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Vamos falar de inclusão?

Com o tema da redação do ENEM 2017, "Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil", abre-se uma grande discussão sobre a inclusão dos PCD (Pessoas com Deficiências) e o conhecimento que temos sobre este tema

Tema da redação do ENEM 2017:
"Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil"

Inclusão social é um tema extremamente atual, mas o que você ADULTO sabe a respeito dele para escrever sobre? E nossos JOVENS o que eles sabem?

Pois é, este é um tema que somente quem é da área (no caso, eu sou de RH) ou quem já vivenciou tem propriedade para falar.
Não é fácil entender o problema do outro sem vivenciar e é por isso que sou a favor da imersão.
Penso que escolas e empresas deveriam fazer seus alunos/colaboradores passarem por isso a fim de terem um melhor entendimento e, principalmente, respeito ao próximo.
Entendo que essa é uma educação que deveria sim vir da escola, já que nem sempre em casa nossos familiares possuem conhecimento dessa causa. Mas a escola pode se inteirar, pode (e deve) buscar entender e aproximar.

E aqui, aproveito o tema e conto uma história que marcou minha vida…

Lembro de quando eu dava aula, fui Normalista e lecionei por 3 anos com Educação Infantil. Essa foi minha primeira e amada profissão.

Certo dia me deparei com uma aluna de 4 anos surda, que foi levada à escola pela avó que me contara que os pais da criança eram surdos e mudos e que a criança era surda e as vezes falava…
Aquilo para mim foi um desafio, eu tinha 17 anos, uma turma de uns 15 alunos (não lembro bem) e uma aluna surda.
Me senti “encostada na parede”, como eu que ainda estava aprendendo poderia ensinar para uma aluna que não me ouvia? Como eu poderia fazê-la me entender?

Naquela época, 17 anos atrás, não se falava de inclusão, mas eu estava vivenciando aquilo, como educadora, não podia excluir uma aluna, precisava aceitá-la e saber lidar com aquilo que era novo para mim.

Corri para um curso de libras, mas eu precisava agir rápido, não tinha muito tempo para aprender técnicas, minhas aulas eram diárias, precisava da vivência e resolvi pedir que ela, “a aluna surda”, me ensinasse. Resolvi aprender com ela a linguagem que ela falava e através de atividades educativas, fomos nos comunicando. Fizemos um acordo, ao qual ela me ensinaria Libras e eu a ensinaria a falar, de forma verbal, da melhor maneira possível (como os pais eram surdos e mudos, ela pouco falava e quando falava, gritava muito, assim como seus pais faziam). Mas eu aprendia muito mais do que ensinava e ela lindamente ensinava a mim e a toda turma e todos passamos a falar verbalmente e simultaneamente através da linguagem de sinais. Mas o maior aprendizado ainda estava por vir…

Entre atividades e o cuidado com a turma, certa vez ouvi um dos meus alunos chamarem por ela e percebi que ela foi correndo ao encontro dele. Aquilo me intrigou e comecei a testar ela e a turma e então a chamei pelo nome e ela, que estava de costas, se virou na mesma hora para mim e eu comecei a chorar.

Ela veio correndo me abraçou e me deu um “beijinho de nariz” (conhecido como “Beijo de Esquimó”), como eu fazia com todos eles diariamente. Eu, muito que suavemente, perguntei se ela conseguia me ouvir e ela respondeu como sempre fazia, verbalizando e falando com as mãos, que sim.
Eu não conseguia parar de chorar e perguntei desde quando ela estava me ouvindo e ela disse que sempre me ouviu e foi então que descobri que ela não era surda, como a avó me dissera.

Como seu pai e sua mãe eram surdos e mudos e ela só começou na escola naquele ano, passou 4 anos de sua vida sem muitos contatos externos. Vivia em um meio e se adaptou a ele e entendeu que era igual aqueles com quem vivia.

Passado esse momento de descoberta, fui estimulando a fala e a audição, além de contar à avó e aos pais que ela não era surda.

Essa é uma história que marcou minha vida e todas as vezes que lembro me emociono. Queria poder encontrar essa criança, saber como foi seu crescimento e queria poder encontrar alguns dos outros alunos também e saber se aquela amiguinha marcou tanto a vida deles quanto marcou a minha. Se eu consegui ensinar a eles que deveríamos respeitar e nos adaptar ao mundo em que vivemos e que esse mundo é um só e tem espaço para todos, inclusive aqueles com deficiências. E para que isso aconteça, basta querermos nos colocar no lugar do outro, respeitando o tempo, o espaço e a deficiência de cada um e o nome disso é EMPATIA.

Ensinem seus filhos, ensinem seus alunos, ensinem seus colaboradores, ensinem a todos!

E já dizia o sábio Mahatma Gandhi… “Seja a mudança que você deseja ver no mundo”.

 

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Tags: Empatia Inclusão social O mundo é para todos PCD Pessoas com deficiência Redação Enem 2017 Respeito ao próximo

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