Brad Pitt vai fazer você gostar de finanças

Como fazer uma história em que os mocinhos usam planilhas para vencer, sem fazer a plateia entrar em um sono coletivo?

Lembro até hoje da primeira vez em que entendi o que estava acontecendo em 2008. Eu estava em uma conferência e, longe da sala principal, um sujeito barbudo com uma pilha de títulos acadêmicos falava para meia dúzia de gatos pingados que se aventuravam em uma palestra que tinha como resumo palavras como “derivativos" e “riscos sistêmicos”.

Alguns anos depois, fizeram um filme sobre o tema. E botaram o Brad Pitt nele. Confesso que quando soube fiquei um pouco desconfiado. Afinal, o tema trata de coisas bizarras como “Credit Default Swaps”, “posições sintéticas” e outras “tecnicalidades”. Some a isso a velha linha de Hollywood, em que as empresas sempre são organizações malvadas e é preciso que um mocinho entre atirando para nos salvar delas. Como fazer uma história em que os mocinhos usam planilhas para vencer, sem fazer a plateia entrar em um sono coletivo?

A Grande Aposta é um trabalho de ficção. Há uma grande diferença entre dizer que algo é realidade e dizer que algo é “baseado em fatos reais”. No mundo real, operadores de bolsa não se parecem com o Brad Pitt e um dos pais das finanças comportamentais não se junta a uma celebridade global para explicar termos complicados para você. Se você quer saber como realmente as coisas aconteceram, há dezenas de livros e artigos técnicos que podem explicar em detalhes como a crise de 2008 começou e se desenrolou.

O filme é genial não por contar a história, nem por dar a visão definitiva da crise, mas por fazer isso de uma forma leve e divertida. Quantas vezes você imaginou que seria possível sair do cinema após uma noite bacana dizendo “Finalmente aprendi o que é um derivativo”?

Há várias lições que podemos tirar do filme. Do valor de aprender a remar contra a maré e manter sua posição quando o mundo todo acha que você está errado à falta de romance e carinho que o mundo real oferece quando você rema contra a maré (se tem algo que o mundo real ensina é que não há nada de confortável em ser original). De ter pelo menos alguma noção do que aconteceu nos EUA em 2008, e sentir um certo medo ao saber que, se na crise deles o contribuinte acabou pagando a conta, pensar na mesma coisa acontecendo por aqui.

De todos os aprendizados que você pode ter com o filme, o melhor de todos é esse: como contar uma boa história.

Todos já passamos por aulas chatas. Todos já lemos um livro porque fomos obrigados ou aguentamos aquela reunião que dá vontade de cortar os pulsos só porque o chefe está ali e somos obrigados a participar. Se tem algo que costumo ouvir, com certa frequência, é que alguns temas são difíceis demais para serem explicados de forma clara.

Esse filme prova o contrário. Vá ver esse filme. E lembre do que assistiu toda vez que você se pegar pensando "Como explico isso”.

 

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