Por que temos o papelão mais caro do mundo?

Agora além do carro mais caro, do metro quadrado mais caro, dos eletrônicos mais caros, temos também o papelão mais caro do mundo.

Injetar água na carne para aumentar seu peso, alterar os rótulos e as datas de vencimento dos produtos e tratar as carnes com ácido ascórbico para mascarar seu mau cheiro.

Essas foram apenas algumas das inúmeras maracutaias descobertas pela Polícia Federal na operação que ficou conhecida como Carne Fraca. Operação essa que já fez com que a JBS e a BRF perdessem, até agora, 6 bilhões em valor de mercado.

Mas essa é a parte econômica da história. São apenas números. Tudo fácil de entender. O que eu quero mostrar daqui pra frente, apesar de também fazer parte da área da economia, irá abordar o lado comportamental da coisa. Vamos lá.

Eu duvido que você, meu caro leitor e comedor de salsichas, nunca escutou aquela velha brincadeira quando estava prestes a pôr a vermelhinha na boca:

“Vai mesmo comer isso? Você sabe do que ela é feita? Já foi procurar no youtube? Aposto que se soubesse perderia a coragem”.

Bom, saber mesmo ninguém nunca soube, mas entre uma cara feia e outra, no final das contas todo mundo sempre acabava comendo. Mas o fato é que até aquele consumidor mais otimista, aquele que sugeria trocar o seu bife por 2 ou 3 salsichas com os colegas do trabalho, no fundo sempre soube que havia algo de errado ali. Só não existiam provas, ainda.

A primeira vez que eu desconfiei desse mercado de produtos industriais foi ainda na época da faculdade, quando um professor me falou que em meio a uma de suas consultorias para uma fábrica de salsichas, o custo unitário de uma vermelhinha era de incríveis R$0,001 centavos.

Vejam, se em qualquer segmento a correlação entre custos e qualidade do produto já é forte, na área de alimentação é mais forte ainda. Nesse mercado não há mágicas. Simplesmente não tem como um produto custar um décimo de um centavo e ainda ter matéria-prima de excelência.

Sendo sincero com vocês, a única coisa que não existe nessas salsichas, hamburguês, etc, são resquícios do mundial do palmeiras, até porque isso não existe. De resto, tem de tudo. Tudo mesmo, até cabeça de porco, segundo a polícia federal (sacou a analogia?).

Mas se o ditado é antigo, por que a casa só caiu agora?

Quem estuda ciências sociais/economia comportamental, sabe que as coisas nesse meio funcionam de uma forma meio maluca mesmo. Muito provavelmente, em um dia completamente aleatório, como em um churrasco de domingo, algum delegado da PF deve ter escutado essa brincadeira pela milésima vez, e naquele instante, já alterado por conta de uns goles a mais em sua cerveja importada, resolveu que era chegado a hora de investigar o que havia de errado nesse mato.

E eu aposto que naquele instante ele já desconfiava de que naquele mato teria cachorro (sacou a analogia²).

Já do lado empresarial, temos aqui mais uma vez a história da cegueira causada pela ganância progressiva se repetindo. Como o americano Dan Ariely conta em seu livro “A mais pura verdade sobre a desonestidade”, essas grandes trapaças, na verdade, quase sempre começam com um pequeno delito que passou impune.

É como aquele funcionário que começa roubando um punhado de clips no trabalho, depois passa para uma caneta, depois para um pacote de folha sulfite, até finalmente chegar na adulteração dos números de algum relatório milionário.

Por fim, o mais engraçado até esse momento é ver todo aquele roteiro de planejamento de crise de imagem ser seguido à risca.

Primeiro os caras vão negar os fatos, dizer que não sabiam de nada. Depois irão alegar que estão dispostos a colaborar com a polícia para esclarecer tudo, e dizer que sempre seguiram todas as normas de segurança previstas em lei. Por fim, ou o presidente da empresa irá gravar uma nota na TV ou eles literalmente irão sumir da sua vista, apostando, sobretudo, na já conhecida falta de memória do brasileiro.

E é dessa forma que além do carro mais caro, do metro quadrado mais caro, dos eletrônicos mais caros, temos também o papelão mais caro do mundo.

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