Crise: A primeira década perdida

A crise no balanço de pagamentos, iniciada em 1980, apresentou-se de forma mais aguda e mais ampla do que se supunha na época. Revelou-se, de fato, a decadência do modelo de crescimento baseado no endividamento externo e levou a economia brasileira a ingressar num ciclo marcado por oscilações

Cláudio Márcio,

Tais oscilações no Produto Interno Bruto- PIB foram tão abruptas que entre 1981 e 1990, o período ficou conhecido como década perdida- e não seria a única. Em grande parte, a crise foi provocada pela dificuldade de a economia local se adaptar às novas exigências da economia mundial, notadamente no que diz respeito ao novo ambiente internacional, influenciado pelo avanço político-ideológico do neoliberalismo, rápida inovação tecnológica e crescente papel do setor financeiro.


Com os equívocos da política econômica dos governo militares, a crise dos anos 80 se abateu sobre todos os países da América Latina, evidenciando tanto um problema pontual e local quando um problema de caráter estrutural, reflexo das transformações operadas no interior do próprio sistema capitalista mundial.


Dentre os problemas que podem ser levantados, merece destaque a administração da dívida externa brasileira, que durante aquela década absorveu recursos de aproximadamente 8% do PIB ao ano, e por conta disso, acarretou repercussões negativas em diversos níveis da economia local, tanto no nível dos gastos públicos, das taxas de inflação e da taxa de investimentos quanto da produtividde geral da indústria brasileira. Após uma década de elevados e contínuos índices de crescimento do PIB (70-80), os anos 80 foram caracterizados por bruscas oscilações do PIB, pelo estacionamento da renda percapita, pela expolosãoi das taxas de inflação e pro fracassados planos econômicos que não conseguiram debelar o surto inflacionário.


A opção dos formuladores da política econômica do Brsil durante a década de 70 foi a de manter o crescimento do PIB à custa da deterioração das contas externas do país. O processo de endividamento tornou-se a solução mais fácil para obter equilíbrio de curto prazo no balanço de pagamentos e a continuidade de uma política de assegurr um poder de compra fictício no exterior. Viu-se que tal diretriz obteve a boa vontade dos bancos e países emprestadores. De forma geral, esse caminho foi enveredado pelo chamado Terceiro Mundo. A premissa de submeter tais empréstimos a taxas de juros flutuantes não pareceu incomodar os governos que espressaram gestões financeiras ineficientes. O Brasil foi um dos países que mais se endividaram nos esquemas dos eurodólares e petrodólares, formando a maior dívida externa dos países em desenvolvimento.


Ao fugir da crise cíclica de 73, o país endividou-se mais e sempre, até que a crise de 79 lhe cerceasse o próprio crédito- a possibilidde de tomar novos empréstimos- nos mercados financeiros. Desde ali, toda a organização gernecial pública nos anos 80 girou em torno da dívida externa e dos meios para administrá-la.


Na verdade, o processo de endividamento tornou necessária a adoção de políticas flexíveis na gerência do mercado de capitais, aumentanto para o país devedor sua tolerância e apetite por capital especualdor em curto prazo, o chamado smart money. Para esse tipo de capital, ofereciam-se taxas especialmente altas de remuneração, como garantia para que preferissem um mercado de capitais terceiro-mundista, e não um concorrente metropolitano. Essa política funcionaria muito bem não fosse o caráter especulador de tais capitais em curto prazo. Bastaria uma brusca retirada de um montante significativo desses fundos para que as contas externas se tornassem impossíveis de administrar.

Foi isso que se deu com o mèxico, em julho-agosto de 82, e em seguida com o Brasil, gerando o quadro sinistro das moratórias da dívida externa nos anos 80. Instalou-se a crise mundial de crédito. A dívida dos países pobres com as metrópoles financeiras multiplicou-se por três em seis anos (76-82), alcançando US$ 626 bi. A vinda à tona da crise financeira do México, após dez anos de lenta agonia, colocava para o Brasil a perspectiva de que seria necessário um dia liquidar muitos ativos e rebaixar o nível de riqueza alcançado por um endividamento mal planejado. Ali já estava desenhada a entrega das empresas públicas na década seguinte.


