Fluxo de dinheiro: não nacional versus transnacional

Os dois fenômenos mais significativos – os fluxos de dinheiro e de informações – não se encaixam em qualquer teoria ou política existentes

Existem inúmeras opiniões a respeito da política de comércio internacional, especialmente para os Estados Unidos. Todas são defendidas com paixão, mas raramente com muita evidência. Nos últimos sessenta anos, a economia mundial tem crescido mais depressa do que em qualquer época desde a revolução comercial do séuclo dezoito, a qual criou as primeiras economias modernas e também a disciplina da econoomia. E embora todas as economias desenvolvidas tenham estado estagnadas e em recessão nestes últimos anos, a economia mundial ainda está se expandindo rapidamente. Mas ninguém pergunta: Quais são os fatos? O que eles nos ensinam? Acima de tudo, quais são as lições para a política econômica doméstica?

Há lições importantes em quatro áreas: a estrutura da economia mundial, a mudança no significado de comércio e investimento, a relação entre as economias mundial e doméstica, e a política comercial. Em cada uma destas áreas as lições são muito diferentes daquilo que praticamente todos acreditam e afirmam, quer sejam partidários do livre comércio, do comércio administrado ou do protecionismo.

Há quarenta anos, ninguém falava da economia mundial. O termo era comércio internacional. A mudança do termo – e todos hoje falam da economia mundial – indica uma profunda mudança na realidade econômica. Cinquenta ou sessenta anos atrás, a economia além das fronteiras de uma nação – em especial de tamanho médio ou grande – ainda podia ser vista como sendo diferente, separada, como algo que podia ser ignorado com segurança no trato da economia e da política econômica domésticas. Hoje isso é pura ilusão, mas ainda é a posição básica de muitos economistas, políticos e do público em geral, especialmente nos Estados Unidos.

A economia internacional tinha tradicionalmente duas partes: comércio exterior e investimentos no exterior. A economia mundial também tem duas partes, mas elas são diferentes daquelas do comércio internacional. A primeira parte consiste de fluxos de dinheiro e informações; a segunda de comércio-investimento, que estão rapidamente se fundindo numa única transação e são, na verdade, somente dimensões diferentes do mesmo fenômeno, isto é a nova força integradora da economia mundial, as alianças através de fronteiras. Mesmo que ambos os segmentos estejam crescendo depressa, os fluxos de dinheiro e informações estão crescendo mas rápido e merecem ser examinados em primeiro lugar.

O centro mundial dos fluxos monetários, o mercado interbancário de Londres, manuseia num dia mais dinheiro do que seria necessário em muitos meses – talvez um ano inteiro – para financiar a economia real do comércio e dos investimentos internacionais. Da mesma forma, as transações de um dia nos principais mercados monetários – Londres, Nova Iorque, Zurique e Tóquio - excedem por várias ordens de grandeza aquilo que seria necessário para financiar as transações internacionais da economia real.

Os fluxos de informações – conferências, reuniões e seminários; telecomunicações, por telefone, fax, teleconferência, correio eletrônico; transmissões por computdor; software; revistas e livros; filmes e vídeos e muitas outras comunicações através de novas tecnologias – já podem exceder os fluxos monetários nos honorários, direitos e lucros que geram. É provável que eles estejam crescendo mais rápido que qualquer outra categoria de transações na história econômica.

Os fluxos transnacionais de dinheiro podem ser considerados os sucessores daquilo que os banqueiros chamam de carteira de investimentos, isto é, investimentos feitos para a obtenção de rendas financeiras (normalmente a curto prazo), tais como dividendos ou juros. Mas os fluxos monetários de hoje não só são muitos maiores que os investimentos de carteira jamais foram, mas tabém são quase totalmente autônomos e incontroláveis por qualquer agência nacional ou, em grande parte, por qualquer política nacional. Acima de tudo, seu impacto econômico é diferente. Os fluxos monetários dos investimentos em carteiras tradicionais eram estabilizadores da economia interncional. Eles fluíam de países com baixo retorno a curto prazo – baixos devido às baixas taxas de juros, aos preços excessivos das ações ou à moeda excessivamente valorizada – para países com retornos a curto prazo mais altos, restauranto assim o equilíbrio. Eles reagiam à política financeira ou condição econômica de um país. Hoje os fluxos monetários mundiais tornaram-se os grandes desestabilizadores. Eles forçam um paíse a programas de impacto, como a elevação de taxas de juros a níveis astronômicos, os quais sufocam a atividade das empresas, ou a desvalorização de uma moeda da noite para o dia para abaixo da sua paridade, gerando, assim, pressões inflacionárias. E os fluxos monetários de hoje não são movidos, em sua maioria, pela expectaiva de maior renda, mas pela expectativa de lucros especulativos imediatos. Eles são um fenômeno patológico, indicando que taxas cambiais fixas ou flexíveis na realidade não fuancionam, embora sejam os dois únicos sistemas conhecidos até agora. Como os fluxos monetários são um sintoma, é inútil os governos tentarem restringi-los, por exemplo taxando seus lucros; eles simplesmente irão para outro lugar. Eles são uma febre, mas não a doença. Tudo o que se pode fazer – e precisa ser incluído nas especificações de uma política comercial eficaz – é embutir na economia resistência contra os impactos dos fluxos monetários.

Em contraste com os fluxos monetários, os impactos econômicos dos fluxos de informações são benéficos. Poucas coisas estimulam tanto o crescimento econômico como o desenvolvimento rápido da informação, seja em telecomunicações, dados de computador, redes de computadores ou no acesso (embora distorcido) ao mundo exterior proporcionado pelos veículos de entretenimento. Nos Estados Unidos, os fluxos de informações e os bens necessários à sua difusão tornaram-se a maior fonte isolada de moedas estrangeiras. Assim commo não se vê a catedral medieval como um fenômeno econômico – posto que fosse, durante séculos, a maior atividade econômica da Europa depois da agricultura e o maior empregador não militar – também são esquecidos de que os fluxos de informações são um fenômeno primordialmente social. Seus impactos são basicamente culturais e sociais. Fatores econômicos, como os altos custos, restringem os fluxos de informações, ao invés de motivá-los. Contudo, eles constituem um fator cada vez mais dominante na economia mundial.

Portanto, a primeira lição de economia mundial é que os dois fenômenos mais significativos – os fluxos de dinheiro e de informações – não se encaixam em qualquer teoria ou política existentes. Eles nem mesmo são transnacionais, mas sim não-nacionais. Outras informações podem ser obtidas em http://www.administradores.com.br/producao-academica/administracao-antes-invisivel-hoje-afetando-pessoas-e-suas-vidas/7231 .

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