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A IMPORTÂNCIA DOS ESTUDOS ORGANIZACIONAIS NO CONTEXTO DA GESTÃO DAS ORGANIZAÇÕES: TENDÊNCIAS E PERSPECTIVAS DE NOVOS PARADIGMAS

Gisele Seabra,

     As transformações no âmbito econômico, político e social desencadeadas pela “modernização instigada pelo despertar do capitalismo” em meados dos séculos XVIII e XIX criaram sustentáculos para a formação de corporações com a finalidade de organizar e controlar a produção em detrimento do modelo artesanal do trabalho, no qual o próprio trabalhador era livre para coordenar suas tarefas, visto que prescindia de estruturas hierarquizadas de comando (Mills, 1969).
       A constituição das corporações constituiu-se na progênie de questões dantes ignoradas, como os conflitos entre necessidades coletivas e individuais, controle de produção, produtividade e comunicação inter-pessoal. Á medida que tais questões surgiam, agravou-se proporcionalmente a complexidade gerencial, dessa forma, fomentou-se o desenvolvimento de capacidades administrativas capazes de reduzirem tal efeito (REED, 2006).
      Diante do exposto, torna-se possível compreender o desenvolvimento situacional da teoria organizacional, ou seja, cada teoria é legitimada e fundamentada predominantemente no contexto sócio-histórico de sua gênese em função de empreender soluções para dado problema. Conseqüentemente, quando aplicadas em outras situações, tais teorias tendem a apresentar lacunas ou diluem, a leigos olhos, suas argumentações noutro momento histórico.
      Apesar disso, não perdem sua importância ou mesmo objetivo, ao contrário, os estudos organizacionais (EOgs) mantêm sua razão de ser atemporal, consistindo em prover ferramentas, instrumentos de gestão e modelos que simplificam extratos da realidade organizacional a fim de munir os gestores de soluções empresariais concernentes ao acréscimo de desempenho em circunstâncias hodiernas incertas e de aumento de competitividade.
     As demandas administrativas variam conforme as ininterruptas transformações no âmbito dos negócios. Assim, ao longo das últimas décadas, surgiu o debate quanto à consistência da teoria das organizações (TO), com bases na ciência revolucionária khuniana, na qual os modelos existentes são expostos à crítica e reavaliação contínuas, podendo suscitar um processo de “desconstrução” e mudanças de paradigmas (BURREL, 2006).
     A teoria das organizações é apresentada como um campo de enfretamentos históricos e de abordagens situacionais que encontram receptividade contextual e intelectual em um dado momento (REED, 2006). Não obstante, embora estejam alicerçados em contextos únicos e divergirem, não se pode subjugar um modelo em detrimento de outros, pois os mesmos têm interseções e são preâmbulos ao surgimento de novas matrizes teóricas.
     Destarte, “o campo de estudos organizacionais é constituído enquanto prática intelectual dinâmica, permeada de controvérsias teóricas e conflitos ideológicos em torno da questão de como a organização pode e deve ser”, resultando em relações mutuamente exclusivas. De um lado o conservadorismo com a imposição paradigmática representada pela ortodoxia do “avançar a qualquer custo” (LAW apud REED, 2006, p. 89); do outro lado, o relativismo com a proliferação paradigmática sustentada pela assertiva de “deixar que brotem mil flores”.
      A despeito da controvérsia, não há pretensão em apontar um lado verdadeiro, pelo contrário, a intenção reside em corroborar para com o avanço do debate e suscitar a reflexividade e a crítica em meio a essa polaridade, criando-se um “elo indelével” entre os dois, bem como estímulo de novas contribuições ao campo organizacional (GIDDENS apud REED, 2006).
      Nesse sentido, a formação de novos paradigmas, na ciência moderna, provém da contestação do sistema de legitimação vigente e propõe modelos baseados em procedimentos científicos alternativos (ALBUQUERQUE, 2007). Partindo dessa perspectiva, seu processo constitutivo fundamenta-se em âmbito sócio-cultural amplo e prospectivo de modo a coadunar-se com as novas tendências. Em outras palavras, novas matrizes teóricas e epistemológicas emergem da antecipação de fenômenos sociais por meio de cenários.
     O quadro atual, com a globalização das economias de mercado e subseqüentemente das empresas e seus produtos, a crescente inquietação com questões sócio-ambientais, o desafio na intencionalidade, muitas vezes vista como antagônica, de progresso e sustentabilidade, a fluidez de fronteiras dos diferentes saberes, o avanço tecno-científico e suas implicações, dentre outros fatores, serve de cômpito para aludir tendências impactantes nos EOgs.
      A globalização de mercados implica em aspectos econômicos, políticos, legais, sociais e culturais com efeitos revolucionários na vida e no trabalho, produzindo tendência mundial de homogeneidade e uniformidade (PARKER, 2006; IANNI, 2007). Porém, um obstáculo ainda presente concerne a replicabilidade de modelos em contextos distintos. Portanto, em face ao exposto, cabe aos estudiosos organizacionais o desenvolvimento de paradigmas representativos dentro dessa nova economia.
     Em conseqüência, a competitividade tende a exacerbar-se, impulsionado movimentos prioritários em criatividade e inovação, que em busca de vantagens competitivas, desencadeiam novos parâmetros administrativos, tornando-os, posteriormente, requisitos essenciais.
      A exigência advinda da sociedade contemporânea surge primeiramente como parte de uma consciência coletiva aguçada por relatórios mundiais com previsões catastróficas ao meio ambiente. Em seguida, há inclinação de acordos e normas legais a práticas socialmente responsáveis tanto com o meio externo, quanto com interno, a despeito do caminho de precarização seguido pelas relações trabalhistas (KREMER; FARIA, 2005) com a individualização, a flexibilização oriunda da desregulamentação dos direitos e das condições de trabalho, como a emergente CLT Flex.
      Desse modo, confere-se aos EOgs a incumbência de soluções factíveis, considerando ao mesmo tempo objetivos de aumento de resultados lucrativos e desenvolvimento auto-sustentável, respeitando as dimensões sociais, econômicas, políticas, territoriais e ambientais (SACHS, 2004).
      A partir disso, tem-se a aproximação entre a teoria e o mercado, ou seja, a teoria e prática por meio da consulta empresarial no meio acadêmico em busca de soluções, derrubando entraves comunicativos nas intermediações intelectuais e simultaneamente propiciando a evolução das correntes de pesquisa ao conceder espaço a metodologias como à pesquisa ação.
     Além disso, desde a teoria geral dos sistemas, o pensamento expansionista aufere méritos, proporcionando o aumento do escopo promovido pela pluridiversidade paradigmática e a interdisciplinaridade na resolução de questões no âmbito dos negócios. O avanço científico em campos como psicologia, medicina e biologia, por exemplo, podem influenciar decisões na contratação de profissionais no futuro. O projeto do genoma humano pode identificar no mapeamento do código genético a predisposição a doenças como câncer, alcoolismo, diabetes e hipertensão, para citar algumas. De modo similar, a neurociência pode ceder indicativos comportamentais e de motivação. Por conseguinte, questões éticas devem tornar-se imprescindíveis.
       A suscetibilidade as idiossincrasias recebe igual valor, especialmente no tocante a diferenças etárias e de gênero. O avanço na área médica, anteriormente mencionado, proporciona o aumento da expectativa de vida e prolonga a carreira profissional do indivíduo, surgindo, dentre outras, a seguinte problemática: em termos de decisões estratégicas, quais as vantagens inerentes aos jovens ou aos mais experientes?
       A diversidade de gênero ainda corrobora em processos segregatícios, contudo, tem-se gradativamente a ampliação do espaço destinado à mulher no mercado de trabalho em níveis hierárquicos caracteristicamente ocupados por homens, estimulando a reconsideração da assertiva cognitiva dominante quanto às capacidades gerenciais (CALÁS; SMIRCICH, 2006). Assim, surge outra questão a ser abrangida por novos produtos intelectuais de estudos organizacionais: as diferenças de gênero podem influenciar na construção de perfis profissionais por cargos?