De fato, os países menos industrializados viram-se submetidos a um duplo movimento de reciclagem: do déficit provocado por suas importações e a provocada pelo seu déficit de comércio. Esse últimos, por intermédio da elevação do preço dos produtos industriais e da rebaixa dos preços de matérias-primas e semi-acabados-  exceto petróleo, repessaram os seus eventuais déficits para os países do Terceiro Mundo, numa verdadeira reciclagem econômica. O petróleo seguiria o mesmo caminho do reenquadramento metropolitano, porém a ritmo mais lento, devido à presença de uma finança árabe que se tornara sócia das metrópoles.


Quando aconteceu a chamada crise do petróleo (73-74), era evidente que os dias áureos do endividamento externo para financiar o crescimento econômico pelos países menos industrializados não poderia continuar. No entanto, na primeira crise do petróleo (73-74), os países industriais tomaram o caminho de inflacionar o mercado, para recompensar o sequestro temporário de moeda pelos países da Organização dos Países Exportadores de Petróleo- Opep. Esta decisão tornou possível a formação da oferta financeira de petrodólares no Euromercado, para continuar aquela política de endividamento. Contudo, na segunda crise do petróleo (79-80), ocaminho adotado pelos países industriais doi o da defalção, o que inviabilizou a continuidade de reciclagem financeira, apesar das taxas de juros flutuantes.


O desempenho da economia brasileira, durante a década de 80, por conta da crise externa, foi decepcionante. As taxas de crescimento do PIB apresentaram uma tendência declinante. Em 80, último ano da expansão, a taxa de crescimento situou-se em 10,2%. Já em 81, esse percentual recuaria para 4,3% negativos. A recessão somente foi interrompida em meados da década (84-85). Verificaram-se grandes superávits comerciais e, em 86, foi lançado o Plano Cruzado, que gerou um clima de euforia no país e a falsa percepção de que os problemas decorrentes da administração da dívida haviam sido superados.  A derrocada do Plano Cruzado levou o país a um novo ciclo recessivo. Os Planos Bresser (87) e Verão (89) não conseguiram frear a crise e tampouco o processo inflacionário.


Grande parte do desempenho errático da economia brasileira pode ser atribuído à drenagem de recursos, ocorrida por conta de amortizações e do pagamento de juros da dívida externa. Entre 82 e 89, o desembolso anual de pagamento de juros e amortizações da dívida externa brasileira se situou acima de 8% do PIB, mais que o dobro daquele verificado no período precedente. Caha a ateção também o fato de, no período 70-90, o país ter desembolsado US$ 276 bi de juros e amostizações e, ainda assim, a dívida externa bruta situar-se em US$ 123 bi. Desse total desembolsado, US$ 236 bi foram pagos entre 80 e 90.

 

Para fazer frente a esses desembolsos, as políticas de comércio exterior, executadas na maior parte do anos 80, trataram de criar enormes superávits. A partir de 82, iniciou-se o processo de construção de expressivos saldos na balança comercial. Esse movimento foi contido somente em 86, por conta do Plano Cruzado e de quebras no setor agrícola. Nota-se também a queda acentuada das importações, entre 80 e 85, cuja aplicação principal é a contração do consumo interno e a maturação de alguns projetos de investimentos iniciados durante a década de 70. Já em 89, após uma certa estabilidade, entre 85 e 88, observa-se uma elevação das importações. Isso se deve ao fato de o governo Sarney, em 88, ter dado início à abertura comercial brasileira, por meio das compras externas.


Já do ponnto de vista do balanço de pagamentos, verifica-se que o desempenho negativo das transações correntes, apresentado na década de 70, foi parcialmente revertido nos anos de 80, quando o superávit comercial foi expressivo. Isso se refletiu na diminuição do ritmo de crescimento da dívida externa. Por outro lado, a conta de capital manteve-se positiva, mesmo com a crise internacional de crédito, em grande parte causada por causa da elevação das taxas internas de juros ao atrair o capital de risco. Mais uma vez, no ano de 86, apresentou-se um resultado atípico, como na balança comercial. A recesão iniciada após o fracdasso do Plano Bresser, em 1987, levou à contração do mercado interno e ao aumento do saldo da balança comercial, contribuindo para a melhora das transações correntes.


