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O melhor office boy do mundo

O que você prefere? um excelente vendedor ou um gerente medíocre? Muitas vezes os profissionais são "promovidos' por questões de tempo de casa, ou falta de motivação adicional e não por critério técnico.

Celia Spangher,
O Melhor Office-Boy do Mundo

Celia Spangher

Luis Carlos entrou no escritório da empresa de advocacia e respirou fundo. "Quero muito esse emprego e vou conseguir!". Estava com sua melhor roupa, impecável, o cabelo bem penteado, a mãe tinha dado o dinheiro para o ônibus e lá estava ele, esperando pela entrevista, nervoso.

Foi entrevistado pela Marisa, secretária do Dr. Mendonça, dono do escritório. Ela percebeu o nervosismo dele, ofereceu água e logo estavam conversando animadamente.

Saiu de lá contratado! Que alegria – seu primeiro trabalho.

Luis Carlos aprendeu logo suas tarefas e as desempenhava com muito entusiasmo. Era o primeiro a chegar, separava os papéis para entregar, os bancos, fórum, etc, fazia seu roteiro e saía animado com a pasta na mão. Chegava ao final do dia, distribuindo protocolos e comprovantes, sempre com um sorriso no rosto. Final do dia, Missão cumprida. Lá ia ele, de volta para casa, feliz.

Em pouco tempo já conhecia toda a cidade, os caminhos mais curtos, os funcionários mais amáveis, cortava caminhos, ganhava tempo. Sabia como resolver pequenos contratempos e empecilhos, e sempre chegava ao final do dia com as tarefas realizadas.

Até o dia em que Marisa o chamou, com o rosto muito sério e disse: "Luis Carlos, Dr. Mendonça tem uma missão importantíssima para você". Luiz Carlos ficou apavorado: "e agora? Meu Deus, o que será?". Marisa então lhe disse: "Ele quer que você entregue um documento em mãos de um Juiz, em Brasília". Luis Carlos tremeu: "Em Brasilia?.

"Sim, você vai de avião. Vou te dar todas as instruções, o Dr. Mendonça só confia em você para fazer esse trabalho".

Morrendo de medo e feliz por ter sido o escolhido, lá foi Luis para Brasilia, de avião pela primeira vez, com o envelope na mão. Só sossegou, depois de ter ligado para Marisa para dizer: "Envelope entregue, D. Marisa".

A mãe de Luis, D. Jacira, mal cabia em si de tanto orgulho do filho. Contava para as vizinhas: "Meu Luis foi para Brasilia, de avião, entregar uma encomenda para o patrão".

Quando chegou de volta ao escritório, muitos tapinhas nas costas, sorrisos e uma Marisa aliviada. "Que bom, Luis, que deu tudo certo!"- deu uma piscadinha para ele e disse: "Dr. Mendonça quer falar com você". Lá foi Luis Carlos, apreensivo para o imenso escritório do dono da firma.

Dr. Mendonça se levantou detrás da elegante mesa de madeira para cumprimentá-lo: "Rapaz! Você fez um excelente trabalho. Aqui na empresa todos gostam de você, portanto a partir de hoje, vamos promovê-lo a Auxiliar de Escritório com aumento de salário!".

Luis Carlos mal se agüentava em pé de emoção. Apertou a mão do Dr. Mendonça, balbuciou um "obrigado, doutor" bem baixinho e saiu da sala. Todos o cumprimentavam, Marisa então lhe mostrou a nova mesa que ocuparia, a partir do dia seguinte.

A mãe fez festa, o pai abriu uma cerveja, a vizinhança toda sabia que Luis Carlos tinha sido promovido.

A partir daquele dia, Luis sentava ao lado de Marisa, arquivava documentos, atendia ao telefone, anotava recados, tirava cópias, fazia pequenos trabalhos para ela e ajudava no escritório.

Porém, após três meses, Marisa percebeu que aquela luz, aquele brilho no olhar dele havia desaparecido. Ele fazia tudo direitinho, desempenhava as tarefas perfeitamente, mas algo estava errado.

Marisa então resolveu chamá-lo para uma conversa:

- Luis, o que há que você anda com essa carinha triste?

- Nada não, D. Marisa. – respondeu ele, sem jeito.

- Vamos rapaz, que eu te conheço. Você já está trabalhando aqui há um ano, sempre alegre, brincalhão. O que está acontecendo?

Ele parou um pouco, pensou, olhou para o chão. Depois de um tempo disse:

- Sabe o que é, D. Marisa, eu sinto falta da rua, dos bancos, do fórum, de falar com as pessoas. De ter aquele monte de envelopes para entregar, os pagamentos para fazer. Daquela sensação de chegar ao final do dia e dizer: puxa, fiz tudo hoje, deu tudo certo. Eu tenho saudade até do ônibus! – e o rosto foi se iluminando à medida que em que ia falando.

- Você está me dizendo que prefere ser Office-boy do que trabalhar aqui dentro, tranqüilo, no escritório? – ela perguntou, incrédula.

Ele ficou mudo, envergonhado, sem saber como dizer a ela que ele não tinha nascido para ficar dentro de um lugar, fazendo coisas "sem graça".

- Mas você ganha mais como Auxiliar, Luis. E depois, um dia vai subir na carreira, quem sabe até ser Gerente! Um rapaz tão inteligente! – argumentou.

- Mas eu não quero ser Gerente, D. Marisa. Eu quero e preciso ganhar mais para ajudar em casa, um dia ter minha própria família. Mas eu gosto mesmo é de ser Office-boy – confessou.

Marisa, com pena, conversou com Dr. Mendonça sobre a situação e ele então autorizou Luis a voltar a ser Office-boy pelo mesmo salário de Auxiliar. "se é isso que ele quer, deixa o menino....".


E assim, Luis ganhou as ruas de novo, feliz. Os anos foram passando, e Luis tinha mais responsabilidades: documentos confidenciais, viagens, valores em dinheiro, o anel de bodas de prata que o Dr. Mendonça deu para D. Carolina foi ele quem buscou na joalheria lá no Centro. Os convites do casamento de Marisa quem entregou? Luis. É ele quem recepciona as autoridades que vem ao escritório, providencia sanduíches para todo mundo que trabalha até tarde. Quando a filha do Dr. Mendonça foi estudar nos Estados Unidos, e esqueceu o passaporte em casa, adivinha quem foi rápido como um raio até a casa dele para pegar e levar no aeroporto?

Acertou! Foi o Luis. Ela mandou um cartão postal para ele direto dos Estados Unidos, agradecendo e ele mandou plastificar – está na sala de sua casa.

Hoje Luis ajuda o Dr. Mendonça a sair do carro e o acompanha até o escritório, carregando a pasta dele e depois segue o dia como sempre. Não mais anda de ônibus, porque a pressa é muita e o trânsito não dá. Ele vai com o motorista para cima e para baixo, desempenhando suas tarefas, com orgulho. Tem família, filhos na Universidade, estudando para "doutor".

Moral da estória: Dr. Mendonça perdeu um péssimo Gerente e ganhou o Melhor Office-Boy do Mundo. Qual dos dois você acha que ele prefere?

Celia Spangher - www.maximconsultores.com.br

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