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Sociedade do conhecimento: ferramentas e tarefas

Os conhecimentos eram sempre vistos como estrelas fixas, cada uma ocupando sua própria posição no universo do conhecimento. Na sociedade do conhecimento eles são ferramentas, e como tais sua importância e posição dependem da tarefa a ser executada

Em geral, os trabalhadores do conhecimento passarão a maior parte de suas vidas profisionais como funcionários. Mas o significado do ermo será diferente do tradicional, não só em inglês, mas sim em qualquer idioma.


Individualmente, os trabalhadores do conhecimento dependem do emprego. Eles recebem um salário, foram contratados e podem ser demitidos. Legalmente, cada um é um. Em conjunto, porém, eles são os capitalistas; cada vez mais, através de seus fundos de pensão e outras poupanças, eles possuem os meios de produção. Na economia tradicional, e não somente na marxista, há uma clara distinção entre o fundo salarial, que vai todo para consumo, e o fundo de capital, ou a parte da renda total que está disponível para investimento. A maior parte da teoria social da sociedade industrial está baseada, de uma forma ou de outra, na relação entre as duas, seja de conflito ou da cooperação e do equilíbrio necessários. Na sociedade do conhecimento, as duas partes fundem-se. O fundo de pensão é salário adiado e como tal é um fundo salarial. Mas ele também é, cada vez mais, a principal fonte de capital para a sociedade do conhecimento.


O fator talvez mais importante é que na sociedade do conhecimento, os funcionários, isto é, os trabalhadores do conhecimento – possuem as ferramentas de produção. A grande ideia de Marx foi que o operário não possui, e nem poderá possuir, as ferramentas de produção; portanto, é alienado. Não havia maneira, dizia ele, para o trabalhador possuri o motor a vapor e levá-lo consigo de um emprego para outro. O capitalista tinha de possuir o motor e controlá-lo. Na sociedade do conhecimento, o verdadeiro investimento se dá cada vez menos em máquinas e ferramentas e mais no conhecimento do trabalhador. Sem este conhecimento, as máquinas são improdutivas, por mais avançadas e sofisticadas que sejam.


O pesquisador de mercado precisa de um computador. Mas cada vez mais este é seu computador pessoal, que o acompanha onde quer que ele vá. O verdadeiro equipamento de capital de pesquisa de mrecado é o conhecimento do mercado, de estatística e da aplicação da pesquisa à estratégia da empresa, que está alojado entre as orelhas do pesquisador e é sua propriedade exclusiva e inalienável. O cirurgião necessita da sala de operações do hospital e de todo o seu dispendioso equipamento de capital. Todavia, o seu verdadeiro investimento de capital são doze a quinze anos de treinamento e o conhecimento resultante, o qual o cirurgião leva de um hospital para o outro. Sem esse conhecimento, as dispendiosas salas de operações de nada servem.
Isto é verdade, quer o trabalhador possua conhecimento avançado como um cirurgião, ou simples e relativamente elementar, como um contador júnior. Em qualquer dos casos, é o investimento em conhecimento que determina se o funcionário é ou não produtivo, mais que as ferramentas, máquinas e o capital fornecido pela organização. O trabalhador industrial precisava muito mais do capitalista do que este do trabalhador – a base para a afirmativa de marx de que sempre haveria um excesso de trabalhadores industriais, um exército industrial de reserva, o qual garantiria que os salários não poderiam sbir acima do nível de subsistência (provavelmente o seu mais clamoroso erro, na visão de Peter F. Drucker). Na sociedade do conhecimento, a hipótese mais provável para as organizações – e certamente aquela sobre a qual elas precisam conduzir seus negócios – é que elas precisam muito mais dos trabalhadores do conhecimeno do que este delas.


Na Idade Média houve debates infindáveis a respeito da hierarquia dos conhecimentos, com a filosofia afirmando ser a rainha. Desistiu-se há muito dessa discussão infrutífera. Não há conhecimento superior ou inferior. Quando a queixa do paciente é uma unha encravada, vale o conhecimento do pedicuro, não o do neurocirurgião, embora este tenha recebido muito mais anos de treinamento e cobre muito mais caro. Se um executivo for nomeado para um país estrangeiro, o conhecimento de que ele necessita – e depressa – é fluência do idioma, algo que todo nativo daquele paíse dominou aos três anos, sem muito investimento. Na sociedade do conhecimento, a importãncia deste provém da situação, porque só é aplicado em ação. Em outras palavras, aquilo que é conhecimento em determinada situação, como a fluência em coreano para o executivo americano colocado em Seul, passa a ser apenas informação sem muita relevância quando ele, alguns anos depois, precisa determinar a estratégia de mercado da sua empresa para a Coreia. Isto também é novo. Os conhecimentos eram sempre vistos como estrelas fixas, cada uma ocupando sua própria posição no universo do conhecimento. Na sociedade do conhecimento eles são ferramentas, e como tais sua importância e posição dependem da tarefa a ser executada. Outras informações sobre o tema podem ser obtidas no livro Administrando em tempos de grandes mundanças de autoria de Peter F. Drucker.

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