Uma lição de liderança de Eisenhower na virada histórica do Dia D

O obstáculo é uma vantagem, não uma adversidade

Domínio Público

Em 6 de junho de 1944, Dwight D. Eisenhower conduziu a mais colossal e impressionante invasão da história militar. Um total de 156 mil tropas aliadas invadiram as praias da Normandia e, no dia 11 de junho, mais de 326 mil tropas cruzaram 100 mil toneladas de equipamentos militares. Um desses homens foi o meu avô.

Os críticos de Eisenhower frequentemente apontam que ele foi mais um organizador do que um líder. Mas foi alguns dias antes do Dia D que Eisenhower ilustrou um dos mais claros e profundos momentos de liderança -- um exemplo que qualquer empreendedor pode seguir.

Após o duro sucesso inicial, as tropas aliadas ficaram atoladas nas sebes francesas. Esses obstáculos -- metade terra, metade cercas vivas, às vezes com 15 pés de altura -- além da realidade de ter de coordenar tantos homens e materiais forçaram uma interrupção, permitindo aos alemães conduzissem uma série de contraofensivas -- uma última blitzkrieg com 200 mil homens.

A blitzkrieg alemã foi um dos desenvolvimentos mais chocantes e intimidadores da tradição de guerra moderna. No início da Segunda Guerra Mundial, colunas de tanques panzer invadiram a Polônia, Holanda, Bélgica e França com resultados devastadores e fraca oposição. Na maioria dos casos, os comandantes confrontados pelos alemães simplesmente se renderam ao invés de encarar um monstro visto como invencível e infatigável.

A estratégia da blitzkrieg foi feita para explorar o vacilo. As forças aliadas entrariam em colapso ao testemunhar o que parecia uma força devastadora. Seu sucesso dependia completamente desse tipo de resposta. A estratégia militar funcionou porque as tropas estabelecidas viram a força ofensiva como um obstáculo enorme.

Essa foi a reação das forças aliadas à blitzkrieg durante a maior parte da guerra. Tudo o que eles podiam ver era o poder do inimigo e lamentar suas vulnerabilidades. Como eles poderiam pará-la? E quando aquela última blitzkrieg veio, ela iria atirá-los de volta àquela praia que eles conquistaram a um custo tão alto?

Eisenhower respondeu a essas questões de forma inequívoca. Enquanto viajava para uma assembléia improvisada em Malta, o general norte-americano fez um anúncio: ele não iria aceitar mais essa timidez vacilante. "A situação presente deve ser tomada como oportunidade, e não como desastre", ele disse. "Na mesa de conferência haverá apenas rostos alegres".

Eisenhower foi capaz de enxergar uma solução tática que estava lá o tempo inteiro: a estratégia nazista era sua própria destruição.

Finalmente, os aliados puderam ver a oportunidade dentro do obstáculo, ao invés de ver apenas um obstáculo que os ameaçava. Os aliados poderiam ser flexíveis e inquebráveis, enquanto os alemães poderiam cair de cara em uma armadilha -- ou um "moedor de carne", conforme dito eloquentemente pelo general George Patton.

A Batalha de Bulge e a anterior Batalha da Bolsa de Falaise -- onde os aliados temiam reveses maiores e a perda do impulso inicial -- armaram o palco para triunfos colossais. Ao permitir a passagem da vanguarda do exército alemão e então atacá-los pelos lados, os aliados cercaram o inimigo copletamente. A invencível e impenetrável formação de panzers dos alemães se tornou não apenas impotente, como também suicida -- um exemplo clássico de por que os flancos nunca devem ser deixados à exposição.

A importante decisão de Eisenhower é um momento em que penso com frequência. Meu avô, que desembarcou na Normandia dois dias após o Dia D, viveu esses reveses iniciais para lutar mais tarde na Batalha de Bulge, pela qual foi condecorado pela Croix de Guerre francesa. A decisão de Eisenhower me lembra do papel que as percepções desempenham no sucesso ou falha diante dos obstáculos.

Em primeiro lugar, é importante não ser vencido pelos obstáculos -- ou seja, não se permitir desencorajar ou perder o controle. Poucas pessoas são capazes de fazer isso. Mas quando as emoções são controladas, enxergar objetivamente a situação e permanecer firme tornam os próximos passos possíveis: uma virada mental, não olhar para o obstáculo, mas para a oportunidade dentro dele.

Como afirmou Laura Ingalls Wilder, "em tudo há coisas boas, basta procurar".

Mesmo assim, muitas pessoas fecharam os olhos para a dádiva. Imagine-se na pelo de Eisenhower, com um exército inimigo se aproximando e apenas a derrota iminente era previsível. Por quanto tempo a guerra continuaria? Quantas vidas ainda seriam perdidas?

Ou imagine-se como Thomas Edison quando toda a sua pesquisa e estrutura de produção foram consumidas por um terrível incêndio. Em vez de se sentir abatido, Edison calma e rapidamente foi ao local. "Chame sua mãe e seus amigos", ele disse a seu filho. "Eles nunca verão uma fogueira como essa novamente".

Deixe que essas histórias coloquem em perspectiva o próximo bug do computador, erro de funcionários, telefonema rude ou propósito perdido no trabalho.

O difícil das coisas difíceis é que as pessoas sempre pioram tudo quando veem o desastre, e não a oportunidade. O perigo está em acreditar que as coisas precisam ser ou acontecer de um certo modo. Pessoas de negócios creem que estão em desvantagem ou que seria uma perda de tempo tomar um caminho alternativo. Na verdade, tudo é válido e cada situação é uma oportunidade para agir.

Bênçãos e fardos não são mutuamente excludentes. É bem mais complicado do que parece.

Tente lembrar, em momentos como esse, que um segundo ato se segue aos infortúnios.

Psicólogos do esporte recentemente conduziram um estudo junto a atletas em momentos de adversidade ou com lesões sérias. Inicialmente, cada um relatou uma sensação de isolamento, quebra emocional e dúvidas sobre suas habilidades atléticas. Em seguida, eles relataram ter vontade de ajudar os outros, maior perspectiva e realização de suas competências. Os medos e dúvidas encontrados durante a adversidade fizeram com que eles percebessem que eram dotados de maiores habilidades.

É uma belíssima ideia. Psicólogos chamam isso de crescimento adversarial e pós-traumático. "O que não me mata me torna mais forte" não é um clichê, mas um fato.

A luta contra um obstáculo inevitavelmente impulsiona o lutador a um novo nível de funcionamento. A amplitude do confronto determina a amplitude do crescimento. O obstáculo é uma vantagem, não uma adversidade.

Isso é o que pode ser aprendido de Eisenhower sobre qualquer situação enfrentada agora. Seja a pessoa que irá entrar na sala de conferências e deixar claro: essa situação será uma oportunidade, e não um desastre. Seja o primeiro rosto alegre na mesa de conferências.


O artigo foi publicado no blog do autor e cedido gentilmente ao Administradores.com

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