Antes de ser um organismo multilateral, o Fundo Monetário Internacional- FMI revelou-se um instrumento dos países ricos para forçar os países periféricos a se enquadrarem nas condições nacroeconômicas adequadas à liberalização da economia. Seu receituário de ajuste, portanto, procurava anestesiar o paciente, de forma a torná-lo mais dócil do que efetivamente condicioná-lo para enfrentar melhor as distorções da economia mundial. O FMI teve um papel proeminente. No caso específico do Brasil, o goerno recorreu ao auxílio do FMI em novembro de 82, logo após, portanto, a divulgação dos resultados da eleição de 82. Começava-se ali uma longa série de negociações, inspeções, assinaturas de cartas de intenções, etc. Durante toda a décda de 80, o FMI esteve rondando a economia brasileira, impondo o seu remédio amargo.


Em princípio, a política do FMI foi a de aceitar as cartas de intenções, em que o Brasil se comprometia a ajustar a economia por meio da redução do déficit público, da eliminação de subsídios e da eetivação das desvalorizações cambiais necessárias para o incentivo de exportações. Entretanto, as autoridades brasileiras iam empurrando o problema com a barriga, acatando uma ou outra diretriz do FMI.


Não obstante, após a assinatura da primeira carta de intençoes, o governo brasileiro começou o tortuoso processo de submissão aos ditames dos credores internacionais. Apesar das ações de resistência por parte de alguns ministros da Fazenda, a estratégia dos credores foi vencedora. Ao submeter as estratégias de cresciemnto do país ao pagamento de juros, a economia brasileira priorizou a construção de superávits comerciais. Como consequência direta dessa política, o Brasil e a maior parte dos países da América Latina enfrentaram o mais longo ciclo inflacionário até então registrado.


Após um período de resistência, compreendido ente 81 e 83, o impacto da moratória mexicana- sentido em outros países latino-americanos, que passaram por situação similar- pôs fim às ilusões de se continuar adotando políticas de crescimento e de se adiar o ajuste das contas internas pelas externas. As políticas econômicas praticadas pelo governo do general João Baptista de Oliveria Figueiredo, de forma geral, pautaram-se pela ortodoxia. O Brasil passou a ter sua economia monitora da pelo FMI, por meio de cartas de inteções (83-84), em que eram estipuladas metas de inflação, gastos públicos e, até mesmo, reajustes salariais. Tais medidas restritivas implicavam corte de subsídios, de investimentos públicos e dos consumo das famílias (por meio de controle dos salários). No entanto, por mais duras que fossem, elas não conseguiriam arrefecer a inflação.


Além disso, a falta de ligitimidade do governo, que, a partir de 1983, passou a sofrer oposição interna, impossibilitou a criação de um ambiente favorável para enfrentar a crise econômica de forma mais eficiente. A vitória de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, em janeiro de 85, teoricamente contribuiria para a criação de um contexto de maior confiança. No entanto, antes da posse, o presidente eleito faleceu. Em seu lugar, tomou posse o vice, José Sarney.


A repentina posse de Sarney inaugurou a chamada Nova República, que, no entanto, não conseguiu solucionar o problema da dívida externa e anida legou para o governo seguinte o processo hiperinflacionário. A adoção de sucessivos pacotes heterodoxos, como os planos Cruzado, Cruzado II, Bresser e VErão, além de desgstar os instrumentos de política econômica, evidenciou a ineficácia da abordagem aparentemente heterodoxa.


Entre 85 e 90, os brasileiros conviveram com quatro moedas diferentes. Até fevereiro de 86, era o Cruzeiro. De fevereiro de 86 a janeiro de 89, foi o Cruzado. De janeiro de 89 a março de 90, conviveram com o Cruzado Novo. Já em março de 90, sob o governo Collor, reinstituiu-se o Cruzeiro. As mudanças monetárias refletiram o fracasso de vários planos econômicos em tentativa de controlar a inflação. Um cafezinho que, em fevereiro de 85, custava Cr$ 500, caso não ocorressem as reformas monetárias, custaria, em fevereiro de 90, aproximadamente Cr$ 500 mi. A inflação e os planos econômicos, no entanto, não pararam por aí.


