Construção social e produção de sentido

Karl Weick (1973) resgata o importante conceito de ‘estrutura coletiva’, desenvolvido por Allport, o que nos fornece uma especial visão acerca da formação dos grupos. Allport introduz um singular conceito que quebra a noção adotada pelo senso comum acerca da formação dos grupos. Segundo o autor, um grupo se forma a partir do encontro de duas pessoas com uma terceira, onde pode ocorrer uma “convergência preliminar de interesses”, na qual cada um prevê que o outro pode beneficiá-lo de alguma forma, e desenvolvem uma noção semelhante quanto à forma pela qual isso pode acontecer. Após a convergência de idéias sobre a formação de uma estrutura, estabelece-se um ciclo contínuo de comportamentos interligadas, a qual Allport designou como estrutura coletiva. A noção compartilhada pelo senso comum indica uma seqüência inversa: primeiramente, o grupo se forma; posteriormente, estabelece-se uma convergência quanto às regras para mantê-lo.

A emergência de uma estrutura coletiva é importante para o a produção de ordem e regularidade. Mais ainda: a formação de uma estrutura coletiva possibilita a aproximação entre as pessoas e a descoberta e execução de comportamentos que podem ser interligados se houverem vantagens mútuas. A vantagem da abordagem de Allport apontada por Weick é que a sua apresentação é explícita quanto a maneira de ligação entre os níveis de análises (indivíduo, grupo, organização, sociedade...): os níveis são limitados de acordo com a sua hierarquia e são diferentes entre si. E, nesse caso, Weick enfatiza que são os comportamentos que são interestruturados, e não as pessoas. Qualquer pessoa pode participar de vários grupos e não coloca todos os seus comportamentos apenas em um. Na tentativa de fazer predições acerca de produtividade de um funcionário em uma determinada organização, por exemplo, é preciso, antes de tudo, conhecer as estruturas em que os outros comportamentos desse funcionário estão imersos, bem como conhecer a importância de tais estruturas e as formas pelas quais elas se inter-relacionam. Weick estabelece que o aspecto fundamental da estrutura coletiva é que é uma propriedade básica de grupos, e dela derivam outras propriedades. Os grupos são únicos e carecem de um sentido.

Podemos dizer que as organizações, para além de sua estrutura institucional, não podem viver sem uma “produção de sentido”. Os indivíduos, os grupos, sempre se fazem perguntas do tipo: “o que eu ganho ou perco com isso?”, “qual a razão dessa tarefa?”, “eu nasci realmente para isso?”, “isso me traz satisfação?”... Sentido é o que as organizações elaboram como experiência a partir desses sinais do presente e nos ambientes sempre porosos em que estão inseridas. “Criar sentido diz respeito às formas como as pessoas geram o que elas interpretam” (Weick, 1995, p. 13). Mas criar sentido e interpretar sentido são duas atividades distintas, ainda que interligadas, pois para criar é necessário, primeiramente, interpretar outros sentidos instituídos ou de sinais ainda latentes.

Weick (1995, p. 17) estabelece que a produção de sentido (sensemaking) é entendida como um processo com as seguintes características:

a) criar sentido é construir uma identidade;
b) essa construção é sempre retrospectiva;
c) realizada num contexto social;
d) através da ação e do discurso performativos, isto é, capazes de criar ambientes sensíveis ("enactement");
e) a criação de sentido reporta-se a eventos em curso ("ongoing");
f) de onde se extraem sinais ("extracted cues"); e
g) guia-se pela plausibilidade e não pela verdade

Devemos considerar, portanto, que a construção de sentido passa por um esquema interpretativo da realidade. É nesse sentido que todos os textos indicados no presente artigo se tocam. Ou seja: quem lê constrói o sentido a partir de suas próprias referências e da maneira como as interpreta.




REFERÊNCIAS

BERGER, Peter L.; LUCKMANN, Thomas. A construção social da realidade. 17ª ed. Petrópolis: Vozes, 1999. p.11-68
CZARNIAWSKA, Barbara. Social constructionism and organization studies. In: WESTWOOD, Robert; CLEGG, Stewart. Debating organization: point-counterpoint in organization studies. Oxford: Blackwell, 2003. p.128-139
FLYVJERG, Bent. Making organization research matter: power, values, and phronesis. In: CZARNIAWSKA, Barbara; SEVÓN, Guje (Ed.s) The northern lights: organization theory in Scandinavia. Stockholm: Liber, 2003. p.357-381
GADAMER, Hans-Georg. Verdade e método: traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. Petrópolis: Vozes, 1997
HATCH, Mary Jo. Exploring the empty spaces of organizing: how improvisational jazz helps redescribe organizational structure. Organization Studies, v.20, n.1, p.75-100, 1999.
YANOW, Dvora. Studying museum buildings as organizational spaces while reflecting on interpretative methods and their narration. Journal of Management Inquiry, v.7, n.3, p.215-239, 1998.
WEICK, Karl E. A psicologia social das organizações. São Paulo: Editora Edgard Blucher Ltda, 1973. p.43-80
WEICK, Peter L. Sensemaking in organizations. London: Sage, 1995. p. 1- 82





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Sobre o autor

Leandro Vieira

Leandro Vieira é Mestre em Administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Certificado em Empreendedorismo pela Harvard Business School. Tem MBA em Marketing, pelo Instituto Português de Administração e Marketing (IPAM) . Administrador de Empresas pela UFPB e bacharel em Direito pelo UNIPÊ. Foi professor da Escola de Administração da UFRGS. Criador e Editor do Portal www.Administradores.com.br.



Escreve também o Blog Administre-se para a Revista VOCÊ S/A.



 

Membro do Conselho Editorial da Revista Portuguesa e Brasileira de Gestão, editada pela Fundação Getúlio Vargas (Brasil) e pelo INDEG/ISCTE (Portugal), e da Revista Economia Global e Gestão, do ISCTE (Portugal).



Áreas de interesse: Marketing, Empreendedorismo, Estratégia em Organizações, Gestão de Negócios, Comunidades Virtuais, Ensino a Distância, Criatividade, Liderança, Inovação e aplicação de idéias no âmbito da nova economia.



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