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A expansão do crédito

Rafaelle Ricardo,
 Uma das características fundamentais do comportamento humano consiste no fato de que as pessoas dão mais valor a um bem de que possam dispor no presente do que a um mesmo bem que só esteja disponível no futuro. Uma maçã que esteja disponível para consumo imediato tem um valor maior do que uma maçã que só estará disponível para consumo no próximo ano. E, por sua vez, uma maçã que estará disponível daqui um ano vale mais do que uma maçã que só estará disponível daqui a cinco anos. Numa economia de mercado essa diferença de valoração se apresenta sob a forma de um desconto a que os bens futuros estão sujeitos quando comparados com os bens presentes. Nas transações monetárias, esse desconto recebe a denominação de juro. O juro, portanto, não pode ser abolido. Para que não existisse seria necessário que as pessoas atribuíssem a uma casa que pode ser habitada imediatamente o mesmo valor que a uma casa que só terá condições de uso daqui a 10 anos. Juros não é uma característica apenas do sistema capitalista. Também numa sociedade socialista há que se considerar o fato de que um pão que só possa ser consumido daqui a um ano não pode satisfazer a fome de hoje. A origem dos juros não decorre de uma necessidade de equilibrar a oferta e a demanda por empréstimos existente no mercado. Ao contrário, a função do mercado de empréstimos, que no jargão comercial é denominado mercado financeiro (quando se trata de curto prazo) e mercado de capitais (quando se trata de longo prazo), consiste principalmente em ajustar as taxas de juros estabelecidas nas transações financeiras à diferença de valor entre os bens presentes e os bens futuros. Essa diferença é a verdadeira origem do juro. Um aumento na quantidade de moeda, por maior que seja não conseguirá, no longo prazo, influenciar a taxa de juros.


Nenhuma lei econômica é tão impopular quanto a que afirma que as taxas de juros, em longo prazo, independem da quantidade de moeda. A opinião pública é relutante em reconhecer que o juro é um fenômeno de mercado. Prefere considerá-lo como um mal, um obstáculo ao aumento de bem-estar e, portanto, como algo a ser eliminado ou pelo menos substancialmente reduzido. E assim, a expansão do crédito passa a ser considerada como um meio adequado para proporcionar "crédito barato".


É evidente que, em curto prazo, a expansão do crédito provoca uma redução na taxa de juros. No princípio, o crédito adicional faz com que a taxa de juros caia para um valor menor do que o que prevaleceria num mercado não-manipulado. Mas também é evidente que uma expansão do crédito, por maior que seja não conseguirá mudar a diferença de valor entre um bem futuro e um bem presente. No final das contas, a taxa de juros terá que retornar ao valor que corresponde a essa diferença de valor entre os bens. Cabe ao ramo da economia conhecido como teoria do ciclo econômico a tarefa de explicar e descrever como se dá esse processo de ajustamento. Para cada constelação de preços, salários e juros, existem projetos que não poderão ser levados adiante porque o cálculo de sua lucratividade torna evidente a sua inviabilidade econômica. O empresário não leva adiante o empreendimento porque, pelos seus cálculos, terá prejuízo e não lucro. Essa inviabilidade não é uma consequência de condições monetárias ou creditícias; decorre da escassez de materiais e mão-de-obra que estão sendo utilizados para atender a necessidades mais urgentes e, portanto, mais demandadas. A redução artificial da taxa de juros em virtude da expansão do crédito gera a falsa impressão de que esses empreendimentos, que até então eram considerados inviáveis, agora são lucrativos. O dinheiro fácil induz os empresários a levar adiante empreendimentos que não seriam sequer iniciados se prevalecesse a taxa de juros ainda não reduzida. Com dinheiro emprestado pelos bancos vão ao mercado, aumentando a demanda e cansando, assim, uma elevação dos salários e dos preços dos bens de produção. Se a expansão do crédito fosse interrompida, esse aumento da atividade econômica evidentemente entraria em colapso, porque os novos preços e salários tornariam inviáveis esses novos empreendimentos. Mas se os bancos continuam a expandir o crédito, continuando assim a viabilizar negócios inviáveis, a atividade econômica continua se expandindo. Mas essa situação não pode continuar indefinidamente. São duas alternativas: ou os bancos continuam a expandir o crédito, provocando assim um constante aumento de preços e uma crescente orgia especulativa, que, como em todos os casos de inflação desenfreada, termina numa "alta desastrosa" (crack-up boom) e no colapso do sistema monetário; ou os bancos param de expandir o crédito, antes que esse ponto seja atingido, produzindo assim uma crise econômica. Em ambos os casos a depressão é uma consequência inevitável. É óbvio que um mero expediente bancário como a expansão do crédito não pode criar mais bens e maior riqueza. Na realidade, o que a expansão do crédito consegue é introduzir uma fonte de erro nas avaliações empresariais. Os empresários passam a agir como se houvesse uma maior disponibilidade de bens de produção.