Da análise da evolução dos índices de inflação segundo o Indice de Preços ao Consumidor Amplo- IPCA, que atualmente é utilizado para cálculo da inflação, pode-se depreender claramente os momentos em que ocorreram os choques monetários e as mudanças monetárias. Em março de 86, constata-se a desaceleração da inflação com o Plano Cruzado. Em junho de 87, verifica-se nova desaceleração com o Plano Bresser. Em fevereiro de 89, nota-se o efeito do Plano Verão e o consequente processo hiperinflacionário dele decorrente. Em abril de 90, acontece nova desaceleração, dessa vez pela implementação do Plano Collor. Dessa série pode-se concluir que a inflação dentedeu ao descontrole a partir de 85. A desaceleração somente era obtida pelo congelamento de preços e salários. No momento em que eles voltavam a flutuar, ocorria um novo descontrole.


Durante 1985, a política econômica, sob a gestão de Francisco Dorneles no Mnistério da Fazenda, não diferiu muito daquela verificada no governo anterior. O ministro, que foi indicado pelo presidente Sarney, alinhou-se desde o primeiro momento com o FMI, procurando evitar os atritos e aplicar os arrochos possíveis nas áreas monetária, fiscal e salarial. Embora o Brasil tivesse obtido consideráveis ganhos na balança comercial, particularemnte em 84 e 85, a política de Dornelles ignorou a necessidade de menter investimentos expansivos, contribuindo para a reversão 86-87. O ministro concentrou-se no objetivo, aliás alcançado, de baixar a inflação, deixando em segundo plano as medidas de apoio ao crescimento do saldo comercial exterior. O forte desalinhamento, provocado pelo sacrifício das empresas públicas na política contencionista, causou atritos entre a Fazenda e o Planejamento- João Sayad- e foram responsáveis pelo desgaste de sua gestão. Para o FMI, Dornelles não fizera tantos ajustes quanto se esperava e, para a direção do Partido do Movimento Democrático Brasileiro- PMDB, governante, suas medidas de arrocho eram consideradas excessivas, tornando sua presença inviável.


A posse de Dilson Funato no Ministério da Fazenda, em outubro de 85, significou a vitória dos setores heterodoxos sobre os ortodoxos no governo Sarney. A opção de Funaro foi o de combater a inflação por meio do crescimento do mercado interno. Sua estratégia foi a de combater a inflação por meio do crescimento do mercado interno. Sua estratégia foi consubstanciada no Plano Cruzado. As principais medidas do plano cruzado foram: introdução de nova moeda, congelamento de preços e salários, conversão de salários pela média dos últimos seis meses, instituição do gatilho salarial, taxa de câmbio fixada no nível de 27/02/85, substinuição de ORTNs por OTN, proibição de reajustes monetários em prazos inferiores a um ano, correção da caderneta de poupança trimestral, instituição da tablita para contratos pre´fixados, política de acomodação do aumento da demanda por moeda e ajuste baseado na reforma fiscal.

A ruptura do processo inflacionário, or meio do congelamento de preços, teve a simpatia da maior parte da população. As tabelas de preços produzidas pela Superintendência Nacional do Abastecimento- Sunab estavam sempre à mão dos consumidores. Foi a época dos fiscais do Sarney. Por conta do reajuste nos salários, aplicados antes do congelamento , ocorreu uma explosão do consumo. Além disso, a diminuição nominal dos rendimentos da poupança fez com que muitos investidores optassem pelo consumo. Por conta disso, as mercadorias começaram a sair das prateleiras. Quando retornavam, com embalagem, modelo ou pesos diferenciados, o preço estava majorado. O congelamento fez com que muitos setores ficassem com os preços defasados, o que levou ao desabastecimento ou à maquiagem dos produtos.

