Os fortes também são frágeis

...porque às vezes nosso foco está em outro lugar de maior complexidade o que nos permite não achar tudo tão óbvio.

Duas situações me chamaram a atenção nos últimos dias. No decorrer da última semana me deparei com uma pessoa das minhas relações, e que vejo como alguém muito forte, em um momento de vulnerabilidade, medo, incertezas e não sabendo como externar isso o corpo resolveu falar por ela, com um pico de ansiedade e de pressão alta.

Tive a oportunidade de estar presente e ouvir essa pessoa intensa e enérgica se abrir por alguns instantes e jogar para fora algumas de suas fragilidades e dificuldades. Naquele instante fiz o que achava melhor, escutei, dei meus “pitacos”, procurei reforçar o quanto ela é uma pessoa poderosa e que pode ter momentos de dificuldade e que pedir ajuda é e sempre será um ato de coragem e me coloquei a disposição para auxiliá-la.

Em outra ocasião, eu já cansada do dia intenso de trabalho produzindo muito conteúdo, pensando em pessoas diferentes e muito focada na minha meta diária que era encerrar o dia com tudo entregue, cumpri com meu objetivo, pendências = 0.

Porém,contudo, todavia, eu ainda tinha uma última tarefa, precisava falar com outra pessoa, dar a ela um parecer final das atividades realizadas, eu havia dado um prazo para isso acontecer. Somos parecidas em muitas coisas e opostas em outras tantas, mas na comunicação sempre fomos muito objetivas uma com a outra, sem floreios, sem historinhas, sempre direto ao ponto, “faço isso, você faz aquilo, etc.”, e assim mantive meu padrão de comunicação, sem muito cuidado escrevi uma série de coisas e pensei que estava tudo concluído \o/….

Mas não estava, o excesso de objetividade gerou um desentendimento desnecessário, pouca explicação para o conteúdo apresentado e um pensamento de que a informação por si só seria óbvia para o contexto, mas não foi. E no meu momento de vaidade interna, quando as respostas começaram a aparecer só pensava que estava sendo julgada injustamente.

Entre idas e vindas, uma parte da história dela foi compartilhada, situação que eu não tinha conhecimento e que me chamou à realidade. Encerrei minhas justificativas e declarações (mesmo bicuda). Na verdade ela está passando por uma situação que exige muito mais de sua atenção e cuidado, o que fez com que seu foco mudasse de ponto, de certa forma ela está exposta a uma circunstância delicada, da qual está aprendendo a lidar, envolve outras pessoas e parece manter sua veste de força, vigor, energia para garantir que tudo e todos passem bem por essa fase.

E por que compartilhar tudo isso? Porque somos todos fortes, cada um do seu jeito, mas também somos frágeis, porque às vezes escutar pequenas histórias é a libertação para aqueles que tem dificuldade de expor suas fragilidades, porque aqueles mais diretos e objetivos às vezes precisam diminuir o ritmo e merecem receber atenção, porque às vezes nosso foco está em outro lugar de maior complexidade o que nos permite não achar tudo tão óbvio, porque precisamos continuar fazendo o exercício de entender o que está do outro lado que é invisível aos nossos olhos.

Esse último desfecho poderia ter sido diferente? Quem sabe seu eu tivesse deixado a atividade para o outro dia e mais relaxada tivesse escrito algo mais suave? Quem sabe? Ninguém!

Mas se tivesse ficado para outro dia, talvez eu nunca teria a oportunidade de saber o que está se passando do lado invisível, deixaria de ajudar e não poderia fazer uma nova leitura do mesmo acontecimento e continuaria sentada no mesmo lugar pensando nas mesmas coisas.

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