Como a quantidade disponível de bens de produção. Como a quantidade disponível de bens de produção. Como a quantidade disponível de bens de produção não é suficiente para atender a uma expansão da produção, essas iniciativas fracassam. Em consequência, algumas fábricas não podem funcionar por falta de instalações complementares; outras não chegam a ser concluídas; outras ainda não conseguem vender seus produtos, porque os consumidores não conseguem vender os seus produtos, porque os consumidores dão preferência a outros produtos mais urgentemente desejados, cuja demanda deixa de ser atendida porque a produção foi desviada de seu curso natural. O aumento da atividade econômica não é consequência de um excesso de investimento, e sim de investimentos malfeitos.


Frequentemente, contraditando essa conclusão, tem sido dito que ela seria verdadeira somente quando no início da expansão do crédito não houvesse nem capacidade ociosa e nem desemprego e que, portanto, havendo desemprego e capacidade ociosa as coisas seriam diferentes. Mas esse argumento é falho. O fato de uma parte da capacidade produtiva, que não pode ser utilizada para outros fins, não estar sendo utilizada é uma consequência de erros cometidos anteriormente. Investimentos foram errados; o mercado agora quer algo diferente do que pode ser produzido com o investimento já feito? A acumulação de estoques é especulação. O proprietário não quer vender os bens aos preços vigentes no mercado porque espera poder vendê-los mais tarde, por um preço maior. O desemprego também é uma forma de especulação. O trabalhador não quer mudar de atividade ou de localidade de trabalho e também não quer diminuir suas exigências salariais porque espera encontrar o emprego que deseja, no local que prefere e pelo salário que almeja. Tanto os proprietários de mercadorias como os desempregados se recusam a se ajustar às condições do mercado, porque esperam que ocorram mudanças que lhes sejam favoráveis.


Sua recusa em fazer os necessários ajustes impede que o sistema econômico possa atingir o "ponto de equilíbrio".



Mesmo não havendo expansão do crédito, pode haver fábricas que não estejam sendo plenamente utilizadas. Mas isso não afeta o mercado, da mesma forma que não o fato de existirem terras marginais não utilizadas.



Na opinião dos que defendem medidas de expansão do crédito, o crédito adicional assim gerado possibilitaria que a capacidade ociosa fosse plenamente utilizada, que a produção fosse vendida a preços considerados aceitáveis por seus donos e que os desempregados achassem um emprego com um salário que lhes fosse satisfatório. Essa é a visão subjacente a todas as propostas que, no fundo, implicam "imprimir moeda". Elas poderiam funcionar no caso dos desempregados e dos estoques encalhados sob duas condições: se os aumentos de preços provocados pela quantidade adicional de moeda e crédito ocorressem uniforme e simultaneamente, afetando igualmente todos os preços e salários, e se os proprietários dos excedentes de produção e os desempregados não reivindicassem salários e preços ainda maiores. Se essas condições forem obedecidas, a relação de troca entre esses bens e serviços e os outros bens e serviços mudaria da mesma maneira que teria que mudar caso não houvesse a expansão do crédito, qual seja, reduzindo os preços e salários que pretendiam obter a fim de conseguir encontrar quem comprasse as mercadorias e lhes oferecesse emprego. As coisas não se passariam de maneira diferente se no início desse aumento artificial da atividade econômica houvesse capacidade produtiva não-utilizada, estoques de mercadoria sem comprador e trabalhadores desempregados. Digamos, por exemplo, que estamos lidando com minas de cobre, estoques de cobre e trabalhadores em minas de cobre. O preço do cobre está num nível que impossibilita algumas minas a continuar operando lucrativamente; seus trabalhadores ficarão desempregados, se não quiserem tentar outra atividade; e os estoques de cobre só poderão ser vendidos se seus donos aceitarem um preço menor. Para que as minas voltassem a funcionar, os mineiros conseguissem manter os seus empregos e os estoques pudessem ser vendidos sem diminuir o preço, seria necessário que houvesse um aumento (p) nos bens de produção em geral que permitisse a expansão da produção como um todo de tal forma que, como consequência, houvesse um aumento no preço, nas vendas e na produção de cobre. Se esse aumento (p) não ocorreu, mas os empresários são levados a crer, por meio da expansão do crédito, que ele tenha ocorrido, os efeitos sobre o mercado de cobre serão, num primeiro momento, como se p tivesse ocorrido. Mas tudo o que já foi dito até aqui sobre os efeitos da expansão do crédito se aplica também nesse caso. A única diferença consiste no fato de que os investimentos equivocados, nesse nosso caso da indústria de cobre, não necessitam que capital e mão-de-obra sejam transferidos de outros setores da produção que são considerados mais importantes pelos consumidores. Mas isso se deve ao fato de que, nesse caso, a expansão de crédito fará seus efeitos sobre o capital e mão-de-obra, previamente mal alocados, e que ainda não foram ajustados pelo processo de correção natural decorrente do mecanismo de preços.


