O inacreditável mundo dos gurus corporativos

E por que você deve parar de dar audiência para essa turma.

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Um fim de semana qualquer em um salão de eventos como qualquer outro espalhado pelo Brasil. Pego um café na mesa aonde se encontram uns brigadeiros, pães de queijos e outros quitutes disponíveis aos palestrantes. Tá, pego uns brigadeiros também. Ninguém é de ferro.

Com o café na mão e os brigadeiros diminuindo a cada segundo, vou até o fundo do salão, onde eu tomarei o palco no fim da tarde. As luzes estão apagadas, a voz no microfone avisa: “E agora com vocês, um dos maiores palestrantes do Brasil” - Eu nunca ouvi falar no Fulano. “Fundador da empresa XYZ” - Nunca ouvi falar. Requisitado nos maiores eventos do Brasil e do mundo (juro, do mundo, nem que eu quisesse eu conseguiria inventar algo assim).

Em seguida, as luzes acendem e uma daquelas músicas de filme de ação dos anos 80 começa a tocar. Entra um sujeito pulando com as mãos pra cima como se tivesse acabado de ganhar uma maratona. Nos próximos 50 minutos, ele vai contar de forma bastante entusiasmada o segredo da vida, do universo, e tudo o mais.

Eu comecei a escrever porque gostava de ler. Eventualmente, publiquei alguns livros e fui chamado a fazer palestras. De repente, começaram a perguntar quanto eu cobraria para falar em público.

Em meu primeiro evento, lembro que coloquei um valor que para mim era relativamente alto. “Vou aumentar esse seu valor em 60% Ok? Não pode destoar muito dos outros palestrantes senão vão achar que você é ruim.” Foi o que me respondeu a voz do outro lado da linha enquanto subia meu preço.

Como eu sempre gostei é de fazer outras coisas, nunca me importei muito com as tais das palestras. Me dei ao luxo de dizer 'não' quando a voz do outro lado da linha, mesmo ligada à organização do evento, pede um “incentivo” para me contratar (algo que infelizmente é mais comum do que se pensa) e nunca tive paciência de lidar com as tais empresas de palestrantes. Como sempre tive outros interesses, isso para mim sempre foi algo à parte, mais entretenimento do que trabalho, ainda que, confesso, dinheiro é dinheiro e não se diz não a alguém que queira jogar um pouco dele na sua cara.

Escrevi meu primeiro livro aos 23 anos, e agora com 36 me sinto praticamente um dinossauro do ramo. Um daqueles tiozões que reclamam dos bons e velhos tempos. “Lembra quando encontrávamos gente de qualidade para conversar nos corredores?”, “lembra quando valia a pena esperar e assistir às outras palestras?”, "quando você ficava feliz de encontrar pessoas com ideias realmente originais?" Ah, os tempos da Amélia…

Hoje, infelizmente, “palestrante e guru” virou profissão. Óbviamente, a maioria se dirá “empresários”, “investidores” e outras coisas bacanas. Fazem ações em mídias sociais, arranjam assessores de imprensa, pagam outras pessoas para escrever seus livros (sim, já me ofereceram mais de uma vez para escrever e “ter meu nome nos agradecimentos”), constróem o próprio mito e depois repetem a mesma história à exaustão até ele se tornar realidade.

Assim estagiários viram “membros fundadores” de empresas. Picaretas viram “investidores”. Um fulano que deu um curso de alguma coisa em algum lugar vira “professor”. Crianças treinadas para repetir informações duvidosas e piadas requentadas, de olho no público e no dinheiro que isso tudo traz.

Estou exagerando? Já vi “diretor de uma das maiores empresas de XYZ do país" repetir palavra por palavra a palestra de um inglês bacana - até as piadas - como se fossem dele próprio. Já vi gente mentir descaradamente que conhecia fulano ou ciclano, como que para aumentar a própria importância. Já vi gente inventando números e dados, tudo como uma “estratégia para convencer melhor” o seu público. Tudo com uma roupagem de grife e sorrisinhos elaborados.

É um mundo em que a forma facilmente toma o lugar do conteúdo.

Nunca entendi direito o papel do público nessa dança. De um lado, é óbvio que as empresas e pessoas que participam desse tipo de evento arcam com a conta dessa festa toda. De outro, são enrolados por uma turma que, do ponto de vista de mundo real, deixa muito a desejar. A maioria das pessoas tem muito mais a aprender lendo um livro ou conversando com um empresário de verdade do que assistindo à última ladainha se desenrolar em um palco qualquer.

Desconfio que a busca por um conteúdo fácil, um atalho rápido ao conhecimento, ou até a riqueza - como vi alguns desses palhaços modernos prometer ao seu público, seja o grande culpado. É sedutor aprender sem esforço, e o canto da sereia muitas vezes fala mais alto.

A partir do momento em que você tira as promessas de mais “motivação”, “sucesso" ou qualquer coisa que nenhum ser humano sensato prometeria no espaço de uma hora, não sobra muito. Se o castigo para quem quer o atalho é perder o seu tempo e dinheiro pulando de evento em evento, sempre sem ter muita coisa de novo para contar, a recompensa de ir embora e nunca mais voltar, está se tornando cada vez mais tentadora.

Cuidado, querido leitor, com quem se vende por aí como “guru”. Como diz o velho ditado: Se você está jogando pôquer e não sabe quem é o otário, o otário pode ser você.

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