Platão e a Administração

Zildo Poswar,
PLATÃO E A ADMINISTRAÇÃO

1 - RESUMO DA VIDA

1.1 – Cenário Histórico Cultural

Nascido por volta de 428 a.C., Platão foi um jovem aristocrata, cuja mãe descendia de Sólon e seus ancestrais paternos do último rei de Atenas. Belo e vigoroso, duas vezes coroado nos jogos atléticos nacionais (o apelido “Platão” tem origem em seus largos ombros), seus dons intelectuais e físicos pareciam reservar-lhe uma brilhante carreira política numa Atenas que, à época, atinge o seu apogeu.

O acontecimento fundamental da Juventude de Platão é o seu encontro com Sócrates. Esse encontro é um verdadeiro “choque de contrários”, ou seja, o aristocrata jovem e belo torna-se discípulo de um cidadão de origens modestas, velho e feio. É, pois, um encontro significativo e simbólico, uma vez que a verdade e a justiça, dos quais Sócrates se tornará símbolo, não possuem bom aspecto, pertencendo a um mundo que não o das aparências.

Foi um apologista e professor dos ensinamentos socráticos. A condenação e morte de Sócrates o afeta profundamente, a ponto de escrever na Sétima Carta: “Reconheço que todos os Estados atuais, sem exceção, são mal governados...É somente pela filosofia que se pode discernir todas as formas de justiça política e individual”. Abandona os planos da carreira política em Atenas, e volta-se para a filosofia.

Após 386 a.C., Atenas torna-se a “Universidade” da Grécia, centro do pensamento helênico, após perder o Império que possuía no século anterior. As escolas de Platão e Sócrates abrem-se para estudantes de toda a Grécia, dedicando Platão os últimos 40 anos de sua vida às aulas na Academia, onde, apesar da ênfase nos estudos científicos, dava ênfase essencialmente ao ensino da ética.

1.2 – Traços Principais da Vida do Filósofo

Até a primeira metade de sua vida (386 a.C.), Platão limitou-se a um apologista e professor dos ensinamentos socráticos, quando, a partir daí, torna-se um verdadeiro filósofo.

Sua filosofia era abordada, principalmente, através da matemática, a ponto de ter escrito em sua porta a seguinte inscrição: “Não entre quem não conheça geometria.” Dedicou-se também aos estudos da lógica e da metafísica.

Mas embora tenha dado ênfase aos estudos científicos, Platão e sua escola tiveram como objetivo primordial o ensino da ÉTICA. Sua filosofia buscava “em primeiro lugar, a conversão da alma; e em segundo lugar... o serviço da Humanidade”. Acreditava ser a conversão fruto de um aprendizado científico metódico e não uma mudança súbita.

Apesar de divergir de Sócrates quanto à concepção da filosofia – um dava ênfase à ciência, o outro à cultura; um preconizava a educação científica, o outro a literária -, ambos possuíam o mesmo objetivo prático, ou seja, corrigir os erros da situação política na Grécia. O objetivo de Platão era treinar o governante-filósofo, aquele que pudesse dominar pela formação de sua inteligência e não pelas letras da Lei.

Em 387, em visita à Itália e à Sicília, expôs com tamanho entusiasmo os objetivos da República a Dionísio I, o Tirano de Siracusa, que este, inconformado com a maneira como ele (Platão) denunciava a injustiça e a tirania, o entregou ao embaixador de Esparta, que o vendeu como escravo.

Idealista, já entre os sessenta e os setenta anos, Platão fez uma tentativa direta de realizar o seu mais alto ideal: transformar um tirano em estadista-filósofo. Após a morte de Dionísio I, Dio, cunhado deste, a quem conhecera quando da sua primeira visita à Sicília, o convidou para que instruísse o sucessor, Dionísio II. Era chegada a hora de instruir o Rei-Filósofo. Mesmo sem estar seguro do êxito da empreitada, Platão sentiu-se no dever de colocar em prática o que pregava, não querendo ser julgado como um homem de palavras vazias, caso deixasse passar aquela oportunidade de agir. Afinal de contas, muitos alunos da Academia já haviam saído para a vida de estadista. Agora chegava a hora de o próprio Platão treinar um monarca.