Fica assim evidente o verdadeiro significado dos argumentos invocando os inconvenientes de haver capacidade ociosa, estoques de mercadorias - incorretamente qualificados como não-vendáveis - e mão-de-obra não empregada. A expansão do crédito encontra esses remanescentes de investimentos anteriores malfeitos e aparentemente os "corrige". Na realidade, apenas perturba o funcionamento do processo de ajustamento. A existência de meios de produção não-utilizados não invalida as conclusões da teoria monetária do ciclo econômico. Os que são favoráveis à expansão do crédito se equivocam ao acreditar que, em havendo meios de produção ociosos, não recorrer à expansão do crédito perpetuaria a depressão. As medidas que propõem, em vez de perpetuar a prosperidade, seria uma permanente interferência no processo de ajustamento e de retorno às condições normais.


A única maneira plausível de explicar as mudanças cíclicas que ocorrem na economia e a teoria monetária do ciclo econômico. Mesmo os economistas que se recusam a reconhecer na teoria monetária uma explicação correta do ciclo econômico nunca tentaram negar a validade de suas conclusões sobre os efeitos da expansão do crédito. Na defesa de suas teorias sobre o ciclo econômico, que diferem da teoria monetária, são forçados a admitir que o aumento da atividade econômica não possa ocorrer sem que haja a expansão do crédito, e que o fim da expansão do crédito provoca a reversão do ciclo. Esses contestadores da teoria monetária, na realidade, limitam-se a afirmar que o aumento da atividade econômica não teria sido provocado pela expansão do crédito e sim por outros fatores, e que a expansão do crédito, sem qual não teria havido aumento da atividade econômica, não é fruto de uma política que visa a reduzir os juros e estimular investimentos, e sim algo que decorre de condições que deram origem ao aumento da atividade econômica sem que para isso contribuíssem os bancos ou as autoridades. Tem sido alegado que o que gera a expansão do crédito é o fato de os bancos não conseguirem aumentar as suas taxas de juros a um nível compatível com a taxa "natural". Também a esse argumento escapa a questão essencial da teoria monetária do ciclo econômico. É irrelevante  se essencial da teoria monetária do ciclo econômico. É irrelevante se a expansão do crédito foi deflagrada porque os bancos facilitaram as condições de crédito ou porque os bancos facilitaram as condições de crédito ou porque não conseguiram aumentar os juros de acordo com as novas condições do mercado. Decisivo é apenas o fato de que houve expansão do crédito porque existem instituições que consideram necessário influir no valor da taxa de juros pela concessão de crédito é uma medida necessária para provocar um aumento da atividade econômica, o qual, inevitavelmente, será acompanhado por uma crise e por uma depressão, terá que admitir que o meio mais seguro de um sistema econômico ser à

 

 

[Fritz] Machlup (The Stock Market, Credit and Capital Formation, London, 1940. p. 248) fala de "Inflacionismo passivo".


Se um banco não tiver condições de expandir o crédito, não terá condições de aumentar a atividade econômica mesmo que baixe a sua taxa de juros para um valor abaixo do de mercado. Estaria apenas sendo generoso com os seus devedores. A conclusão a ser extraída da teoria monetária do ciclo econômico em relação a medidas estabilizadoras não é a de que os bancos não deveriam baixar a taxa de juros, e sim a de que não deveriam expandir o crédito. Foi isso que [Gottfried] Haberlea (Properity and Depression, League os Nations. Geneva, 1939, p. 65) não entendeu e, portanto, suas críticas  são infundadas.

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prova de ciclos consiste em evitar a expansão do crédito. Mas, apesar de todos concordarem com a necessidade da adoção de medidas para suavizar os altos e baixos do ciclo econômico, medidas para evitar a expansão do crédito não são levadas em consideração. Pretende-se que seja possível programar uma política capaz de perpetuar o aumento da atividade econômica criado pela expansão do crédito e, ao mesmo tempo, evitar o colapso. As propostas elaboradas com o propósito de impedir a expansão do crédito são renegadas porque, supostamente, perpetuariam a depressão. Nada poderia ser uma evidência mais convincente da teoria que explica o ciclo econômico como uma decorrência de intervenções em favor do crédito barato do que a obstinada resistência em se abandonar as políticas favoráveis à expansão do crédito.


Só quem ignorar os fatos da história econômica contemporânea poderá negar que medidas pra reduzir a taxa de juros são consideradas desejáveis e que expansão do crédito é considerada como o meio mais eficaz para que esse objetivo seja atingido. O fato de que o funcionamento suave da economia e o desenvolvimento continuado sejam frequentemente perturbados por aumentos artificiais da atividade econômica e suas consequêntes depressões não são uma característica inerente à economia de mercado. É, ao contrário, a consequência inevitável de repetidas intervenções feitas com o propósito de propiciar empréstimos a juros baratos através da expansão do crédito.

fonte: aqui

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