O Brasil apaixonou-se por Joaquim Barbosa

A condenação dos “mensaleiros” representa uma luz, embora fraca, no fim do escuro e sombrio túnel. É como se fosse um grito de desabafo de um povo que se sente traído constantemente pelos seus representantes

Talvez por fazer parte de uma raça que ainda é discriminada no nosso país por mais que a hipocrisia encubra o racismo. Quem sabe por ser de origem humilde e ter vencido na vida após sair do interior de Minas Gerais e hoje ser uma das principais autoridades brasileiras. Ou por suas frases irônicas e marcantes proferidas em discursos inflamados e contundentes. Seria pelo fato de ser um dos principais pensadores brasileiros com doutorado no exterior e fluência em cinco idiomas?

Por que o Brasil apaixonou-se por esse homem? Pode ser pelo perfil sério em um país onde reina a impunidade principalmente em relação às falcatruas envolvendo o dinheiro público. Não há como saber ao certo, mas se fosse candidato a Presidência da República, como muitos querem, certamente o Ministro daria trabalho a qualquer adversário. Acredito que tudo que foi mencionado acima, somado às condenações dos chamados “mensaleiros”, tenha colocado definitivamente o nome de Joaquim Barbosa na história. É certo que existe algum exagero acerca da imagem de herói criada em torno do Presidente do Supremo, mas o Brasil clama por salvadores.

Evidente que mais uma vez ninguém ficará preso. Mesmo com as condenações, os principais envolvidos no processo do “mensalão” não pagarão como deveriam pelos crimes praticados. Sem entrar na questão de serem do Partido dos Trabalhadores ou ex-apoiadores e parceiros da administração petista, pois não é essa a discussão, mas sempre é bom esclarecer, pois a paixão que envolve a política faz com que os fanáticos levem tudo para o lado da perseguição.

Há argumentos para que o debate não seja encarado dessa forma. Da minha parte, fui eleitor do Lula e da Dilma e tive a oportunidade de caminhar lado a lado com ex-presidente em 1989 na campanha em que foi derrotado por Fernando Collor. Acreditei e continuo crendo nos ideais petistas, mas safadeza e corrupção realmente tem que ter limite. Por parte do PT também não há o que reclamar, dos onze atuais Ministros do Supremo, oito foram indicados pela Dilma ou pelo Lula, inclusive Joaquim Barbosa. Portanto o discurso de que são presos políticos, adotado por alguns dos condenados, definitivamente “não cola”.

A condenação dos “mensaleiros” representa uma luz, embora fraca, no fim do escuro e sombrio túnel. É como se fosse um grito de desabafo de um povo que se sente traído constantemente pelos seus representantes. Verdade que o grito através desse processo, diante de tanta corrupção em todas as esferas de poder e por tanto tempo, não passa de um sussurro. O “mensalão” é somente um caso no “mar de lama” que envolve representantes de quase todos os partidos, autoridades e empresários que nem são da política.

Isso tem solução? Não sei, pelo menos em curto prazo acredito que não. Houve uma inversão total de valores. Hoje a exceção é ser honesto e não aceitar propinas ou participar de tramoias e maracutaias, e sinceramente não vejo essas exceções com força suficiente para consertar todo um sistema com maioria corrupta. Quando falo de corrupção não falo somente de dinheiro, mas também de defesa de todo tipo de interesse particular em detrimento do coletivo.

Pensando bem, o que fez com que os olhos dos brasileiros brilhassem pelo Joaquim Barbosa foi o fato de ele estar no lugar certo, na hora exata, e fazer cumprir a Lei sem reservas por mais que ela própria seja tão controversa. Que esse emblemático processo seja apenas um dos vários outros que possam ter resultados semelhantes. Que essa paixão pelo Ministro do Supremo estenda-se a outras autoridades e se transforme em amor, e quem sabe daí saia um “viveram felizes para sempre.”

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