De um modo geral, pode-se dizer que Platão não obteve êxito em Siracusa. O Treinamento de Dionísio II não deu certo, a Constituição da cidade não foi reformada e nenhuma cidade siciliana foi restaurada, mas não por sua excusa em tentar aprimorar a formação educacional de seu governante. Mesmo com a subida de Dio ao poder, após a derrubada de Dionísio II, a Sicília não encontrou o seu estadista-filósofo. Platão, então, o incentiva a uma solução mista, com um governo de conciliação dos interesses das diversas facções, não como um modelo, mas como o melhor caminho possível para aquele momento.

Esta foi uma característica de Platão. Não foi um visionário, nem um homem desprovido de senso prático. Havia chegado à Sicília com a esperança de fundar a cidade de seus sonhos, porém acabou aceitando o império da Lei e uma constituição mista. Tinha crença na supremacia da Razão e da monarquia e terminou por aceitar um regime, não por ser o ideal, mas por ser o único viável naquele instante, o que poderia ser alcançado e estabelecido. Não como o melhor de que o pensamento era capaz, porém como uma segunda melhor alternativa, a mais conveniente entre as possíveis.

Essa transição do pensamento platônico acontece de forma gradual.

O primeiro sinal pode ser encontrado na terceira das Epístolas, na qual conta como trabalhou com Dionísio na preparação de preâmbulos para certas leis, - provavelmente na segunda visita, em 361 a.C.

Nas Leis, Platão expõe em pormenores a idéia de como os textos legais deveriam ser precedidos por preâmbulos persuasivos, na tentativa de conciliar o império da lei com a primazia da inteligência. O Politicus, escrito por volta de 360 a.C., mostra nitidamente o início dessa fase. Lê-se ali que o império da Lei é a mais justa e a melhor das alternativas. Como, na prática, nunca encontramos o governante ideal, precisamos sempre recorrer a fórmulas escritas.

Platão não abandona seu ideal, mas aceita o que é praticável, e preconiza o Estado legisferante, com seus “Guardiães perfeitos”, em lugar do Estado da justiça pura. Apesar de continuar acreditando que a criação de um Estado deste tipo dependeria da cooperação entre um tirano e um jovem filósofo, defende que, uma vez estabelecido este Estado, sua constituição é uma mistura de Monarquia e Democracia. Não há dúvida que a experiência de Siracusa, a sua experiência com um governante real, destruíram sua crença no valor da soberania de uma lei imparcial e impessoal. A doutrina encontrada nas Leis, foi forjada no caminho da experiência.

Mesmo já muito idoso, quando descreve os homens como “mero joguetes dos deuses”, Platão, ainda assim, tem sua atenção voltada sobretudo para problemas filosóficos. Há nele uma luta permanente entre o impulso filosófico (e o pensamento abstrato) e o sentimento de se viver em contato com a “realidade”, contribuindo com o mundo da ação.

O impulso filosófico foi sempre mais profundo, e só o sentimento do dever o inclinava às questões mundanas. Através dos difíceis anos de sua maturidade, ele continuou a escrever diálogos sobre questões metafísicas (onde a influência socrática parece ausente), e onde os problemas da crítica da razão pura o ocupam mais do que os da razão prática. Porém nunca a fé no “estilo de vida” encontrado, nunca deixando de instruir discípulos para seguir esses ideais, ou de sonhar com a cidade – divina e distante – onde as instituições e o sistema educacional estariam fundados permanentemente na posse comum de todos os homens.

1.3 – Obras

Os escritos de Platão têm, do princípio ao fim, o formato de diálogo, cujo objetivo, o mesmo de Sócrates, é nunca tentar ministrar conhecimentos, mas, pelo contrário, despertar o raciocínio, evitar a simples exposição do produto acabado da reflexão, preferindo mostrar o raciocínio em funcionamento. Como todo professor autêntico, queria que suas lições levassem os alunos a pensar; como escritor, achava que o melhor modo de obrigar os leitores a pensar era faze-los seguir o processo mental do autor. O emprego da analogia é uma das peculiaridades do método de Platão.