Com o aumento do consumo, o PIB cresceu 7,5%, em 86, mas piorou a situação fiscal, e o desequilíbrio externo retornou de modo agudo (o Plano Cruzado iniciara com reservas de pouco mais de US$ 10 bi). Cabe esclarecer que o Plano Cruzado não foi reformado a tempo por conta do embate eleitoral de 86. Naquela eleição, seriam escolhidos os governadores de estados e os deputados que compariam a Assembleia Nacional Constituinte. Os partidos que apoiavam o presidente Sarney tiveram uma vitória rotunda. O PMDB elegeu 22 governadores, e o PFL, apenas um, no estado do Sergipe.

Depois das eleições, foi lançado o Plano Cruzado II, visando a controlar o déficit público via aumento das tarifas públicas e de impostos indiretos, entre eles, o imposto compulsório sobre viagens e automóveis. Em dezembro, a inflação atingiu 7% ao mês, o que ensejou o disparo do gatilho (reajuste salarial). Estava liquidado o Plano Cruzado II. Em janeiro de 87, a inflação chegou a 17% e o congelamento fez água, terminando oficialmente em fevereiro- as Obrigações do Tesouro Nacional- OTNs foram corrigidas e a indexação retornou firmemente, com reajustes mensais dos salários.

O aumento do consumo interno e das importações ocasionou a crise no balanço de pagamentos. As reservas internacionais caíram para pouco mais de US$ 6 bi, e o superávit da balança comercial declinou de aproximadamente US$ 13 bi em 84-85 para a casa dos US$ 8 bi em 86.

Os ganhos da balança comercial, em 84 e 85, davam uma folga ao Brasil, que nas negociações com os credores podia resistir temporariamente. No entanto, com a citada deterioração, o país foi compelido a novas concessões e, por escassez de divisas, a declarar a moratória unilateral (fevereiro de 87).

Depois da moratória do México (agosto de 82), aconteceu a quda dos dominós, por isso o caso brasileiro de 87 não causou pânico; ele sequer foi compreendido extensamente como um desafio, pois os credores do Brasil conheciam a sua real situação no mercado de divisas. Além disso, o Brasil efetuou, em seu Banco Central- Bacen, os pagamentos em contas abertas para os bancos credores em moeda nacional, então o Cruzado. Não havia má vontade. Faltavam divisas.

A moratória permitiu ao Brasil ganhar alguns meses para recompor sua posição como devedor externo, sem que no plano interno o ministro Funaro lograsse apoio para compor uma estratégia macroeconômica capaz de vaibilizar sua proposta de crescimento econômico. O governo não possuia uma proposta de longo prazo, após o fracasso do Plano Cruzado. Por conta disso, Funaro renunciou em abril de 87, abrindo a vaga para Luís Carlos Bresser Pereira.

A gestão de Bresser Pereira tinha como principais problemas as questões da dívida externa e da inflação. O temor dos grupos exportadores de ma represália por parte dos bancos credores foi o estopim da nova política de Bresser, que consistiu em: reaproximação com o FMI e o Clube de Paris. O ministro eleborou um plano macroeconômico e efetuou duas desvalorizações do Cruzado, que acumularam um impacto cambial de 16,3%. A ideia era estimular as exportações, realinhar os preços relativos e pagar os juros da dívida externa.

O plano macroeconômico combinou elementos ortodoxos com heterodoxos. Seu objetivo foi conter o processo inflacionário e evitar a hiperinflação, enquanto buscava apoio internacional para a renegociação da dívida. bresser pretendia promover um choque deflacionário com o término do gatilho salarial e a cntenção do déficit público. As principais medidas do Plano Bresser, adotadas em junho de 87 foram congelamento de preços, desvalorização cambial, fim do gatilho, congelamento de salários, criação da Unidade de Referência de Preços- URP, congelamento de alugueis, contratos pós-fixados mantidos, tablita para os contratos pré-fixados, política monetária contracionista e política fiscal contracionista.

Assim como o Cruzado, o Plano Bresser obteve resultados positivos no curto prazo, enquanto perdurou o congelamento. As políticas cambiais, combinadas com a contração do consumo doméstico, permitiram ao país recuperar a balança comercial. No entanto, quanto os preços foram descongelados, a inflação disparou. Em novembro, a inflação atingia 15% ao mês. Novemente os agentes econômicos começaram a reajustar seus preços e os trabalhadores a exigir a reposição da inflação.

