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O que você faria?

Aceitar as argumentações e a vontade do pai ou lutar até o último fio de esperança?

Conversei bastante outro dia com um aluno que virou amigo sobre a morte de seu pai e os momentos e decisões difíceis que envolveram o fato.

São uma família de classe média baixa, pai operário da indústria e mãe costureira, dois filhos formados e uma vida de muitas restrições, embora digna e feliz. Pais que transmitiram valores nobres e sólidos e deram de presente ao mundo filhos "do bem".

Um dia este pai recebeu o diagnóstico de câncer, já em metástase, com previsão de menos de um ano de vida. Os médicos deram duas opções: com todos os tratamentos possíveis e caros que estão disponíveis poderia se conseguir uma sobrevida de dois anos, talvez três. Sem o tratamento, de seis meses a um ano.

Durante toda a vida de labuta desta família brasileira, o único bem de maior valor adquirido foi o apartamento onde moravam, comprado com muito suor e centenas de prestações. Sem plano de saúde, este bem teria que ser vendido para custear as despesas, caso a escolha da família fosse pelo tratamento paliativo da doença.

O pai, numa demonstração de desapego, colocou-se absolutamente contra. Ponderou que viveu bem seus 58 anos, foi feliz e sempre soube que a única certeza da vida era a morte. Disse que não faria o menor sentido prolongar uma "meia vida" por no máximo dois anos, sem qualidade e com muitas restrições, e depois do fim privar a família do conforto da casa própria.

Esposa e filhos de pronto não aceitaram estes argumentos e disseram que venderiam tudo, "até as roupas do corpo", para salvar o pai. Este se manteve firme: "Vocês não vão salvar ninguém. Vão apenas prolongar o inevitável, de maneira desnecessária. Quero ir em paz, no momento em que Deus determinar."

Foi a semana mais difícil na vida deste meu amigo. Aceitar as argumentações lógicas e a vontade do pai ou lutar até o último fio de esperança e pagar o preço desta luta? Muita conversa entre os quatro, muito choro, argumento e amor rechearam esta semana até a decisão final. Venceu o desejo do pai, que faleceu nove meses após o diagnóstico.

Agiu a família de forma correta? Impossível julgar, pois cada um de nós percorre seus próprios caminhos para chegar a uma decisão. Nossas crenças e valores são o que norteiam esses caminhos, gerando decisões plenas e soberanas. Mas confesso que fiquei orgulhoso deste pai, que lutou a vida inteira pela família e demonstrou um difícil desapego quando disse que "a morte faz parte da vida."

E você, o que faria?

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