OS TRÊS GRANDES DIÁLOGOS:

 REPÚBLICA – Obra da maturidade de Platão, escrita por volta dos 40 anos, mostra o pensamento do filósofo em sua plenitude. Seu tema principal é a conduta humana e esboça uma filosofia do Homem, se ocupando dos problemas da vida política e moral. É também um tratado sobre o pensamento humano e as leis que o regem, visto que o homem é uma unidade e seu comportamento não pode ser compreendido separadamente das suas idéias. Nela, Platão não só inventa um novo sistema de educação, que reforma o Estado e o governo, em nome da justiça, para assegurar o aperfeiçoamento espiritual da coletividade, mas cria uma nova ordem social, que impõe à classe dirigente um sistema comunista, com renúncia à família e à propriedade privada.

 POLITICUS – Escrito provavelmente no último período da vida do filósofo, quando este esteve associado a Dionísio II, em Siracusa, ou logo depois. Nele, Platão distingue o conhecimento da prática, colocando a “ciência política” na esfera do conhecimento, dividindo ainda esse conhecimento em dois ramos: o “crítico” , que avalia o objeto do conhecimento puro; e o “imperativo”, que não só avalia, mas determina a execução dos seus julgamentos. O Estadista pertence a esta última esfera: expressa-se de forma imperativa. Divide-se ainda a forma imperativa em “suprema” e “subordinada” . O Estadista não possui conhecimento de comando, mas sim um conhecimento soberano, determinando “quando” e “com que finalidade” deve-se aplicar seus conhecimentos, sendo, portanto, superior ao orador, ao general e ao juiz;

 LEIS – Obra póstuma, publicada um ano após a morte de Platão, por Filipe de Opus, seu aluno e secretário. Sua redação remete-nos aos últimos dez anos de vida do autor, mostrando, de fato, muitas marcas de sua velhice. Nela, Platão considera os homens simples atores “neste espetáculo sem substância”.
A obra, a primeira vista, mostra-nos um Platão completamente novo, mudado. Mas, ao final, podemos novamente afirmar: “É o mesmo Platão; e o que não teria feito com este material trinta anos antes!”. A mudança principal está indicada no próprio título do diálogo. Até então, Platão acreditava no livre domínio de uma inteligência pessoal, devidamente treinada para o exercício do governo, que seria praticado sob a forma de domínio independente das leis. Mas o fracasso da experiência em Siracusa o levou a procurar novos caminhos, abandonando as linhas propostas na República e estudadas na Academia. Se não se podia educar um monarca filosófico, que governasse sem o auxílio das leis, talvez se pudesse formular leis filosóficas. Seria também uma forma de dar aplicação prática à filosofia, tornando-a legisladora do Estado, ao invés de educadora dos príncipes.

OUTROS DIÁLOGOS IMPORTANTES:

 APOLOGIA;
 CRITO;
 CÁRMIDES;
 LAQUES;
 EUTIDEMO;
 MENO;
 PROTÁGORAS;
 GÓRGIAS

2 - RESENHA CRÍTICA


Platão idealizou uma sociedade perfeita, divina e distante, onde as instituições e o sistema educacional estariam permanentemente fundados na posse comum de todos os homens.

Idealizou também o governante-filósofo, que dominasse pela inteligência e não necessitasse do império da Lei para governar, ideais esses que eram muito mais que sonhos ou visões, vez que as realizações práticas da Academia e de seu mestre não foram poucas. Funcionando como escola de instrução política na formação de estadistas e legisladores, a Academia, através de Platão, enviou discípulos a vários Estados, para organiza-los.

Na impossibilidade de se atingir o estágio do governante-filósofo, idealizado na República, Platão rendeu-se a uma segunda alternativa, a qual previa a adaptação das letras da lei ao espírito da sabedoria e da compreensão, conforme preconizado no diálogo Leis.

