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Me abrace, antes da última pá de terra

Aquele pai, enquanto caminhava pela rua arborizada, conversava com seu terapeuta, de nome fictício Paulo, e contava da sua tristeza diante das atitudes de seus filhos, um menino de 15 anos, e uma jovem de 17.

Aquele pai, enquanto caminhava pela rua arborizada, conversava com seu terapeuta, de nome fictício Paulo, e contava da sua tristeza diante das atitudes de seus filhos, um menino de 15 anos, e uma jovem de 17.

“Paulo, eu troquei as fraldas deles, todas as madrugadas, enquanto eram bebês, suavemente caminhava pelo piso, e colocava o dedo por debaixo das narinas deles, para me assegurar de que estavam respirando. Levemente colocava a mão sobre o coraçãozinho deles, para ter a certeza de que tudo estava bem. Carregava-os nas costas, fazia cócegas, arrumava a melhor roupa aos sábados, penteava seus cabelos, para os passeios ao shopping. Comprava brinquedos, rolava na grama e corríamos os três pelos parques. Eu os apertava tanto, de tanto amor, que dizia que iria esmagá-los, mordê-los, mas tudo em forma de um intenso carinho. Mexíamos na terra, arrancávamos os matinhos do jardim, deitávamos na rede apenas para observar a lua, enquanto encontrava a estrela mais brilhante para dar a eles de presente. Na escola, meu orgulho era buscá-los, abraçá-los e beijá-los, e contar para todas as pessoas que eram meus filhos. Parávamos comer um cachorro-quente, e vínhamos lentamente de mãos dadas, para que as pessoas soubessem o quanto nos amávamos. Enfim, eu os amei e amo tanto Paulo, que é inconcebível que agora eles queiram ficar afastados, não me abraçam mais, fogem dos meus carinhos, e parecem sentir vergonha de mim, principalmente, quando estão com os amigos. Tem sido difícil esse distanciamento, não consigo acreditar que não me amam mais. O que será que eu fiz de errado? Será que nunca mais vou sentir aquele aperto do abraço que me davam, implorando para eu brincar de cavalinho, mesmo nos dias em que eu estava morto de canseira? Aquela alegria que eu sentia quando nos escondíamos da mãe deles, e a assustávamos na escuridão, será que nunca mais farão parte da minha vida? Mesmo aquelas vezes no plantão médico, que saíamos correndo com eles no colo, para ver a razão da febre alta? Paulo, será que eles irão me abraçar pelo menos mais uma vez, mesmo que seja antes de fecharem o caixão, e jogarem as pás de terra?”

Eis que seu terapeuta responde:

“Meu amigo, sua tristeza é válida. No entanto, diante de tudo o que me contou, lhe digo que seria uma grande honra ser seu filho, sua filha. Meu pai, por razões geracionais, nunca foi tão amoroso como você demonstrou ser em seu discurso. Ainda assim, eu o amo. Adoraria ter recebido mais abraços, ser carregado no colo, subir nas costas dele, e até um olhar de afeto me seria muito prazeroso. Então, se acalme, porque seus filhos amam você, e não sentem vergonha alguma de o terem como pai. Apenas estão naquela fase em que muitos adolescentes enfrentam, onde acham que o pai, a mãe, que os abraçam perto dos amigos, os fazem passar vergonha, sendo que a grande realidade, é que os amigos cujos pais pouco se importam com o amor, adorariam ter um pai igual a você. Se eles não te abraçam, abrace-os. Se não te beijam, beije-os. Se não consegue mais carregá-los nas costas, role no sofá ou no chão por cima deles. Tome banho de mangueira, jogue bolinhas de papel neles. Se não brincam mais com suas velhas e chata brincadeiras, que antes eles amavam, brinque por cinco minutos de algo que eles gostam, ainda que depois de um dia extenuante de trabalho. Mesmo que não seja mais necessário, faça como eu, e vá nas madrugadas conferir se estão respirando, se o coração está batendo adequadamente. Sente-se ao pé da cama e observe o quanto cresceram. Vá à cabeceira e acaricie seus cabelos. Eles estão dormindo, e nem perceberão sua presença, mas a sentirão, e saberão que podem contar contigo. Se não quiserem que você os leve ao colégio, fique na esquina de baixo, esperando que entrem, só não se espante nem fique enciumado se os ver abraçando e beijando outras pessoas. Faz parte desse jogo maravilhoso da vida meu amigo. Eu tenho a certeza que eles amam você, e que você os ama. Estou convicto de que daria sua vida por eles, que sentiria as dores deles se pudesse, que trocaria seu mais valioso bem, para vê-los felizes. Faça a eles tudo aquilo que espera que eles façam para você. Cedo ou tarde eles se rendem. E tenha a certeza, que se por um golpe do destino, nunca mais te abraçarem, eles farão isso antes da última pá de terra”.

Ambos, terapeuta e pai, riram, e foram para suas casas. O pai, ao chegar, abriu a porta do quarto do filho, que disse: “Pai, porque não bateu antes?”. No silêncio da sua nova sabedoria, percorreu alguns metros e deitou ao lado do filho na cama, tirando o celular das suas mãos, e lhe deu um apertado abraço e um beijo. Meio sem jeito, seu filho responde: “Pai, eu te amo, mas nunca faça isso perto dos meus amigos tá?” Ambos riram e o pai saiu.

Depois, foi ao quarto da filha, bateu antes de entrar, e foi recebido com um “entre”. Olhou fixamente nos olhos dela, sorriu, passou seus dedos por entre os longos cabelos da jovem, segurou-a pela mão, e disse: “essa tatuagem ficou linda. Só não entendo o porquê dessa âncora”. Abraçando o pai, e deitando sobre seu colo, ela diz: “é uma homenagem a você e â mamãe, que são meu porto seguro. Não pude lhe dizer isso, pois o senhor ficou uma fera quando a viu pela primeira vez”. O abraço ficou mais forte, e o pai falou: “nossa, é uma linda tatuagem, acho que é hora de eu também homenagear você”, e saiu, enquanto sua filha enxugava algumas lágrimas.

O terapeuta, ao chegar em casa, abraçou fortemente, como sempre fazia, seus filhos e esposa, sacou o celular do bolso, fazendo uma ligação. Quando alguém atendeu do outro lado, ele diz; “Pai, eu te amo, obrigado por tudo, e me perdoe por ter demorado tanto para ligar. Amanhã prepara a refeição, porque irem tomar café com você...”, e lentamente pegou no sono no colo da sua filha mais velha.

Forte abraço, fique com Deus, sucesso e felicidades sempre, antes da última pá de terra.

Prof. Paulo Sérgio
Empresário e Palestrante

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