Visão sistêmica: o que é e como desenvolvê-la

A visão sistêmica parece ser uma habilidade muito desejada nas organizações e também na vida pessoal. Mas será que sabemos mesmo o que é isso? E se sabemos o que é mas não a temos, como fazemos para desenvolvê-la?

Visão sistêmica. Você já deve ter ouvido alguém falar que tem, não tem ou precisa ter.

Parece ser uma habilidade muito desejada nas organizações e também na vida pessoal. Mas será que sabemos mesmo o que é isso? E se sabemos o que é mas não a temos, como fazemos para desenvolvê-la?

Vamos entender rapidamente o que é um sistema. Segundo o criador da Teoria Geral dos Sistemas, o biólogo Bertalanffy, “um sistema é uma entidade cuja existência se deve às mútuas interações entre seus componentes.”

Já temos aqui uma pista de que um sistema é formado por componentes e que a interação entre eles é algo extremamente importante. A interação entre estes componentes é, quase sempre, até mais importante que a qualidade (ou a competência) de cada componente.

Ter visão sistêmica é ser capaz de entender os fatos da vida e comportamentos das pessoas observando os componentes que os geram, as causas, as relações entre tudo isso, e as consequências de cada movimento destes componentes. Quando não a temos, apenas observamos fatos e pessoas e os julgamos. Quase sempre rápido demais.

Com o tempo, nos tornamos mais experientes, e julgamos mais rapidamente, com aquele tom professoral, como se estivéssemos falando A Verdade Suprema. Nem sempre lembramos que há várias razões para cada fato. E que o que consideramos um fato já pode ser uma consequência de algo que foi (ou não) realizado anteriormente.

E quais fatores dificultam a nossa visão sistêmica? Um deles é que nossa mente tem necessidade de dar sentido às coisas rapidamente, e busca sempre a analogia mais próxima disponível em nossa memória.

Na Companhia de Idiomas, empresa da qual sou sócia e diretora, usamos frequentemente a história do “garçom que cai”:

O fato:
O garçom caiu no meio do restaurante, com a bandeja cheia de copos na mão.

A causa:
O médico diz que o garçom teve algum mal estar.
O sindicalista diz que o garçom já estava trabalhando havia doze horas e isso não é correto.
O técnico em segurança do trabalho acha que a bandeja estava pesada demais.
O psicólogo diz que o garçom estava passando por uma fase bastante difícil.
O fofoqueiro vai dizer que este garçom é sempre distraído mesmo.

E por aí vai.

Qual a verdade? Qual a causa? A visão sistêmica faz com que analisemos mais cuidadosamente os fatos, para não considerarmos a “verdade” mais próxima da nossa realidade como a única existente.

Nossa mente faz isso todo o tempo, qual a razão?

Recebemos um número enorme de informações a cada minuto. Fazemos um grande esforço cognitivo para armazenar algumas dessas informações e usá-las apenas quando necessitamos. Para diminuir este esforço, nossa mente coloca estas informações em caixinhas, ou modelos mais simples, chamados de modelos mentais. Você já deve ter ouvido falar deles. O modelo mental funciona como um filtro pelo qual vemos determinada pessoa, cena ou informação. E este filtro influencia a construção de modelos futuros, sobre outras pessoas, cenas ou informações. Se não disse Bom Dia, só pode ser... Se é rico, só pode ser... Se não fez o relatório, só pode ser... Se perdemos o cliente, é claro que vai acontecer.... Todo dia, tiramos conclusões precipitadas por não ampliarmos nosso poder de análise, com a visão sistêmica.

Modelos são sempre representações incompletas de alguma coisa e, pior, tornam-se invisíveis aos seus donos. Nós sempre achamos que estamos sendo fiéis aos fatos, estamos sendo lógicos ou estamos usando a “nossa experiência”. Não percebemos que estamos apenas seguindo nossos modelos mentais, que limitam nossa visão e até nos cegam.

Parece que temos certezas demais. Mas há outras razões para fazermos isso.

Uma das razões é que colocamos energia demais em determinadas tarefas, pessoas e fatos – e realmente não vemos tudo o que está à nossa volta. Você já viu aquele vídeo no Youtube em que uma pessoa pede informação na rua a alguém, sobre como chegar a algum lugar, e a pessoa que responde está tão concentrada em ver o mapa para ajudar que… não percebe que a pessoa que perguntou simplesmente foi trocada?!

Eu me reconheço neste vídeo, quando estou cheia de afazeres pessoais e profissionais, muitos que eu amo. O que será que não estou vendo e que é super importante? Não percebo que há porções enormes de mundo que eu torno invisíveis, porque estou prestando atenção demais a coisas (pessoas, fatos) que podem nem ser tão importantes assim.

Parece que focamos demais e, por isso, nos cegamos.

Talvez um bom treino de visão sistêmica seja ter menos certezas, olharmos mais à volta, compreendermos mais as diversas razões para as pessoas serem como são, para os fatos serem como são. Entender que fatos podem já ser a consequência de algo que fizemos (intencionalmente ou não), algo não fizemos, que não vimos. Talvez seja saudável ter um leve distanciamento emocional, pois quando estamos imersos em afazeres e emoções não enxergamos quase nada.

Rosangela Souza (ou Rose Souza) é fundadora e sócia-diretora da Companhia de Idiomas (http://www.companhiadeidiomas.com.br). Graduada em Letras/Tradução/Interpretação pela Unibero, Especialista em Gestão Empresarial, MBA pela FGV e PÓSMBA pela FIA/FEA/USP, além de cursos livres de Business English nos EUA. Quando morava em São Paulo, foi professora na Pós Graduação ADM da FGV. Desenvolveu projetos acadêmicos sobre segmento de idiomas, planejamento estratégico e indicadores de desempenho para MPMEs. Colunista dos portais Catho, RH.com, MundoRH, AboutMe e Exame.com. Desde 2016, escolheu administrar a Companhia de Idiomas à distância e morar em Canela/RS, aquela cidadezinha ao lado de Gramado =) . Quer falar com ela? rose@companhiadeidiomas.com.br ou pelo Skype: rose.f.souza

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Tags: carreira crescimento liderança visão sistêmica

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