O anúncio do presidente Lula de que com “uma sucessão de naufrágios financeiros, é chegada a hora da política” está em andamento. A atenção que a mídia normalmente dedica a Wall Street agora se concentra nas discussões que ocorrem dentro do Congresso americano. No entanto, há aí uma presunção infundada. Só porque não se prestava tanta atenção à política, isso não significa que ela cochilava. Afinal, quando foi que o governo permitiu que o mercado imobiliário funcionasse livremente?
Alguns diriam: em 1968, quando a Fannie Mae foi privatizada, para que o governo americano pagasse as dívidas contraídas com a guerra do Vietnã. Mas a simples existência de uma companhia criada pelo governo para “aumentar o fluxo dos fundos de financiamento da casa própria” já deve ser questionada. Não será que a expansão dos investimentos imobiliários além do financeiramente responsável não contou com a participação de uma semi-estatal que considerava parte da sua missão expandir-se acima dos limites do mercado?
De fato, Fannie Mae e Freddie Mac, seu competidor também criado pelo governo, adicionavam um elemento estatal ao mercado imobiliário dos Estados Unidos: a garantia (então) implícita de que, no caso de fracasso, seus investimentos seriam resgatados pelo governo. O capitalismo é um sistema de lucros e perdas, e não caminha em linha reta se uma das pernas for substituída pela muleta estatal. Quando os lucros ficam com o investidor e os riscos de perda são garantidos pelos impostos, há mais incentivo para se arriscar além do que seria sensato.
Para que mais cidadãos pudessem realizar o sonho da casa própria, em 1995 o congresso americano autorizou e incentivou Fannie e Freddie a securitizar também as dívidas
subprime, de maior risco, o que permitia que pessoas com histórico de crédito ruim financiassem um imóvel. Mas boas intenções não bastam para justificar uma ação política. Apenas de 2004 a 2006, afirma o
Washington Post, “Fannie e Freddie compraram U$434 bilhões em títulos garantidos por empréstimos
subprime, criando um mercado para mais empréstimos desse tipo”. Quem se surpreenderia caso devedores com um histórico de descumprimento de suas obrigações em outras operações de crédito também deixassem de cumprir suas obrigações com uma dívida do tamanho de uma casa?
A complexidade dos esquemas de fluxos financeiros impediu muita gente de enxergar o problema. O economista Arnold Kling, que tem contribuído muito para a elucidação do que está ocorrendo, lembra que o mercado está nessa crise "em grande parte por causa da ignorância de finanças modernas por parte de altos executivos, burocratas e, claro, do congresso”. O que podemos esperar quando, completa Kling, “são essas pessoas que estão arquitetando o
bailout”?
Se os incentivos do governo em garantir riscos com o dinheiro dos pagadores de impostos são parte necessária do problema, provavelmente um plano de subsidiar investidores às custas dos pagadores de impostos não deveria fazer parte da solução. A oposição ao
bailout de grande parte dos americanos é perfeitamente compreensível. Como expressa
a carta assinada por 192 economistas:
”Investidores que assumiram riscos à espera de um lucro devem arcar com as perdas. Nem todo negócio fracassado implica em um risco sistêmico. O governo pode garantir uma indústria financeira funcional, capaz de fazer novos empréstimos para devedores com bons históricos de crédito, sem socorrer em particular investidores e instituições cujas decisões se mostraram errôneas”.
Como os acontecimentos históricos complexos se dão a
interpretações diversas, a lição da atual crise dificilmente será aprendida. Em vez de uma análise séria do intervencionismo no mercado financeiro, mais provavelmente prevalecerá a explicação de como, por causa do
bailout, o governo americano corrigiu uma gigantesca falha do mercado.
Por mais culpa que tenham os investidores financeiros, a crise não é produto do capitalismo
laissez-faire. O capitalismo não é Wall Street. Não se faz capitalismo no Capitólio. Benjamin Constant já advertia que aqueles investidores que "estão acostumados a especular sobre todas as coisas, não raramente vão especular sobre as próprias leis. Sem restrições, eles farão leis que favoreçam seus negócios, em vez de se contentar em assegurar que seus negócios desfrutem da segurança da lei”.
Se a crise está relacionada à promiscuidade das empresas com a política, que haja uma separação entre os dois, e não uma celebração bilionária do seu casamento. Lula, num típico exemplo do relógio quebrado, está certo quando afirma ser “inadmissível que os lucros dos especuladores sejam sempre privatizados e suas perdas invariavelmente socializadas”. Mas volta a estar errado no instante seguinte: “a economia é séria demais para ficar nas mãos dos especuladores”. Se a economia estivesse em suas mãos, os especuladores do mercado imobiliário não estariam em crise. A atual crise é prova de que o poder econômico é muito mais frágil que o poder político.
Enquanto os milionários de Wall Street pedem socorro, o poder político de Washington permite ao governo americano arriscar um pacote de U$700 bilhões sem se preocupar com o funil de seu próprio endividamento, cujo passivo com a previdência social é estimado em 99.2 trilhões de dólares. É para se fortalecer com essa contabilidade fantasiosa que os investidores estão cada vez mais dispostos a permitir que a política tenha um maior controle sobre a economia. E a economia é séria demais para ficar nas mãos dos políticos.