Desigualdade: estão usando estatísticas para enganar você

Com números, também dá para fazer um argumento fraco parecer forte e importante

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Diz uma velha piada dos meios acadêmicos que estatística é como biquini: mostra tudo, menos o essencial. Outro velho ditado diz ainda que existem mentiras, mentiras deslavadas e estatísticas.

Números e suas interpretações podem ser úteis. Não dá mais para fugir da utilidade que a imensidade de dados e informações disponíveis tem no mundo. Com eles, é possível aprender mais sobre a realidade que nos cerca, tomar melhores decisões e até planejar mudanças.

Mas, com números, também dá para fazer um argumento fraco parecer forte e importante.

Já é quase uma tradição nessa época, logo antes do Fórum Econômico de Davos, a ONG Oxfam lançar os resultados de suas “pesquisas" sobre desigualdade econômica. Pesquisa após pesquisa, somos informados de como a desigualdade está aumentando no mundo. Como as coisas estão cada vez piores, com os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres.
Pena que o estudo é completamente furado.

Vamos mais fundo na questão e retirar o proverbial biquini. A organização não realiza o estudo por conta própria, mas sim usa como base outros estudos já realizados. O texto base para a conclusão da desigualdade é uma pesquisa anual do Banco Credit Suisse, em que aponta o estado da riqueza no mundo.

E como é definida tal riqueza? Para seus fins, o banco utiliza o Patrimônio Líquido das pessoas. Como todo bom administrador sabe, Patrimônio Líquido é o que temos quando pegamos todos nossos ativos (dinheiro, casa, carros e outros bens de valor positivo) e subtraímos de todas as nossa dívidas (hipotecas, financiamentos, cheque especial etc). O que resta é o Patrimônio Líquido.

Como está interessado em mapear seus clientes ricos em potencial, faz sentido para o banco olhar como “rico" apenas as pessoas com Patrimônio Líquido positivo. Afinal, um advogado ou médico recém formados podem ter um bom potencial futuro pela frente, mas ainda não têm cacife para se tornarem bons clientes.

E aí vem uma Oxfam e usa os mesmos dados. Qual o problema? Imagine um casal jovem, ambos recém formados em curso superior, que resolve se casar e financiar um apartamento. Basicamente todo seu potencial de ganho está no futuro. Ainda assim, conseguem crédito e se endividam para ter o sonho da casa própria. Tudo bem até aqui.

Acontece que agora – surpresa! – esse casal possui patrimônio líquido negativo. Se usarmos os dados do Credit Suisse para esse fim, nosso casal é mais pobre que alguém na extrema pobreza que não possui nada mas também não tem nada a oferecer para se endividar. Zero ainda é mais alto que um Patrimônio Negativo, então nosso querido casal é mais pobre que o coitado do mendigo que mora na mesma rua deles (aliás, colocado no “bolo comum” de mais pobres, nosso casal endividado ainda diminui o patrimônio total alocado aos mais pobres, já que o deles é negativo). São como uma âncora distorcendo e fazendo pessoas com qualidade de vida de classe média e média alta parecerem mais pobres do que muitas pessoas realmente na pobreza.

O próprio banco aponta essa distorção em seu relatório, dizendo que, sim, jovens e idosos estariam em classes mais altas, não fosse por sua estrutura financeira. Esse tipo de distorção não incomoda para o fim em questão, já que a ideia é mapear a riqueza.

Por outro lado, causa um esculhambo se utilizarmos os mesmos dados para falar da pobreza. Para você ter uma ideia, pela pesquisa, com US$ 3.210 na conta, acima das dívidas, você está na metade mais rica do mundo. Com US$ 68.800, você está nos 10%. E com US$ 759.900 você está no 1%. Bastante dinheiro, mas a mágica de subtrair dívidas faz todo mundo parecer mais pobre.

O que aprendemos com isso? “Estudos" assim causam impacto e geram notícia. Infelizmente, podem até captar a atenção de algum político desavisado. Infelizmente, se olharmos o que os números realmente representam, veremos que não podemos simplesmente chegar à conclusão mais óbvia.

Ou melhor, felizmente. A única conclusão a que podemos chegar é que as coisas não são tão ruins assim. E isso é bom!

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