Como ir de 45% a 192% de rendimento sem fazer esforço

E o que isso significa para seus investimentos

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Muitos dos problemas mais interessantes são aqueles que parecem simples: como saber se algo é um bom investimento?

Uma forma bem popular é olhar o desempenho histórico de tal ativo. Se determinado investimento dá 6% ao ano de forma estável, os analistas vão começar a falar sobre como aquele ativo é tranquilo e conservador. Por outro lado, se outro investimento der 10% ao ano com grande variações ao longo do caminho, tal opção vai ser vista como “agressiva”.

Não faltam matérias sobre qual o melhor investimento. Qual “deu” mais, qual menos, etc. Não falta gente para oferecer conselhos de qual o melhor investimento. Isso, é claro, se você pagar uma tarifa amiga, comprar aquele curso, assistir a uma palestra…

Uma grande dúvida ao olhar a rentabilidade passada, algo que faz até os acadêmicos mais sérios quebrarem a cabeça, é saber qual o melhor período de análise. A maioria das pessoas concorda que olhar um ano para trás, como aquelas matérias de “melhor investimento do ano” é um prazo muito curto. O que é melhor, então? Cinco anos? Dez? Cem?

Uma métrica bastante usada são os últimos dez anos. Não só porque uma década já parece bastante tempo, mas intuitivamente parece um período de tempo para olhar para algo e tirar alguma conclusão a respeito.

Vamos ao caso do nosso título. Se, há dez anos, em janeiro de 2008, você resolveu comprar um fundo de ações que acompanha o índice Ibovespa (o tipo de fundo que você deveria comprar), seu fundo rendeu pouco mais de 45%. “Pouco", você pode dizer, levando em conta que teve que abrir mão de seu dinheiro por 10 anos para chegar a isso. Ainda assim, lembre-se: seu dinheiro sobreviveu à crise global de 2008 e à nossa crise, que se arrasta já faz alguns anos. (estou usando o fundo PIBB para comparação, um dos mais tradicionais).

E aqui está o ponto em que quero chegar. Neste ano, chegamos ao aniversário de 10 anos do “fundo do poço”. E algo bem interessante vai acontecer: a partir de novembro de 2018, vamos ter virado a página da maior queda da bolsa dos últimos tempos. Se você tivesse uma bola de cristal em 2008 e tivesse esperado de janeiro para o fim de outubro, sua rentabilidade seria de 192%.

É fácil ver o porquê. Apagando o “fundo do poço”, tudo que vem depois é lindo.

E é aqui que você, leitor, vai ter que tomar muito cuidado. Quando virarmos a página dos dez anos, de repente a rentabilidade histórica da bolsa vai parecer muito mais alta. Vão surgir matérias sobre os “rendimentos nos últimos 10 anos”. Com certeza gurus e outros bacanas vão querer tomar algum crédito, dizendo que as pessoas que seguiram seus conselhos tiveram 200% de rendimento.

Tudo ilusão, querido leitor. Claro, vai ser verdade que nos últimos 10 anos a coisa foi boa. Também vai ser verdade que mudando a lente um pouco mais para trás, a história muda completamente.

A lição que fica é simples. Mesmo algo que parece simples, como a rentabilidade de um investimento, pode esconder informações importantes. Quem quer te vender algo sempre vai usar essas informações contra você. É assim que se vendem as ondas dos imóveis, de ações, de “investimentos alternativos”.

Não se esqueça: como investidor, seu papel é ter um plano, e seguir o plano. Viver perseguindo o investimento que “deu mais" nos últimos tempos é um jogo em que só se pode perder. Até porque até a definição do que é “últimos tempos” pode trazer uma pegadinha.

Lembre-se disso quando começarem a surgir notícias sobre os ótimos 10 anos que se passaram na bolsa. Ou em qualquer outra coisa.

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