O Mito de Pigmaleão e a Gestão do desenvolvimento

Afinal qual a parcela de responsabilidade do gestor e do colaborador no processo de desenvolvimento? E o que o Mito de Pigmaleão tem com isso?

Iniciando o nosso tema pergunto: No processo de gestão do desenvolvimento qual é a parcela de responsabilidade que cabe ao Gestor e ao Colaborador?

Esta é uma questão complexa e que encontra várias abordagens:
1- Não podemos nos eximir de identificar, no Gestor, uma parcela importante já que ele é o orientador, o “Coach” e o norteador do processo. Algo como um papel de “professor” (entre aspas porque o enfoque dessa ação professoral deve se basear mais na Andragogia do que na Pedagogia, permitindo espaço e iniciativa para seus “alunos”).
2- Nesta 2a. visão de enfoque recorro á Peter Drucker que afirmava que; “não existe programas de desenvolvimento e sim programas de autodesenvolvimento”, reforçando que a atitude dos colaboradores no sentido de seu próprio desenvolvimento é determinante para o resultado.
3- Ainda podemos ficar com a “coluna do meio” afirmando que caberia 50% para cada um dos lados, gestor e colaborador. Todos devem colaborar para o resultado.
Mas, evidentemente, vou introduzir mais um enfoque, que pode até ser considerado complementar, mas é bastante fundamentado. Refiro-me ao título deste artigo; o Efeito Pigmaleão.
Efeito Pigmaleão, ou Efeito Rosenthal, é um termo da Psicologia que define o fenômeno de que quanto melhores são suas expectativas em relação á uma pessoa, ou grupo de pessoas, melhores serão o seu desempenho. Inversamente, se suas expectativas são negativas ou não acredita em seus potenciais o desempenho é ruim.
Podemos fazer uma correlação com a famosa afirmativa: “se Você acredita que consegue então Você vai conseguir e, se Você acredita que não vai conseguir Você também tem razão”.
Não, não estamos comentando sobre um fenômeno de autoajuda. Há pesquisas muito profissionais que fundamentam essa conclusão:
- Em 1968 os pesquisadores Robert Rosenthal e Lenore Jacobson, da Harvard University, submeteram alunos de uma escola do Estado da Califórnia á um teste e informaram aos professores o nome de 20% dos alunos que obtiveram os melhores resultados (os alunos não tiveram essa informação).
Ao final do ano todos os alunos refizeram o mesmo teste e os alunos que foram informados aos professores tiveram resultados significativamente melhores, tanto em relação ao primeiro teste como em relação ao restante dos alunos.
No entanto os 20% dos alunos mencionados foram apenas escolhidos aleatoriamente não tendo nenhuma relação com o resultado dos testes.
As conclusões que os pesquisadores chegaram é que os professores elevaram suas percepções e expectativas em relação aos alunos identificados mudando suas atitudes em termos de atenção, cuidado e acompanhamento. Essa mudança de atitude causou uma melhora do clima de relacionamento entre eles com reforço da confiança, entusiasmo e cumplicidade influenciando positivamente a melhoria do desempenho.
- Cumulativamente o sociólogo americano Robert K. Merton, no início da década de 50, criou o termo “profecia autorrealizável” para identificar uma expectativa ou previsão que, mesmo que não se baseando em fatos concretos, pode se tornar uma crença e tornar-se, efetivamente, uma realidade. Robert Merton baseou essa conclusão estudando as “corridas aos bancos” muitas vezes provocados por boatos de dificuldades financeiras não fundamentadas, mas que provocam, efetivamente, dificuldades financeiras.
Na década de 60 ocorre o célebre estudo com base nas profecias autorrealizáveis, realizada por Douglas MacGregor , economista, psicólogo e professor universitário (MIT, Sloan School, Harvard e outras) e um dos mais influentes pensadores da área de relações humanas.
Esse estudo, que caminhou para a definição da famosa Teoria X e Y, fundamenta que a expectativa dos gerentes afeta o desempenho dos colaboradores. Mais uma vez, o estudo de MacGregor, conclui que quando o Gerente espera coisas positivas de seus liderados esses resultados tendem a acontecer. De outra forma, se o Gerente tem o que podemos chamar de, “um pé atrás”, com sua equipe e não acredita em suas possibilidades irá colher o pior de seus desempenhos. Lógico, há os que superam essa adversidade da falta de confiança e do desprezo e seguem em frente realizando o seu potencial, mas não é a maioria.
Mas, como ocorre esse “milagre” da transformação e melhoria do desempenho?
Mais uma vez são algumas atitudes que fazem acontecer esse milagre.
• Acreditar no potencial do outro interfere decisivamente na forma como o tratamos. Esse fator gera um clima de confiança e cumplicidade.
• Mesmo sendo exigente eu consigo fazer com que o outro perceba que tenho confiança e expectativas.
• Incentivo mais com desafios, responsabilidades e novas atribuições.
• Passo a oferecer um “feedback” mais personalizado e frequente, gerando um acompanhamento mais sistemático e orientado.
Em suma, não há milagres. Há, sem dúvida, uma maior preocupação com os resultados. Se pudermos adotar esse conjunto de atitudes iremos, inevitavelmente, aumentar o potencial de nossos colaboradores, alunos e ....filhos.
Mas, o que é o Mito de Pigmaleão?
Ovídio, poeta romano (40 a/C), um dos mais profundos estudiosos da mitologia Grega, desenvolveu a saga de Pigmaleão, Rei de Chipre e escultor que apaixonou-se por uma estátua que criou ao tentar reproduzir a mulher ideal. Dera-lhe o nome de Galathea. A deusa do amor, Vênus, compadecendo-se dele e atendendo a um pedido seu, já que não encontrara na ilha uma mulher que chegasse aos pés da que havia esculpido, em beleza e pudor, transformou a estátua numa mulher de carne e osso, com quem Pigmaleão casou-se e, nove meses depois, teve uma filha chamada Pafos, que deu nome à ilha.
Interessante notar que o Mito Pigmaleão, além dos desdobramentos citados acima, deu enormes frutos á arte cênica. Várias obras foram criadas com base no mito de Pigmaleão, óperas, peças e filmes. George Bernard Shaw (dramaturgo inglês) escreveu uma peça (Pigmaleão) que ficou famosa. Com base nessa obra foi criado o famosíssimo musical “My Fair Lady”. O filme, estrelado (1964) por Audrey Hepburn no papel principal, ganhou oito Oscar. O enredo, a exemplo do mito, é baseado em uma aposta feita pelo professor Higgins (aristocrata inglês) de que transformaria a personagem Eliza, uma simples florista, em uma dama inglêsa, ou seja, uma Lady. No Brasil a peça foi encenada em 1962 (Bibi Ferreira).
A televisão lançou a novela Pigmaleão 70. Alguém lembra? Certo, entre os que têm mais idade.
Pois é, o enredo é o mesmo, só que a personagem que passa pela transformação é um homem. A personagem era o Nando, que trabalhava na feira vendendo frutas com sua mãe, a Baronesa, e namorava a Candinha. Bem não vou entrar em detalhes, mas sei que agucei a curiosidade de muitos.
Finalizando não posso perder o foco da mensagem que preciso deixar. Todo gestor, antes de qualquer ação para o desenvolvimento de seus subordinados deve refletir: “Acredito que eles possam realizar?”. Se Vc não acredita, pense em alternativas, mas faça o trabalho completo. Não “faça de conta” que acredita. Até mesmo Você não vai conseguir se enganar. O primeiro passo é seu!

Bernardo Leite
assessoria@bernardoleite.com.br

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Tags: desenvolvimento Gestão recursos humanos