Política partidária: direita e esquerda irão explodir juntas

As decisões sobre prioridades ainda estariam por ser tomadas. É provável – Drucker diria certo – que elas irão explodir todos os partidos políticos existentes. Tanto direita como esquerda já perderam grande parte do seu significado

A liquidação do Estado do Déficit não pode mais ser evitada, nem ser adiada por muito tempo, pelo menos na visão de Peter F. Drucker. Ela é claramente a tarefa política número um enfrentada pelas democracias, e será sua realidade política nesta década, o que significa o fim dos sempres crescentes direitos da classe média. Inventados há pouco mais de cento e vinte anos na Alemanha de Bismarck do ano de mil oitocentos e oitenta, os direitos agora tornam-se uma ameaça à própria sobrevivência da democracia, senão do estado moderno. A única maneira pela qual as democracias podem recuperar o controle de suas finanças – e com ele, das políticas econômicas, social e externa - ´cortar fundo os direitos, sejam eles de serviços de saúde (gastos que estão fugindo ao controle em todos os países desenvolvidos), na seguridade social, em pensões e, na Europa, em benefícios aos desempregados.


Sabe-se há muito que os direitos da classe média ameaçaram a prosperidade das democracias, sua saúde e até a sua própria sobrevivênca. Em mil novecentos e oitenta e oito isto foi provado com rigor matemático por Peter G. Peterson (antigo Secreatário do Comércio do presidente Nixon) em seu livro Em tempo de empréstimo: como o crescimento da despesa de direito ameaça o futuro da América. Mas ninguém estava ainda disposto a ouvir.


Qualquer tentativa de cortar esses direitos – ou mesmo de reduzir seu crescimento – aind enfrenta forte resistência. Há vinte e cinco anos, os eleitores suecos puseram para fora o governo liberal que propôs um limite para alguns programas que haviam claramente escapado do controle. Pouco depois, Silvio Berlusconi, primeiro-ministro da Itália, foi posto para fora do governo pelo mesmo motivo. Alguns meses antes, ele havia sido eleito com base na promessa de reformar os direitos. Mas quando propôs de fato um exame dos ultrajantes abusos do sistema de pensões do país, seus parceiros de coalizão o abandonaram.


Todos na itália sabem que centenas de milhares – algumas estimativas falam em milhões – de homens fisicamente aptos estão recebendo fraudulentamente pensões vitalícias por invalidez quando ainda têm menos cinquenta ou mesmo quarenta anos. Todos também sabem que as pensões são a causa principal dos problemas financeiros da Itália; elas representam a metade dos gastos sociais do país, isto é, um oitavo da renda disponível e todo o seu déficit.


Entretanto, cortar os direitos – mesmo os fraudulentos – ainda não era politicamente correto.


Assim, o fato de republicanos e democratas agora concordarem que a assistência médica – há mito a mais sagradas das vacas sagradas – precisa ser podada é uma grande mudança. Todaviva, ainda não é sabido se o Congresso será capaz de fazer algo tão impopular. Na verdade, a classe média não tem escolha. Esses direitos serão cortados em todos os países desenvolvidos. A única dúvida é por qual método. A maneira menos penosa é fazê-lo abertamente elevando, por exemplo, para setenta e cinco anos a idade na qual os americanos obtêm os benefícios plenos da seguridade social. Caso isso não seja aceito, a classe média terá seus direitos cortados pela inflação, ou seja, pela destruição do poder de compra das suas rendas. Ou haverá drásticos aumentos de taxação, provavelmente, no caso dos Estados Unidos, através de substanciais impostos de consumo por cima de impostos de renda já elevados.


E tão logo um grande país corte os benefícios da classe média – por exemplo, se os Estados Unidos aceitarem cortes não apenas simbólicos nos benefícios de assistência médica – esse será o sinal para reformas em todas as outras democracias, o que anunciará o fim do Estado Keynesiano do Bem-estar Social tão certamente quanto a perestroika de Gorbachev anunciou o fim do comunismo. Se este anuúncio tratou-se de uma informação verdadeira ou de uma mera evolução do comunismo para se adaptar aos séculos vinte e vinte e e um, isso já é outra análise que não será açambarcada neste texto.


Para que o governo recupere a solvência – e com ela o controle da política – ele será forçado a tomar novamente decisões sobre prioridades e terá novamente de ser forçado a dizer “não”. O primeiro paso poderá ser um retorno à maneira pela qual os orçamentos eram feitos antes do advento do Estado Keynesiano do Déficit: começando-se com as receitas disponíveis, isto é, quanto dinheiro pode ser gasto. Isto força o governo a decidir o que pode e deve ser financiado, dentro dos limites fixados pela disponibilidade de dinheiro. Aquilo que exceder deverá ser recusado. No entanto, desde a Segunda Guerra Mundial – ou pelo menos desde que a Europa Ocidental e o Japão retornaram à prosperidade no final dos anos cinquenta – toda as democracias iniciavam a elaboração do orçamento com a pergunda: Em quê queremos gastar dinheiro? Gastar além das receitas disponíveis, isto é, criar déficit era fácil de financiar. Acima de tudo, era considerado benéfico. É claro que os postulados keynesianos tiveram de dizer “não”, um ato quase imoral. De fato, dizer “não” é penoso. Para um político é arriscado, só que é necessário, pelo menos na visão de Peter F. Drucker.


Mas este seria somente o primeiro passo. As decisões sobre prioridades ainda estariam por ser tomadas. É provável – Drucker diria certo – que elas irão explodir todos os partidos políticos existentes, em toda parte. Tanto direita como esquerda já perderam grande parte do seu significado nas democracias. Por exemplo, na direita estão pessoas que querem que a idade de aposentadoria seja fixada em função das expectativas de vida, isto é, que seja elevada para setenta e cinco anos (há oitenta anos, quando os Estados Unidos adotaram sessenta e cinco anos como a idade de aposentadoria seja fixada em função das expectativas médias de vida na época e foi escolhida por esta razão)? Ou pessoas que afirmam ser um dever dos jovens sustentar os mais velhos? Tradicionalmente, ambas as posições são conservadoras. O que é liberal: o argumento de que o ensino universitário deve ser grautito para todos? Ou o contra-argumento pelo qual os beneficiários devem pagar os custos do ensino com seus altos ganhos depois de formados, para que a geração seguinte possa ter acesso gratuito? Estas questões são novas e não se encaixam no molde existente da política; elas não são econômicas, nem ideológicas. Portanto, pode-se esperar que nas democracias ontras questões, além das políticas e da estrutura política, também estarão em transição. Outras informações sobre o tema podem ser obtidas no livro Administrando em tempos de grandes mundanças de autoria de Peter F. Drucker.

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Tags: direita drucker esquerda gama partidária partidos política

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