Na outra frente, o ministro Bresser também apresentou uma proposta de renegociação da dívida que convertia créditos em títulos de longo prazo e dava parcela do deságio em favor do Brasil. Com o acordo de 6 de novembro de 87, os credores recusaram o proposta de Bresser, mas obtiveram a retomada dos pagamentos dos juros. Iniciou-se o gradual reenquadramento do Brasil às regras dos credores externos.

O ministro fixava-se em três pontos, que poderiam trazer alívio para o problema da dívida, apesar das circustâncias de fechar acordo de longo prazo com seguritização, cláusulas incluídas no acordo, priorizar acordo com bancos credores.

A gestão Bresser na Fazenda enfatizou as chamadas tecnicidades do processo da dívida, adotando complexas rotinas para encaminhar as diferentes fases de renegociação e expresar nisso um amadurecimento do Brasil, frente à experiência externa. No entanto, no plano interno, o ministro careceu da undade política necessária à reativação de suas propostas, sendo frequentemente hostilizado e até desprestigiado pelos carteis controlados pelas multinacionais. Sem apresentar resultados concretos e diante do descontrole inflacionário, o ministro Bresser renunciou em dezembro de 87.

A posse de Maílson da Nóbrega, em 18 de dezembro de 87, não alterou a situação de penúria da economia brasileira. Sua política de feijão-com- arroz, baseada no manuseio ortodoxo das políticas monetária e fiscal, levou ao aumento dos juros e da inflação. Do ponto de vista da dívida externa, os pagamentos foram retomados e o governo assinou um acordo de reescalonamento d dívida de US$ 60 bi por 20 anos.

 O ministro Nóbrega evitou o pacote que se desenhava necessário nas condições da gestão heterodoxa, renunciando portanto a esse ponto de vista. Um patamar inflacionário da ordem de 15% ao mês, com um nível de déficit público de cerca de 8% do PIB para o ano de 1988, foram considerados parâmetros satisfatórios para a condução da política econômica. O congelamento do saldo dos empréstimos ao setor público no nível de dezembro de 87 parecia poder limitar o déficit no setor. Em abril e maio de 88 foi aplicado um corte nos salários do funcionalismo, sob a forma de suspensão dos reajustes.

Por outro lado, se as medidas de confisco e bloqueio do déficit público resultaram na sua redução, os superávits da balança comercial exigiram emissões não previstas de cruzados, para cobrir os ganhos em moeda externa. A conversão de parte da dívida externa em capital de risco demandou também emissões monetárias que alimentavam o fluxo inflacionário. Dada a necessidade de correção dos preços dos produtos pelo setor público, a taxa de inflação ao mês avançou do patamar de 17% para cerca de 19% (maio de junho).

Com o avanço da inflação em julho e agosto, o governo tomou as seguintes medidas: adiamento do reajuste dos preços administrados e retomada dos reajustes diante da queda da inflação. Essa inconsistência ficou evidente com o retorno da taxa de 24% em setembro e 27% em outubro. Tornava-se evidente, portanto, a insuficiência do procedimento feijão-com-arroz, para lidar com a crise econômica, cada vez mais profunda.

Apesar de os trabalhadores acusarem o empresariado e o governo de não repassarem a suposta queda administrada da inflação, foi acordado um limite máximo ao reajuste dos preços (24,5%), o que permitia adiar temporariamente o quadro de hiperinflação. Nesse ínterim, esperava-se que o governo lograsse elaborar novo pacote que eliminasse a indexação e a URP perante a inflação. Esse instrumento foi a reforma monetária conhecida com o nome de Plano Verão, instituída em 14 de janeiro de 89.

