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A verdadeira Luta de Classes brasileira

O dia em que eu concordei com Marx

John Jabez Edwin Mayall/ International Institute of Social History

Karl Marx via o mundo como uma inevitável Luta de Classes: de um lado, trabalhadores. Do outro, os proprietários dos meios de produção que cobravam para que os trabalhadores fizessem o seu trabalho.

Vou explicar melhor: uma boa parte do trabalho de Marx é baseada no trabalho do economista David Ricardo. Esse economista dizia que a terra dava um ganho muito alto a seus proprietários: trabalhadores que não possuíssem suas terras eram forçados a trabalhar ou alugar terras para o plantio. Por outro lado, os proprietários de terra podiam simplesmente relaxar e receber os aluguéis que vinham de suas terras. A palavra “Rentista”, que muitos políticos adoram até hoje, veio do chamado Aluguel Ricardiano, aquele que teoricamente não tem muito valor pois apenas transferia dinheiro de quem não tinha para quem tinha. Marx não morria de amores pelos tais “rentistas”, e reservou umas boas ofensas aos novos rentistas, que eram os donos das fábricas e capital de sua época. Marx via a revolução industrial como injusta pois o trabalhador era “refém” dos donos das fábricas da mesma forma que os trabalhadores do campo eram “reféns" dos donos de terras.

No Brasil, os políticos (e professores que moram com os pais) adoram falar na “Guerra de Classes” dos mais ricos e dos mais pobres. Nossas leis são sobrecarregadas em defender os “mais fracos”. Na verdade, somos sim um dos países mais desiguais do mundo. Basta olhar para o chamado índice de Gini. Sim, somos desiguais. No que eu discordo com os políticos populistas e seu professor de ciências sociais é em quem é desigual a quem.

Segundo os últimos dados do IBGE, se você trabalhava em uma empresa do setor privado em 2015, ganhava em média R$2.168,45 de salário. Trabalhando para o Estado, seus ganhos no fim do mês pulavam para R$3.592,33.

Veja que estamos falando de ganhos médios, e todo mundo já ouviu aquela piada do cara que estava com a cabeça no forno e os pés no congelador, mas com temperatura corporal na média muito boa. Ainda assim, é de se perguntar: um trabalhador, com carteira assinada em empresa, poderia ganhar 65% a mais simplesmente indo trabalhar para o Governo, mas será o governo tão mais eficiente assim? Basta ir renovar a carteira de motorista e ver aquelas almas simpáticas nos atendendo para concluir que não.

Temos um problema. E ele é terrível: o Brasil tem um enorme programa de transferência de renda. Pegamos o dinheiro de quem trabalha em empresas, que está sempre sob o risco de uma demissão, ou de se aposentar sem nada, e transferimos para quem trabalha no governo. Boa parte dessas pessoas contam com estabilidade e aposentadoria garantidas, coisas cada vez mais raras, não só no Brasil, mas no mundo.

Veja, querido leitor ou leitora: não estou dizendo que o trabalho público não é importante. Estou dizendo que essa diferença toda não faz o mínimo sentido. Impostos são obrigatórios, e as empresas e quem trabalha nelas é quem banca o setor Público. Termos tanta gente ganhando tão bem com o dinheiro vindo desses impostos é tão injusto quanto um membro da nobreza que herdava suas terras e tinha a vida garantida com o trabalho dos outros.

Ricardo dizia que o trabalhador do campo não tinha opção senão ficar nas mãos dos donos de terras. Marx dizia que os trabalhadores ficavam nas mãos dos donos das indústrias. Eu digo que o trabalhador brasileiro fica na mão da verdadeira elite brasileira: um setor público que ganha muito e entrega pouco.

Quem diria. Vivi para ver o dia em que eu concordei com Marx.

* Com mil perdões aos estudiosos de Marx estou resumindo tudo em uma linha.

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