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A era da pós-verdade

A internet é a grande difusora de informações e mentiras. Não foi à toa que a palavra pós-verdade foi considerada a palavra do ano na Universidade de Oxford. Editado pela universidade britânica, anualmente a Oxford Dictionaries, departamento da universidade de Oxford, responsável pela elaboração de dicionários, elege uma palavra de maior destaque da língua inglesa. A de 2016 é “pós-verdade” (“post-truth”).

A ERA DA PÓS-VERDADE
A internet é a grande difusora de informações e mentiras. Não foi à toa que a palavra pós-verdade foi considerada a palavra do ano na Universidade de Oxford.
Editado pela universidade britânica, anualmente a Oxford Dictionaries, departamento da universidade de Oxford, responsável pela elaboração de dicionários, elege uma palavra de maior destaque da língua inglesa. A de 2016 é “pós-verdade” (“post-truth”).
Pós-verdade pode ser conceituada como afirmações, sentenças, ideologias sem qualquer lógica ou até mesmo conexão com a realidade. Os fatos objetivos têm menor influência que os aspectos emocionais e às crenças pessoais. As pessoas adotam essa ideologia e as repetem como um mantra sem prestarem atenção nos argumentos contrários por mais válidos, lógicos e fundamentados que sejam, simplesmente ignoram.
Também não se preocupam em checar as fontes, repassando quase que instantaneamente e difundindo uma mentira que pode prejudicar uma pessoa ou uma empresa, tanto faz.
Algumas características da pós-verdade são:
Traz alguma esperança, oferece consolo, resolve problemas complexos com soluções simplistas, juntando-se a isso:
a) uma população que cada vez mais se informa por meio de redes sociais sem contato com as fontes originais;
b) a acirrada polarização política;
c) a rapidez da propagação; e
d) o interesse ideológico e, sobretudo, econômico em maximizar a distribuição e pronto, estão fornecidas as condições para engrossar o caldo da desinformação.
É bom lembrar o conceito de Desinformação, que é uma ação ativa, com a finalidade de confundir, de enganar. Foi criada para este fim. Pode ser utilizada para aproveitar o estereótipo já existente, especificamente na cultura de um povo com a finalidade de influenciar a opinião das pessoas.
Joseph Goebbels foi ministro da propaganda nazista e é atribuída a ele a frase “Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”.
Romeu Tuma Junior, ex-secretário nacional de Justiça, publicou em seu livro – Assassinato de Reputações, alguns métodos utilizados no Brasil para manchar o nome de empresários ou adversários políticos que se opõem ao governo.
O livro, entre outras denúncias, conta a história de uma maleta francesa, capaz de interceptar ligações telefônicas e os casos de “vazamentos” de informações de maneira proposital de escutas arranjadas. Assim como os vazamentos de informações são realizados com propósitos específicos.
O Google e o Facebook estão trabalhando já há algum tempo para identificar e bloquear sites com notícias falsas, mas ainda não apresentou os resultados esperados.
Em entrevista ao Jornal Diário Catarinense de 08/04/2017, o professor de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e pesquisador de mídia Rogério Christofoletti disse que: “Não é à toa, Facebook e outras partes interessadas criaram um fundo de US$ 14 milhões para ajudar as pessoas a distinguir informações falsas. O sistema corre perigo, referindo-se ao programa que se propõe a melhorar a confiança no jornalismo”.
Boatos mentirosos já foram utilizados inúmeras vezes na história mundial. No jornal Folha de São Paulo, de 29/04/2017 foi publicado a tradução de um artigo do jornal inglês, Financial Times, no qual cita um memorando interno infame da empresa de cigarros Brown & Williamson, redigido no verão de 1969, apresenta o pensamento do setor muito claramente: "A dúvida é nosso produto". Por que? Porque semear a dúvida "é a melhor maneira de competir com o 'conjunto de fatos' existente na cabeça do grande público. É também o jeito de se criar uma controvérsia." O mantra do "Big Tobacco" (a indústria de cigarros): alimentar a controvérsia.
Esse memorando mostra de forma bastante esclarecedora como se comportam determinados segmentos e hoje observamos estes fatos no meio político nacional, com diversas frases ou ações atribuídas a políticos que são difundidas de maneira inconsequente trazendo prejuízos às suas vítimas. O pior é que se não fizermos uma checagem, nós também estaríamos sendo enganados por notícias absolutamente falsas, independente da sua ideologia e, por vezes, difundindo-as.
Deputados estão analisando um projeto de lei que pretende tornar crime o compartilhamento ou divulgação de informações falsas ou “prejudicialmente incompletas”. A proposta é do deputado Luiz Carlos Hauly (PSDB-PR) que apresentou o projeto de lei 6.812/2017, no qual prevê detenção de 2 a 8 meses e pagamento de multa para quem “divulgar ou compartilhar, por qualquer meio, na rede mundial de computadores, informação falsa ou prejudicialmente incompleta em detrimento de pessoa física ou jurídica”, pois, de acordo com o PL, será considerado crime.
Na grande mídia já fazem as checagens antes da publicação, mas sabemos que também usam a desinformação para casos de seus interesses.
Alguns sites, como o www.aosfatos.org e o ww.e-farsas.com trabalham para desmascarar as mais absurdas mentiras ou comprovar a veracidade de diversas notícias que rodam pelas mídias sociais.
É certo que ainda estamos longe da responsabilização por notícias falsas, se é que isso ainda poderá existir, pois muitas dessas notícias dependem das crenças e ideologias pessoais.
A responsabilidade é de todos nós que no dia-a-dia compartilhamos notícias sem os mínimos cuidados, pois as notícias são falsas, mas o efeito é real.
Cláudio dos Santos Moretti – CES, ASE – é diretor de cursos e certificação da ABSEG e professor da Brasiliano & Associados. claudio_moretti@uol.com.br

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Tags: internet mentiras mentiras na internet pós-verdade

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