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Do Tinder à Reserva: aonde esses protestos digitais vão nos levar?

Generalizações comprometem debate e engajam milhões de pessoas em torno de mentiras ou meias verdades

Recentemente, li em dois jornais o caso “trágico” de uma mãe solteira que fez um “experimento" e colocou suas “piores" experiências no Tinder. Vou poupar o leitor da tortura, mas a conclusão é que os homens são machistas.

Levando em conta que durmo todas as noites com alguém que conheci no aplicativo, tenho amigos casados e com filhos que fizeram o mesmo, achei a coisa toda curiosa. Uma rede social de paqueras como o Tinder é basicamente todas as baladas do mundo misturadas, sem filtro nem porteiro. Dá para encontrar gente legal, mas o fundo do poço também anda por lá.

Você pode ser o tipo de pessoa que aprende a filtrar um pouco as coisas, entender que as pessoas são diferentes e isso faz parte da vida. Você não pode pegar o pior do pior, generalizar e dizer que é um “protesto”. Parece que os jornalistas e usuários das redes sociais que passaram a história adiante não aprenderam que não é assim que se faz “experimento”. Não se pega de propósito os piores casos. Aliás, lendo os comentários raivosos no Facebook, descobri que a pessoa usou o filtro para homens com menos de 34 anos. Foi selecionada uma amostragem pequena e o resultado apresentado como se cobrisse todo o universo da rede analisada. Um "crime estatístico". Ah, e será que eu, como tenho 37 anos, posso reclamar de preconceito por ter sido excluído na filtragem?

Em outra notícia, completamente não relacionada, o dono da marca Reserva tomou as mídias sociais para se defender de acusações de misoginia, machismo e outras coisas. Tudo começou quando, anos atrás, colocaram em suas etiquetas que, caso não soubessem lavar seus produtos, os clientes podiam “perguntar para a mãe” como fazer. Isso faz anos, a etiqueta já mudou.

Imagino que as pessoas que se ofenderam foram criadas por lobos ou camelos. Eu, quando mais novo, recebi ótimas instruções de minha mãe sobre como lavar roupa (como boa mãe judia, me ensinou que se eu usasse menos água quente a roupa duraria mais). Ter mãe não é ofensa.

As duas histórias são bem diferentes, mas me causam arrepios. Uma, generaliza os “homens" e “mãe solteiras” a partir de uma “pesquisa” que qualquer universitário deveria saber ser inválida. Aliás, na minha idade, a maioria das mulheres têm filhos e, para ser sincero, prefiro esse grupo ao das que tratam os cachorros como filhos (desculpa menina com quem saí uma vez e ficou me mostrando fotos do cachorro). A outra pode trazer danos materiais a uma empresa que gera empregos, generaliza a marca como algo ruim e espalha reações que podem ser difíceis de combater (e juro para você: nunca consumi nada da marca, é a reação das pessoas que me choca).

Está na moda reclamar de “notícias falsas”, de como o jornalismo é ruim etc. e etc. Mas o que fazer quando, ao ler qualquer coisa levemente espalhafatosa, a primeira reação das pessoas é se ofender profundamente, agir como juiz e executor, partir do princípio de que nada presta? A pior das piores experiências significa “machismo”? Uma etiqueta fora do contexto significa que a empresa não presta?

Antes que me atirem pedras, também já tive artigos e frases “odiadas" por quem não se deu ao trabalho de ler, ou entender, um texto de alguns parágrafos.

Pensando bem, quero fazer uma petição ao Facebook. Já que fizeram um botão de “reações”, que tal fazer um de pensar?

Vamos contribuir? Se quer protestar, proteste de verdade. Informe-se. Vá atrás. Organize uma passeata, discuta com pessoas no mundo real, tente entender os ângulos e informações que existem sobre o tema. Sair berrando que todo mundo é mau até faz uma massagenzinha no ego, mas causa devastação se não tomarmos cuidado.

(E, se você está curioso, fizemos aqui em casa alguns testes essa semana. Com uma foto em uma churrascaria e o texto “Bolsonaro 2018” minha namorada conseguiu mais de 20 matches no mesmo tempo em que eu consegui um com o texto “Fora Temer”. Agradeço à generosa alma que apoiou minha “pesquisa” e sinto avisar aos outros vinte que eu e minha respectiva estamos felizmente desencalhados).

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