Mais comentada

Duas Coréias, Trump, e como ganhar uma briga usando um prêmio Nobel

A Coreia do Norte reduziu o tom, cruzou a fronteira e está fazendo as pazes com o mundo. Como a "loucura" do Presidente Americano e uma Teoria que ganhou um Nobel explicam o que aconteceu.

Há muito tempo atrás, quando eu era jovem e solteiro, estava em uma balada com uns amigos. Passou uma menina e eu com meu grande talento tentei passar uma cantada que foi prontamente ignorada.

Um tempo depois, sinto um tapinha nas minhas costas: um daqueles caras de camisa justinha vira para mim e fala “Ô cara, se você falar com ela de novo vou te dar porrada.”

Eu nem entendi direito, e disse algo como “Hein?”

"Aquela mina ali, se você falar com ela vai levar porrada".

"Tá bom, então, pode bater", respondi.

O sujeito, que já não devia ter um Q.I. muito altom repetiu: “Você não entendeu, vou te dar porrada!”.

Eu, levantando a voz: “Quer me bater, bate, cara! Bate!”

O cara: “Vou te dar porrada”.

"Bate logo, mano!”, levantando um pouco mais a voz.

Já tinha gente olhando e dando risada em volta. O cara, sem saber o que fazer, virou as costas e foi embora. Depois fiquei sabendo que ele tinha namorada e estava tentando impressionar a outra. Perdeu as duas.

Sou louco, né?

Acontece que nessa fase da vida eu já tinha lido o trabalho de um economista chamado Thomas Schelling. Schelling é um dos grandes nomes da Teoria dos Jogos, e estudou, entre outras coisas, a solução de conflitos.

Matemática à parte, uma das conclusões mais famosas de Schelling é que se você está entrando em conflito com alguém mais forte, ou com pelo menos boas condições de te prejudicar, a tendência humanda é tentar ser “racional”, conversar, dar um “deixa disso” e até abrir mão do que se quer.

Uma solução mais eficiente é mostrar para a outra parte o que ela tem a perder se persistir com a ameaça. Não basta só falar. Tem que mostrar mesmo.

Sabe aquela famosa cena de filmes americanos em que dois babacas entram um em cada carro, correm em direção um ao outro e veem quem desiste antes? Basta você arrancar o seu volante e mostrar para o outro lado que a sua única opção é seguir em frente. Como fazer se alguém te agarrar à beira de um precipício e ameaçar te jogar (eu sei, coisa de filme)? Agarre seu atacante e comece a dançar. A cada momento um passo em falso derruba os dois.

Como fazer quando você é presidente de um país e algum país maluco ameaça te invadir, bombardear ou algo assim? Mostre que você é mais maluco ainda, e que ao menor sinal de mau comportamento não terá problema nenhum em explodir cada pedaço do país atacante e um pouco mais.

A “garantia de destruição mútua” era doutrina quando os EUA e União Soviética estavam em Guerra Fria, graças ao trabalho de Schelling. Se você tem medo de ser bombardeado, pode dormir mais “tranquilo" sabendo que o outro lado também tem. Parece estranho, mas é a garantia de ir pelo um caminho sem volta que detém qualquer agressão futura.

E aí vemos os tweets de Trump. Não tenho a mínima ideia se Trump conhece Thomas Schelling (ele não está mais aqui para contar pessoalmente e seu trabalho tem uma certa matemática), mas quando vi os comentários “malucos” do presidente americano, lembrei daquele dia naquela boate.

O fortinho da balada que me ameaçou não precisava acreditar que eu ia ganhar a briga, apenas que eu era louco o bastante para causar estrago suficiente. A Coréia do Norte pode nunca admitir, mas saber que o adversário tem um arsenal maior e é louco o suficiente para usá-lo, certamente foi uma ótima motivação para pensar em cruzar a fronteira e fazer as pazes com o vizinho.

As opiniões veiculadas nos artigos de colunistas e membros não refletem necessariamente a opinião do Administradores.com.br.
Avalie este artigo:
(1)
Tags: Negociação Teoria dos Jogos