Os impostos, o PIB e a tarifa de ônibus

Os impostos no Brasil são altos? Então a tarifa de ônibus é surreal

Você paga muito imposto, né? E merece educação, saúde, segurança e infra-estrutura de “primeiro mundo” em troca!

Ei, mas você já percebeu que, na média, cada brasileiro paga menos de 1/3 do imposto que um americano paga, e menos de 25% do que um francês paga? O imposto per capita é bem baixo no Brasil, porque o PIB é baixo. Como esperar serviços públicos de excelência com muito menos recursos disponíveis? Talvez a gente precise aumentar bastante os impostos!

Ah, mas os salários no Brasil são bem menores! Como professor brasileiro ganha entre 10 e 20% do que um americano ganha, dá pra gente financiar a educação pública com muito menos. E o mesmo se aplica a outras áreas. Em geral, o custo da mão de obra é muito menor, então dá pra gente ter serviços bons a um custo per capita muito menor, né? Nada de aumentar impostos então!

Se você está balançando a cabeça afirmativamente, por favor seja coerente: saia às ruas para protestar contra o preço das passagens de ônibus. Se você espera que o governo consiga entregar serviços públicos bons com 25% dos recursos de outros países... por que raios a passagem de ônibus tem que ter preços de “primeiro mundo”? Os salários no Brasil são muito menores, e é um escândalo ter um nível de preço para o transporte coletivo que comprometa mais de 17% da renda bruta de quem ganha salário mínimo (isso para quem pega um só ônibus em cada direção). Para efeitos comparativos, um trabalhador aqui em Washington que ganhe salário mínimo vai comprometer 4,17% da sua renda bruta se fizer duas viagens de ônibus diárias. Se a mesma porcentagem fosse aplicada no Brasil, a tarifa estaria nuns 90 centavos.

Ainda não entendeu o argumento? Vou explicar de novo: o Brasil é cheio desses exemplos de “dois pesos, duas medidas”. Quando as classes endinheiradas saem às ruas reclamando dos altos impostos, fazem um argumento baseado em números relativos (como % do PIB). Porém, quando se pensa em tarifa de ônibus, ninguém considera o valor relativo (como % do salário mínimo) – o argumento é sempre baseado em valores absolutos. Se fosse aplicar o mesmo argumento aos impostos, eles teriam que triplicar. O que seria inviável, obviamente.

E pra complicar ainda mais, tem as gratuidades, vale-transportes, etc e tal, que criam assimetrias entre os que têm acesso a esses subsídios e os que não tem. E que criam toda uma burocracia desnecessária.

Ah, e, claro, o transporte público na maioria dos países desenvolvidos é... público! E administrado como um bem público. E subsidiado como um bem público. Por que no Brasil ele é privado? Faça uma busca com as palavras “Barata” e “Swissleaks” e talvez você ache algumas respostas.

Às ruas, cidadãos!

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