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Singularidade versus Espírito de Rebanho

A cultura do “vencer ou não ser” tem arrastado muitas crianças (!) e jovens ao suicídio. Não podemos fechar os olhos para esta triste realidade.

No trabalho com crianças e adolescentes, bem como entre os jovens na fase acadêmica ou ingressando no mercado de trabalho, venho identificando entre as causas de suas angústias aquilo que chamo de Síndrome da Cultura de Rebanho: baixo índice de autoconhecimento, deficiência de autoestima, ataque do vírus agressivo da comparação, rigidez dos padrões herdados e adotados como modelos de sucesso pessoal, obstrução das manifestações da singularidade e degeneração do protagonismo.

Pais, cuidadores, educadores, treinadores, profissionais dedicados ao desenvolvimento dos potenciais humanos, precisamos ajudá-los a expandir sua compreensão de si mesmos, favorecendo, por um lado, o autoconhecimento e libertando-os, de outro lado, da obrigação (ou quase uma condenação) de se ajustarem a modelos impostos por sistemas e culturas motivados por interesses que pouco ou nada se importam com o ser humano em si.

Você conversa com seus filhos? Em uma crise de raiva, ciúmes, insegurança, por exemplo, há clima entre vocês para uma conversa sobre o que ele está sentindo?  Você se interessa de verdade? Dá espaço para que ele/ela fale? Ouve atentamente? Ou você inicia aquele interrogatório de sempre, eivado de pré-julgamentos, irritado por ter de deixar de lado seu programa na TV ou seu smartphone, mais interessado em obter silêncio do que em aproveitar o momento para que ele/ela se conheça melhor com a sua ajuda?

Você já percebeu que damos uma extrema importância para uma nota baixa na prova de matemática, mas tratamos com certo desdém as queixas emocionais de nossos filhos?

Nosso sistema educacional tradicional e nossa sociedade como um todo tendem a buscar a padronização de comportamentos.  Estabelecemos o que é ter/ser sucesso, o que é ser um vencedor e definimos que vencer e ter sucesso é nossa meta, nossa medida de valor pessoal e social.

A cultura do “vencer ou não ser” tem arrastado muitas crianças (!) e jovens ao suicídio. Não podemos fechar os olhos para esta triste realidade.

Somos donos de incríveis potenciais. Cada um de nós, a seu modo, “carrega em si o dom de ser capaz de ser feliz”, como na canção de Almir Sater e Renato Teixeira.

Gardner nos revelou o universo das múltiplas inteligências. Carl Jung, entre outros, nos ajudou a entender que há diferentes perfis psicológicos. Martin Seligman e Christopher Peterson sistematizaram o estudo sobre nossas virtudes e forças de caráter.

Há muitos outros estudos e estudiosos, mas estes exemplos já são suficientes para que provoquemos espaços de diálogo com nossas crianças, jovens e até mesmo adultos, sobre o que Brenè Brown chama de singularidade e o professor Luciano Alves Meira, da Caminhos Vida Integral,  trata como diferenciação.

Em um de nossos mais recentes trabalhos com crianças, quando o tema era O Mundo é Uma Obra de Arte, nós iniciamos perguntando que tipos de talentos seriam necessários para produzir uma peça de teatro. Elas foram respondendo conforme eu as provocava mais e mais (obviamente utilizando termos adequados à sua faixa etária): dramaturgos, atores, diretores, iluminadores, técnicos de som, figurinistas, costureiros, maquiadores, cabelereiros, cenógrafos, carpinteiros, pintores, pedreiros, vendedores, faxineiros, e muitos outros.

Logo elas compreenderam que diferentes talentos se unem para realizar algo maior do que a soma das partes. E aí lançamos o questionamento: por que, então, a gente quer ser igual a todo mundo?

Num segundo momento, perguntei sobre seus heróis favoritos e os poderes que eles possuem. Na sequência provoquei-as perguntando se elas, as crianças ali presentes, também possuíam algum tipo de força ou poder. E utilizando as contribuições dos autores acima citados, foi fácil chegar a exemplos reais: algumas eram mais racionais, outras mais intuitivas, uma escrevia muito bem, a outra mandava bem na dança ou no futebol, havia as que já estavam desenvolvendo a inteligência musical, enquanto outras eram donas de uma evidente inteligência interpessoal.

E quando falamos sobre as virtudes e forças de caráter foi o momento de maior engajamento e de algumas surpresas. Muitas crianças não sabiam, por exemplo, que a curiosidade, a integridade, a esperança, o humor, a criatividade, o perdão e a humildade – entre outros – são forças de caráter. E, fazendo a analogia com os super-heróis, elas adoraram perceber as próprias forças.

Para minha alegria, na mesma noite, tive contato com uma das educadoras da escola onde se desenvolveu a dinâmica e ela me contou que uma das crianças que esteve em nossa atividade, ao realizar outra tarefa, mais tarde, fez referência ao que dissemos, toda feliz por possuir uma das forças de caráter que citamos.

Se você é pai, mãe, cuidador, educador e está de fato interessado em contribuir para o desenvolvimento do potencial humano daqueles seres sob sua responsabilidade ou em sua área de influência, sugiro o estudo destes temas.

É preciso reconhecer que o elevado número de pessoas – inclusive crianças e jovens -  ansiosas, depressivas, infelizes e com tendências autodestrutivas é um sintoma inequívoco de que estamos falhando e de que podemos e devemos fazer mais e melhor.

Faz sentido pra você?

(publicado originalmente em www.cesartucci.com.br)

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Tags: ansiedade autoconhecimento diferenciação espírito de rebanho forças de caráter inteligências múltiplas singularidade suicídio valorização da vida

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