REFERÊNCIAS

ALBUQUERQUE, L. M. B. de. Novos Paradigmas, Antigos Saberes. Disponível em:< http: //www.antropologia.com.br/arti/colab/a6-lalbuquerque.pdf>. Acesso em 04 de abril. 2007.
BURREL, G. Ciência Normal, Paradigmas, Metáforas, Discursos e Genealogia da Análise. in:CLEGG, S.; HARDY, C.; NORD, W. (Org.). Handbook de Estudos Organizacionais. São Paulo: Atlas, 2006, v. 1, capítulo 17.
CALÁS, M. B.; SMIRCICH, L. Do Ponto de Vista da Mulher: abordagens feministas em estudos organizacionais. in:CLEGG, S.; HARDY, C.; NORD, W. (Org.). Handbook de Estudos Organizacionais. São Paulo: Atlas, 2006, v. 1, capítulo 10.
IANNI, O. Globalização: novo paradigma das ciências sociais. Disponível em:< http://www. scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40141994000200009>. Acesso em 25 de fevereiro. 2007.
KREMER, A.; FARIA, J. H. Reestruturação Produtiva e Precarização do Trabalho: o mundo do trabalho em transformação. Revista de Administração. São Paulo, v. 40, n. 3, p. 266-279.
MILLS, W. C. A Nova Classe Média. Rio de Janeiro: Zahar, 1969.
PARKER, B. Evolução e Revolução: da internacionalização à globalização. in:CLEGG, S.; HARDY, C.; NORD, W. (Org.). Handbook de Estudos Organizacionais. São Paulo: Atlas, 2006, v. 1, capítulo 15.
REED, M. Teorização Organizacional: um campo historicamente contestado. in:CLEGG, S.; HARDY, C.; NORD, W. (Org.). Handbook de Estudos Organizacionais. São Paulo: Atlas, 2006, v. 1, capítulo 1.
SACHS, I. Desenvolvimento Includente Sustentável Sustentado. Rio de Janeiro: Garamond, 2004.

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Tags: e estudos organizacionais paradigmas