Quando ainda envolvido pela morte do mestre Sócrates, Platão preconiza também o encontro da filosofia socrática com a vida real, cujo resultado é uma justificativa parcial das práticas efetivas do governo, mas também, e sobretudo, a sua condenação, e a conseqüente justificativa da teoria de Sócrates. Platão mostra que as lições que Sócrates ensinava em vida eram incompatíveis com a realidade dos Estados, e a sua morte é a prova suprema de que isso não poderia ser posto em prática, uma vez que, se o Estado pode condenar à morte o homem que apenas ensinava a necessidade do conhecimento científico, tem-se por necessária uma drástica reforma do Estado antes de se tentar instalar nele a Filosofia. Não se deve simplesmente pregar a soberania do conhecimento científico. Antecede-se a isso a construção de um Estado ideal, ordenado de modo a que o conhecimento e o saber tenham nele a função que lhe cabe. Na prática, significa construir uma Utopia, uma cidade para abrigar a sabedoria. Sem isto, nos deparamos com os Estados existentes, onde a regra do conhecimento não pode ser aplicada, concluindo-se que Sócrates nos mandava fazer o impossível.

Posteriormente, na República, Platão ainda está preocupado em justificar o ensinamento socrático em confronto com o mundo real. Sócrates tinha pregado a supremacia do conhecimento verdadeiro e elevado. Por que razão havia pessoas que alcançavam êxito na vida sem aquele conhecimento? Este saber pode ser objeto de instrução, e comunicado a outrem?

Discorre sobre a retórica no diálogo Górgias, um verdadeiro tratado sobre a oratória, onde se preocupa com sua utilização como método educativo, e também o seu emprego com técnica de conquistar funções públicas e adquirir influência. Com raízes na constituição de Atenas, nos tribunais de júri popular e na Assembléia, a oratória influenciava politicamente o estado ateniense. Se nos Estados modernos, a arte de falar em público tem grande importância nos órgãos representativos, em Atenas sua importância era ainda maior. O filósofo tem uma opinião severamente negativa da oratória, condenando drasticamente as instituições atenienses sob este ponto de vista. Platão reconhece que o orador é um sério rival do verdadeiro estadista, e se esforça por distinguir um do outro. A “boa política”, como finalidade, seria alcançada ao percebermos que há uma arte definida de orientar a sociedade. Os políticos deixariam de visar vantagens pessoais porque, bem instruídos, saberiam que seu objetivo é trabalhar para o bem comum – finalidade da arte que exercem; e deixarão de “adular seus senhores”, por reconhecer que a arte política é um método para aperfeiçoar a sociedade, e não um processo de bajulação. O charlatanismo deveria ser abolido.

Nas Leis, encontramos a primeira tentativa de se de se preparar um código não como mera tabulação, mas baseado nos princípios fundamentais da conduta social, um verdadeiro estudo científico. Platão se interessa pelo direito processual e estabelece regras a serem seguidas pelos tribunais. É uma contribuição séria à jurisprudência, permeada pelo senso legal, aprofundando-se em pormenores. Discute o direito dos contratos, da sucessão e da propriedade de modo geral, chegando a regulamentar minuciosamente o direito dos transeuntes de colher uvas, pêras e maçãs nos pomares alheios.

Platão, entretanto, não revela “aquela perfeição artificial de raciocínio, dada pelo estudo prolongado das Leis”, que os advogados possuem e valorizam. Sua Lei inclui, sim, a moralidade e a teologia, além das normas legais. Um advogado poderia dizer que muito do que o filósofo propõe não constitui matéria jurídica. Não há distinção clara entre a legalidade e a moralidade; entre as leis e a religião; o código legal contém elementos que pertencem propriamente à filosofia moral ou ao que poderíamos chamar de teologia moral. Esta é uma característica marcante entre os escritores helênicos. Da mesma forma como era possível alegar nos tribunais considerações extralegais, assim também nos escritos sobre o direito encontramos elementos que consideraríamos pouco pertinentes, e Platão demonstra isso mais claramente no tratamento do direito criminal. Enquanto para o advogado e para o juiz, o crime é tratado de maneira objetiva, uma violação às normas e ordenação da vida social, podendo possuir “agravantes” ou “atenuantes”. Para Platão essas idéias são errôneas. O Estado verdadeiro deveria ter uma visão mais elevada do criminoso, tratando não somente do crime, que é mero sintoma, mas da constituição geral da mente do criminoso, procurando curar-lhe o mal. As leis devem ser pais interessados e sábios, e não tiranos. Não devem se limitar a fazer ameaças, exibindo suas normas, mas formar quotidianamente o cidadão na sua obediência. Pode-se alegar que isto é educar, e não administrar as leis. Para Platão, a resposta é simples: administrar as leis “é” educar.

