta aventura no Monte Farinha, este ano, também em Portugal, fiz mais uma subida à pé. Desta vez, na graciosa vila de Sintra, próxima à Lisboa. Do centro histórico da vila, seguimos para o Castelo dos Mouros que fica num dos pontos altos da serra de Sintra e quase todos os turistas optam pelos automóveis para chegar lá. A confiança conseguida na primeira experiência facilitou percorrer o caminho sinuoso de 1.800 metros, de dificuldade moderada. A curiosidade, o novo e o desejo por experiências positivas são grandes estimulantes que levam a superar obstáculos que nós mesmo criamos. E só nós, podemos superá-los.

 

 (*) Danielle Lacerda é formada em Administração de Empresas, doutoranda e mestre em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, já passou por grandes empresas do setor elétrico e telecomunicações na área de gestão estratégica. Atualmente, tem se debruçado no universo do empresários livreiros do passado e suas estratégias comerciais, coleciona livros antigos e é apaixonada por compartilhar histórias e experiências que possam motivar e inspirar.

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Tags: equipe lideranca motivação superação