Rolezinhos, ignorância e a vontade de criar confrontos

Uma breve análise, sem tensionamentos ideológicos, sobre a incapacidade do Brasil de oferecer ao seu povo um "terceiro lugar"


Fábio Zugman,
Reprodução/ Youtube
Cidades com bons “terceiros lugares” geram encontros entre pessoas, inovação e criatividade. Infelizmente, como sociedade, não nos destacamos muito pelos espaços oferecidos

O sociólogo Ray Oldenburg escreveu dois livros sobre o “terceiro lugar”. Importantíssimo a qualquer civilização, o terceiro lugar fica entre a moradia e o trabalho, onde pessoas podem se encontrar para se divertir, trocar ideias e relaxar.

Segundo ele, a qualidade e acesso aos terceiros lugares é uma medida direta do avanço de uma sociedade. Quando esses espaços estão disponíveis e em bom número, as pessoas têm aonde ir além da rotina de casa - trabalho - casa - trabalho.

Em vários períodos considerados de “ouro”, ou várias cidades consideradas atrativas, os terceiros lugares existiam em boa quantidade e eram acessíveis à maioria da população. Sejam Àgoras, os mercados abertos onde os antigos gregos se encontravam, os cafés de Viena que abrigaram personagens como Freud e Marx, ou os restaurantes, museus e parques das grandes metrópoles modernas, esses locais permitem que as pessoas tenham qualidade de vida e têm um imenso valor social e cultural.

Cidades com bons “terceiros lugares” geram encontros entre pessoas, inovação e criatividade. Alguns autores chegam até a propor que contribuem para o bom estado mental dos moradores. Pense sobre a diferença entre estar no isolamento de um grande engarrafamento e passar esse tempo em um parque com algum amigo.

Infelizmente, como sociedade, não nos destacamos muito pelos espaços oferecidos. Os parques são poucos, as opções culturais ainda mais raras e, quando existem, são caras à maioria da população. E eis que entra o “rolezinho”. Longe de sair gritando “racismo" ou “tumulto" como boa parte da mídia vem fazendo, vamos analisar isso com um pouco mais de equilíbrio.

O próprio Oldenburg coloca que quando vemos um grupo de pessoas bebendo na rua, podemos colocar a culpa nessas pessoas, ou na falta de opções oferecidas a elas. Se os jovens estão se aglomerando nos postos de gasolina ou no meio da rua, é mais fácil culpar o grupo pelo “tumulto”. Mas quais as opções que essas pessoas realmente têm?

Vamos complicar um pouquinho mais a discussão (mas não muito), lembrando o filósofo francês Pierre Bourdieu. Segundo ele, há muito mais quando falamos de consumo do que capital financeiro. Capital financeiro é dinheiro, e é importante para comprar coisas. Mas Bourdieu também define o capital social, cultural e simbólico, que nos dizem o que exatamente consumir, com quem e para quem faremos isso.

Sem complicar muito, vamos dar como exemplo o consumo de arte. Dependendo da educação que você possui, do círculo de amigos e de suas referências, uma exposição de arte pode significar para você um monte de rabiscos sem sentido ou um enorme prazer. Boa parte da arte precisa ser aprendida para poder ser apreciada.

O mesmo vale para todos os tipos de consumo. Aprender a tocar um instrumento musical demanda tempo e dinheiro, coisas que você não tem se está ocupado trabalhando como um louco para pagar as contas. Dessa forma, as distinções entre classes não se dão somente pelo “quem tem dinheiro e quem não tem”, mas também como as diversas formas de capital disponíveis a cada um.

Voltando aos rolezinhos: como sociedade, somos um fracasso total quanto aos terceiros locais. A maioria das pessoas passa a maior parte do tempo em casa, no trabalho, e no trânsito entre esses dois lugares. Não é coincidência que os brasileiros estão entre os povos que mais usam mídias sociais. Na falta de terceiros lugares reais, resta o mundo virtual.

Não dá para tapar o sol com uma peneira. Os espaços públicos são poucos, pequenos e muitas vezes vergonhosos. Cinemas, teatros e outras coisas são caras demais à maioria da população. E todo mundo que já morou em São Paulo sabe da importância dos shoppings no ecossistema das cidades brasileiras (São Paulo pode ser um caso extremo, mas, cada vez mais, famílias em todo o Brasil que não têm o que fazer vão dar uma volta no shopping mais próximo).

E o tal confronto entre as classes? Bourdieu tiraria essa de letra. Nosso governo se vangloria de algumas melhorias no âmbito financeiro nas camadas mais pobres da população. Essas pessoas sabem que podem consumir, querem se sentir incluídas na sociedade, e isso é bom. No entanto, não basta só dinheiro. Falta cultura, educação. Falta questionar se, tendo acesso, porque muita gente ainda se sente intimidada a frequentar os terceiros lugares que são os shoppings para a população brasileira? Porque precisam se sentir confortáveis em um grande grupo? Falta questionar se é só isso que temos a oferecer a essas pessoas. A opção de ir ou não em turma a um shopping. Faltam opções, falta cultura, falta desenvolvimento.

Os tais rolezinhos são sim um passo dado por uma camada da população que antes não tinha acesso, e agora está experimentando o que exatamente isso significa. Isso é positivo. Mas acho que podemos bem mais que isso.

Antes, no entanto, temos que derrubar a retórica da hostilidade. Parar de tentar transformar tudo em conflitos entre pobres e ricos, negros e brancos e assim por diante, e pensar, juntos, como podemos ser uma sociedade melhor, com mais opções, oportunidades e cultura.

 

 

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