Tanto nas Leis como na República, Platão argumenta vigorosamente para provar que a justiça e a prática do bem, são o mesmo que a felicidade. De onde se deduz que a injustiça e/ou a prática do mal, são a infelicidade. Daí, presume-se que ninguém escolhe voluntariamente a infelicidade, e portanto ninguém escolhe deliberadamente o mal. O crime é, por conseguinte, involuntário. Entende o filósofo o crime como forma de doença que vitima o criminoso, possuindo uma visão reformista da pena. Daí, deduz Platão: se o crime é involuntário, por que fazer leis como se assim não o fosse? E por que manter tribunais?

Como idealista que era, talvez Platão esperasse que os homens se elevassem acima das letras da lei, chegando a um nível de compreensão infalível. É possível que confiasse em que os governantes ideais pudessem fazer o que os governos comuns não conseguiam realizar.

Contudo, quando formula um código criminal, não tenta aplicar os seus próprios princípios. A despeito da tese de que todo crime é involuntário, propõe uma lei de homicídio baseada na concepção comum do crime e na diferença entre o ato intencional e o ato não-intencional. É uma instituição do Estado comum, possível, e não da sociedade ideal. Retorna à concepção de crime de todos os tribunais: aceita que possa haver o delito voluntário. Mas Platão guarda sua fé na natureza reformatória do castigo, apesar de repetir, numa passagem do Livro Nono que “a pena não é uma retribuição, pois o que se fez não pode ser desfeito; ela é imposta tendo em vista não o passado, mas o futuro, para garantir que tanto a pessoa punida como os que souberem da sua punição desistam do comportamento criminoso ou aprendam a detestar o crime”. A reforma do criminoso é uma finalidade mais importante que a sua prevenção, objetivo secundário.

Nas Leis, transparece a sabedoria mística do ocaso da vida. Com a proximidade da morte, o filósofo passa a sentir mais intensamente a pequenez das coisas humanas, a grandeza de Deus e a necessidade suprema da fé. “É Deus que deve constituir a medida de todas as coisas, e não o próprio Homem; devemos confiar em Deus, e não nos sutis argumentos dos homens”. Com este espírito, o filósofo se opõe ao materialista, que quer explicar o mundo falando do poder imanente da matéria e nas leis necessárias do movimento, que ordenam todo o universo material.

Assim, de acordo com Platão, a concepção materialista do mundo, sem as noções de Deus e de mente, tem como resultado uma concepção da política que é também materialista. Para ele, o falso racionalista inverte a ordem deste mundo, começando com a matéria estéril e introduzindo depois o espírito, sob a forma de arte, entendida como um mero produto da matéria. Mas na verdade a mente vem em primeiro lugar, sob a forma da Mente Eterna, que controla a matéria (é a primeira causa do seu movimento), e não resulta dela.

À medida que a MENTE ETERNA de Deus move o universo.

3 – CONSIDERAÇÕES FINAIS


3.1 - Sobre a Obra

A obra (TEORIA POLÍTICA GREGA) nos traz de forma extremamente inteligível uma explanação mais detalhada sobre vida do filósofo (PLATÃO), inserindo-nos no contexto histórico em que viveu, de maneira leve, crítica e objetiva. Daí facilitando-nos enxergar e entender mais sobre sua trajetória de vida, desde a sua origem aristocrática até o encontro com Sócrates, sua indignação com a morte do mestre, a disseminação de sua obra, sua maturidade, experiências práticas e mudança paulatina de postura diante de uma filosofia que não cabia dentro do pensamento médio da época em que viveu, obrigando-o a adaptá-la ao limite do possível, porém sem se desvincular do pensamento filosófico puro que o acompanhou até a morte.

