Sobre mudanças de vida: expectativa vs. realidade

"Nossos planos nunca acabam sendo tão deliciosos como a realidade". Ram Dass

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Se a vida seguisse exatamente o rumo que nós imaginamos, as coisas seriam muito mais fáceis. Infelizmente, em minhas dezenas e dezenas de mudanças de hábito, nunca tive vi uma mudança acontecer exatamente como eu imaginava. A realidade é sempre diferente.

E aí é que está: essa diferença pode ser uma surpresa interessante ou pode tirá-lo completamente do sério.

Darei alguns exemplos.

Exemplo 1

Acordar cedo: quando eu planejo começar a acordar mais cedo, eu tenho essa visão cor-de-rosa sobre como será agradável levantar quando tudo ainda está tranquilo e usar meu dia de forma produtiva. Eu vou meditar, escrever, ler, me exercitar, fazer um pouco de yoga… a vida vai ser ótima!

Então eu acordo cedo e a realidade é bem diferente: eu me sinto cansado, fico lento, minha meditação não tem foco por causa do cansaço, eu não escrevo tão bem quando ainda estou acordando, eu não tenho vontade de fazer exercícios.

Eu posso ficar muito decepcionado com essa realidade e comigo mesmo. Ou eu posso acolher meu cansaço e tentar entendê-lo. Posso continuar a acordar cedo, mas em vez de pensar que já sei como será tudo, posso apenas ver como as coisas acontecem na prática. Assumo uma posição de não prever, em vez de achar que as coisas serão iguais às minhas expectativas, e exploro a situação.

Exemplo 2

Exercício: Eu sempre tenho um plano incrível para quando começo um novo tipo de exercício. Vou fazer um treino pesado de agachamentos. Ou estabelecer uma rotina ambiciosa de corrida. Ou vou entrar em um plano de crossfit intenso. Cara, eu vou ficar tão fit que as pessoas vão admirar meus músculos.

Então eu começo a rotina de exercícios e, além de ser muito mais difícil do que eu imaginei, eu tenho dificuldades de me manter nela. E mesmo mantendo o ritmo, corro o risco de me machucar. Ou eu fico todo dolorido, andando por aí como zumbi entrevado e nos treinos seguintes a dor me impede de praticar. Meu corpo precisa de mais descanso do que eu pensava, e eu preciso introduzir exercícios intensos gradualmente. Quem imaginaria?

Eu posso ficar decepcionado com meu corpo, com a realidade que enfrenta meu lado otimista. Ou eu posso enxergar isso como uma oportunidade de aprendizado e uma chance de ajustar minhas percepções e meu plano de exercícios. Quando damos de cara com as dificuldades da vida real, podemos ajustar nossos planos e nos adequar a essa realidade. Não precisamos nos apegar tanto ao plano original, tentando teimosamente fazer com que a realidade entre em conformidade com nossos ideais. Ajustar significa que aprendemos a nos adaptar, a sermos flexíveis e fluidos. E essa é uma das coisas mais legais de encontrar a realidade.

Exemplo 3

Escrever um livro: quando eu decido escrever um livro, é interessante perceber quais são minhas expectativas. Eu tenho esse sonho de ser um escritor incrível, que impressiona as pessoas e muda vidas. Não só as pessoas ficarão impressionadas com a riqueza da minha escrita e a sabedoria presente nela, como me darão muito dinheiro, agradecidas. Eu vou acordar cedo, escrever como um louco, revisar e aperfeiçoar minhas palavras e então publicar em poucas semanas, triunfante.

Tenho certeza que você pode imaginar que a vida real joga um balde de água fria nesse meu sonho bem rápido. Quando eu começo a escrever, preciso, primeiro, lidar com o demônio da procrastinação. Eu fico querendo checar meu email, ler meus blogs favoritos, limpar a casa, fazer "pesquisas" (essas aspas não significam nada indecente - a pesquisa é só uma desculpa para ficar procurando coisas no google e adiar minha escrita). E então eu fico para trás no cronograma, perco meu entusiasmo no projeto e não aproveito tanto o momento de escrever como eu imaginava que iria. O sentimento é de trabalho pesado, não de êxtase.

Isso pode me enlouquecer, como já ocorreu no passado. Mas minha resposta é aceitar essa realidade, ver humor nisso (rir de mim mesmo por minhas expectativas absurdas), encontrar curiosidade no processo e procurar felicidade nos pequenos momentos de criação. Claro, as pessoas não se jogam aos meus pés idolatrando minha escrita, mas consigo me conectar com elas por meio do que eu escrevo. Eu me conecto com o meu "eu interior" desconhecido, com as palavras e com todos os outros escritores de uma forma que nem entendo completamente. Isso é fascinante, é algo que posso apreciar em um nível de detalhes que meus sonhos não conseguem alcançar.

A lição: esteja aberto

Como você pode ver, a realidade das mudanças de hábito não chegam nem perto de nossas idealizações. Quando nos deparamos com a realidade, nunca estamos muito preparados para ela. E para muitos (incluindo eu), isso pode ser decepcionante, frustrante e desesperador. 

Mas não precisa ser algo ruim. Se nós estivermos abertos à essa realidade diferente, em vez de rejeitá-la, podemos:

  • Aceitar essa nova realidade
  • Ter curiosidade
  • Encontrar gratidão nos pequenos detalhes
  • Encontrar felicidade nos pequenos detalhes
  • Ajustar nossos planos e aprender flexibilidade
  • Acolher a sensação de cansaço, dor ou a de um trabalho desagradável
  • Explorar a situação sem tentar prevê-la

É assim que podemos encarar a dura realidade das nossas mudanças. E isso pode ser magnífico.

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