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“O Mecanismo" é o espelho que não gostamos de olhar

"Esqueça um pouco a briga política e assista a "O Mecanismo". Ele vai te mostrar aquele lado do Brasil que não gostamos muito de ver"

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A maioria das pessoas lembra dos Filmes “Tropa de Elite” pelas cenas de ação. Capitão Nascimento subindo morro, dando porrada, gritando com os aspirantes.

O lado menos lembrado é a crítica social. A ciranda do jovem que compra maconha do traficante, o traficante que se fortalece e faz ainda mais merda. Em uma das cenas hoje esquecidas, nosso herói Capitão Nascimento pergunta: “Quantas crianças a gente tem que perder para o tráfico só para um Playboy rolar um baseado?". No fim da série, a luta de Nascimento não é só contra o traficante, mas todo um sistema de policiais e políticos corruptos ou incompetentes, uma sociedade que faz passeatas mas não muda o comportamento, e pessoas que não estão nem aí para a consequência de seus atos.

Vendo dessa forma, a série “O Mecanismo” é praticamente uma continuação. Vamos esquecer por um momento os políticos que se sentiram mordidos pela história. Uma leitura mais atenta diz que a série não é só sobre isso.

É sobre o policial que me parou em uma estrada quando eu tinha vinte e poucos anos e disse que se eu não abrisse a carteira, ele ia revistar meu carro e achar algo. É sobre o vizinho que eu tinha anos atrás e fazia “gato" da TV a cabo. É sobre o professor de faculdade pública que usava seu cargo para tirar vantagens demais e trabalhar de menos. É sobre histórias parecidas que todos nós, brasileiros, temos para contar.

A série é sobre políticos corruptos, mas é também sobre homens casados que arranjam amantes, sobre funcionários públicos que preferem ser deixados em paz em vez de fazer o seu trabalho, sobre a pequena corrupção do dia a dia: o cara que fala que se não for assim não consegue serviço, o empresário que reclama que tem que pagar propina, mas paga mesmo assim.

A série incomoda não só porque bota o dedo na ferida das torcidas de alguns políticos. Políticos de todos os lados são retratados como os filhos da mãe oportunistas que são. A série incomoda porque é um retrato do Brasil.

Quantas vezes você viu alguém parar em lugar proibido “só um pouquinho?”, quantas pessoas não se importam de levar vantagem de vez em quando, sem se importar com as consequências? Quantas pequenas corrupções acontecem todos os dias, que nos fazem até nos acostumar com essa coisa toda, dar de ombros e pensar “O Brasil é assim mesmo”?

Um de meus personagens preferidos da série, aliás, é uma personagem secundária: a filha de um dos corruptos, que fica completamente indignada com o pai porque ela “só assinava” os papéis. Aparentemente, nunca se perguntou de onde vinham sua mansão e carros até a coisa pegar mal. E quando pegou, óbvio que a culpa era de outra pessoa.

Quantas situações assim existem país afora? Esqueça as grande empreiteiras. Quantas vezes ouvimos casos de vizinhos que roubam de vizinhos, de gente que abusa de quem está abaixo da hierarquia? De quem adora achar que tem direito de uma ou outra regalia por se sentir mais especial que os outros?

Por isso, esqueça um pouco a briga política e assista a "O Mecanismo". Ele vai te mostrar aquele lado do Brasil que não gostamos muito de ver. Incomoda, mas, de vez em quando, o incômodo é necessário para mudar.

Como diz um personagem, o problema não é só um ou outro político. É todo o moedor de carne que chamamos de Brasil.

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