Trata-se (a obra) de um verdadeiro estudo sobre a influência grega na formação do pensamento e da cultura política ocidental, levando-nos ao entendimento da origem do que hoje contém as atuais constituições e leis das chamadas “democracias” ocidentais,

3.2 - Contribuições e Possíveis Aplicações na Área de Administração


Sobre possíveis contribuições para o campo da Administração, podemos ver que a idealização de uma sociedade mais justa e igualitária, baseada no conhecimento, remete-nos a vislumbrar um processo de gerenciamento que deverá levar em consideração também o conhecimento científico, mas no caso específico da Administração, não somente isso, como se mostrou correto também quando do confronto do pensamento filosófico de Platão com as possibilidades reais do seu tempo.

Devemos nos preparar para, dentro de um criterioso planejamento inicial, estarmos cientes que a experiência vivida nos ensinará, e muito, no contexto de uma profissão (ou função) de Administrador que requer altíssima dose de sensibilidade e visão sistêmica, na busca de resultados os mais próximos possíveis do Planejamento Estratégico, cuidando para que este não esteja “engessado” demais que não possa admitir correções de percursos e adaptações necessárias ao atingimento de objetivos.

No tocante ao amadurecimento do pensamento platônico, e suas conseqüentes adaptações quando do convívio com a vida real, extraímos valiosos ensinamentos para nossa futura profissão: “na prática, a teoria é outra”, é um velho ditado que não devemos desprezar. A adaptabilidade é um conceito permanente em Administração. Quem não enxergar isso, não conseguirá administrar nada. Nem mesmo a sua própria vida pessoal.

Da mesma maneira, o seu forte posicionamento no tocante ao ensino e disseminação da ÉTICA, enquanto pilar de uma sociedade, que deve se fazer maior no que diz respeito ao conhecimento técnico e científico, é, sem sombra de dúvidas, o pilar do pensamento filosófico de PLATÃO. E isso é (ou deverá ser, ou deveria ser) o pilar de sustentação do pensamento administrativo, em todos os níveis (privados, públicos, pessoais) de agora em diante. Somente com uma forte concepção de ÉTICA, e também a sua prática, o administrador de hoje poderá galgar patamares de excelência em sua carreira.

Analogicamente, outra relação pode ser feita entre o método utilizado por Platão (copiado do seu mestre Sócrates) no trato com seus alunos e discípulos, qual seja o de nunca ministrar conhecimentos, mas, pelo contrário, fazer fluir de dentro das pessoas o crescimento, o despertar do raciocínio em funcionamento, e os métodos de gerenciamento de capital humano dentro das empresas. Um gestor que se preze, deve buscar o auto-desenvolvimento das equipes que lhe forem confiadas, e não poderá ter medo de se tornar, em determinado momento, dispensável, pois sua função possui um pouco de caráter suicida, no sentido de que, na sua essência, a sua finalidade é tornar-se dispensável, e não, como muitos imaginam, ser figura indispensável para possuir sempre um mercado cativo dentro das organizações.

Sobre o dom da retórica, no diálogo Górgias, Platão deixa clara a sua preocupação com a utilização incorreta, ou pelo menos indevida, da mesma, na conquista de funções públicas e influências pessoais. Diz ele que o orador é um sério rival do verdadeiro estadista, numa referência à política, que muito bem podemos transplantar para a atividade empresarial: devemos falar menos e agir mais, utilizando-nos da oratória (com a qual também devemos nos preocupar), para os momentos estritamente necessários e apropriados. Devemos separar os “encantadores de serpentes” dos verdadeiros administradores, buscando abolir a prática do charlatanismo existente no mercado.

Por fim, é-nos passado que, apesar dos contextos aos quais foi submetido, e apesar de profundas transformações acontecidas ao longo do seu amadurecimento, Platão, mesmo assim, continuou o mesmo, firme em seus pensamentos acerca do seu pensamento filosófico, tendo tão somente que fazer adaptações visando atingir o que era possível de se colocar em prática, discernindo entre filosofia e mundo real, mostrando que, no decorrer da nossa existência, nunca devemos trair a nossa consciência nem abdicar dos nossos ideais, platônicos, mas possíveis....

Pelo menos no mundo das idéias...

Crê-se.







Bibliografia:

BARKER, Sir Ernest TEORIA POLÍTICA GREGA Vol. 2
Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1978
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