Ajuste fiscal: impacto significativo mas com percepção diluída

A única maneira para descrever os resultados do ajuste fiscal no momento é: em termos numéricos, insignificante. Já o efeito moral na economia, talvez algo com impacto significativo mas com percepção diluída

A promessa do ex-vice-presidente, dos Estados Unidos, Al Gore de reinventar o governo, proclamada com grande alarde no primeiro ano da gestão Clinton, produziu somente um bocejo nacional (a promessa semelhante, feita “Contrato com a América” dos republicanos no ano anterior, não teve inicialmente uma resposta melhor). Desde então, não tem havido falta de publicidade a respeito da iniciativa de Gore. Notas sucessivas à imprensa têm anunciado a reinvenção de agências ou programas; grandes conferências, uma delas presidida pelo próprio Clinton, têm sido realizadas, além de muitas aparições na televisão. De todos os programas domésticos do governo Clinton, este foi um no ual hoouve resultados e não apenas discursos. Contudo, nem o público nem a imprensa mostrou, à época, muito interesse. E as eleições que reconduziram o seu governo a um segundo mandato dificilmente poderiam ter sido consideradas um voto de confiança no desempenho da administração na reinvenção do governo.


Há boas razões para isso. Em qualquer instituição fora do governo federal, as mudanças que estão sendo alardeadas nem mesmo seriam anunciadas, esceto talvez no quadro de avisos do corredor. Elas são coisas do tipo que um hospital espera que suas enfermeiras façam por conta própria, que um banco espera que os gerentes de agências façam por si só e que até mesmo uma fábrica mal dirigida espera de seus supervisores – sem muitos elogios, nem recompensas extras.


Seguem alguns exemplos – infelizmente, bastante típicos:


1) Em Atlanta, Geórgia, seis programas diferentes de bem-estar social, cada um deles com escritório e pessoal próprios, foram consolidados para prestar serviços “de uma só parada”. O programa reinventado está atendendo aos telefonemas da primeira chamada, tão pequeno é o interesse despertado;


2) Em Ogden, Utah, e Oakland, Califórnia, entre outros locais, o IRS (equivalente à Receita Federal do Brasil – RFB) também está experimentando tratar os contribuintes como clientes e com serviços centralizados, nos quais cada funcionário, ao invés de mandar contribuições de uma repartição à outra, dispõe de informações para responder às suas perguntas;


3) E Export-Import Bank foi reinventado. Espera-se agora que ele faça aquilo para o que foi instituído há oitenta anos: ajudar pequenas empresas a obter financiamentos para exportação;


4) O escritório de Pesquisa Geológica em Denver existe para vender mapas dos Estados Unidos ao público. Mas é quase impossível descobrir quais mapas pedir e como pedi-los, uma vez que o catálogo está cuidadosamente oculto; O próprio fato de um mapa estar sendo procurado pelo público praticamente garante que não será possível obtê-lo. Ele não pode ser reimpresso simplesmente porque o público quer comprá-lo; outra agência do governo precisa pedi-lo para uso interno. Portanto, se um mapa vende bem, esgota-se imediatamente. Além disso, o depósito é tão mal iluminado que quando chega um pedido para mapa, os funcionários não conseguem achá-lo. A força-tarefa criada para reinventar tudo isso, pelo menos sete meses depois, o máximo que conseguiu foi iluminar melhor o depósito e efetuar algumas pequenas melhorias.


Todavia, para o futuro estão sendo prometidas realizações mais ambiciosas:


1) O Departamento de Agricultura propõe reduzir suas agências de quarenta e duas para trinta, fechar mais de mil escritórios de campo e eliminar onze mil empregos, economizando cerca de três bilhões e seiscentos milhões de dólares em cinco anos;


2) Das trezentas e oitenta e quatro maneiras recomendadas para reinventar o governo identificadas pelo vece-presidente americano em mil novecentos e noventa e três, cerca de metade estava sendo propostas no orçamento para o ano fiscal de mil novecentos e noventa e cinco. Se todas as recomendações tivessem sido aceitas pelo Congresso, deveriam ter resultado em economias de doze bilhões e quinhentos milhões de dólares no dois anos que se seguiram.


No entanto, nem o enxugamento do Departamento de Agricultura nem as trezentas e oitenta e quatro recomendações do então vice-presidente eram novidades. Sabe-se há muito que grande parte dos escritórios agrícolas estão em cidades e subúrbios, onde não há mais agricuotores. Seu fechamento foi inicialmente proposto no governo Eisenhower. A maioria das recomendações de Gore, foi feita há trinta anos, no relatório Grace, durante o governo Reagan.


Também não era certo se todas aquelas propostas e recomendações iriam se tornar leis. Mike Epsy anunciou grandes cortes no inchad Departamento de Agricultura em seis de dezembro de mil novecentos e noventa e quatro, mas se demitiu em trinta e um de dezembro, e nada garantia que haveria alguém na chefia do Departamento empenhado naquelas mudanças.


Mesmo se todas aquelas propostas tivessem sido aprovadas, os resultados teriam sido triviais. A econoomia que o Departamento de Agricultura propôs, de três bilhões e seiscentos milhões de dólares em cinco anos, significaria setecentos e veinte milhões de dólares por ano – cerca de um por cento do orçamento anual do Departamento de quase setenta bilhões. Uma economia de doze bilhões e quinhentos milhões de dólares parecia grande, mas em dois anos o governo federal gasta três trilhões de dólares. Assim, uma economia anual de seis bilhões de dólares – e isto estava muito acima daquilo que o Congresso estava disposto a aceitar – não passaria de um corte de dois décimos de um ponto percentual do orçamento. Certamente, a única maneira para descrever os resultados dos esforços de Gore até aquele momento era como o velho refrão latino: “A montanha pariu um rato”. Ou seja, em termos numéricos, algo insignificante. Já em termos de efeito moral na economia a longo prazo e não verificável no momento, talvez algo com impacto significativo mas com percepção diluída. Outras informações sobre o tema podem ser obtidas no livro Administrando em tempos de grandes mundanças de autoria de Peter F. Drucker.

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Tags: ajuste drucker economia fiscal gama gore impacto

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