O Plano Verão foi caracterizado por reforma monetária, criação de nova moeda (Cruzado Novo), programa de estabilização, extinção da URP, elevação dos juros, corte de despesas públicas, eliminação da correção salarial em janeiro, conversão dos salários para a nova moeda pela média dos 12 meses anteriores, livre negociação para reajuste de salários, congelamento de preços, deslocamento da base de IPC para 15 de janeiro, cotação do dólar fixada em NCz$ 1,00, alugueis convertidos para valores médios, extinção da OTN, adoção de tablita, ajuste fiscal (reforma administrativa, extinção de cinco ministérios, demissão de funcionários, privatização, regidez no orçamento), política monetária (aumento da taxa de juros, limitação do crédito, suspensão dos leilões mensais de conversão da dívida externa em capital de risco, suspensão de reempréstimo dos depósitos dos bancos credores no Bacen e liberação das importações e da política cambial).

Como medidas corretivas para o dia-a-dia, o governo procedeu a minisdesvalorização da moeda, sem nenhuma regra preestabelecida, reajustes salariais parciais num montante de 21,6%, face às prévias variações do INPC e da URP, e aos acordos das greves gerais de março. A balança comercial do primeiro trimestre alcançou um saldo positivo, com US$ 20,3 bi de acumulado para o período de março de 88 a março de 89. Em abril, criou-se o novo indicador, o Bônus do Tesouro Nacional- BTN, em substituição à extinta OTN, que só poderia ser aplicada em novos contratos, com prazo mínimo de 90 dias.

Ao liberar os reajustes salariais mensalmente, com base na inflação do mês precedente, e iniciar uma pólítica de taxas de juros crescentes, com aumento da expansão monetária (de maio de 88 a maio de 89 igual a 1.000%), o governo eliminou, na prática, a possibilidade de gerir a conjuntura. No quadro da crescente disputa eleitoral, chgou-se, portanto, à hiperinflação tão temida.

Nesse último período, portanto, o processo inflacionário atingiu proporções descontroladas, em grande parte em função da perda de controle sobre inúmeras variáveis da economia doméstica. Uma vez que a inflação sempre teve características crônicas no país, apontá-la como causa de todos os problemas conjunturais acrescenta muito pouco. Os governos Castelo Branco e Costa e Silva (64-70) indicaram que a inflação só fica controlada em condições recessivas. Na verdade, o déficit público num país imenso e díspar atuava como graxa que minizava os desequilíbrios regionais e setoriais, permitindo aflorar uma estrutura de preços relativamente nacional. O abandono desse poder de ingerência pública contribuiu mais para o retrocesso do que apra o equilíbrio social e econômico.

Nos anos 80, as tentativas de reformas monetárias dos Planos Cruzados, Cruzadinho, Bresser, VErão, etc, não conseguiram controlar ainflação e tampouco criar um clima propício para o desenvolvimento econômico. A origem das distorções econômicas estava na má gestão da dívida externa, que condicionava a política econômica no sentido de criar excedentes para fazer frente às obrigações com o exterior.

Um ambiente tão instável repercutiu negativamente sobre as atividades empresariais no país. O principal indicador do nível de confiança dos empresários é a taxa de investimentos, que se mostrou insuficiente nos anos 80. Conforme se observou, a taxa trimestral de investimentos  em relação ao PIB declinou do patamar de 24,65%, no primeiro trimestre de 80, ao nível de 15,58%, no primeiro trimestre de 89. Nota-se uma breve recuperação em 86 no contexto de conjuntura otimista do Plano Cruzado.

A década de 80 foi um laboratório para a gestão empresarial. Tentar planejar investimentos, calcular de forma satisfatória os custos, adequar os preços em meio a uma conjuntura inflacionária eram tarefas árduas para os gestores. Na maior parte das grandes empresas, o lucro financeiro era bem supeiror ao lucro operacional. Foi a Era de Ouro dos economistas, tesoureiros e contadores.

Para dimensionar a estagnação econômica da década de 80, foram selecionados dois importantes indicadores: vendas internas de automóveis e produção de máquinas. Eles são significativos porque oferecem uma visão do setor de bens de consumo durável e do setor de bens de capital. Em ambos, verificou-se a mesma tendência, qual seja, a desaceleração da economia a partir de 80, uma recuperação durante o Plano Cruzado e a nova estagnação entre 87 e 90. Tal perfil, justifica a pecha de que os anos 80 foram a primeira década perdida. Primeira, porque, infelizmente não foi a última.

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